Janeiro 23, 2019 getLISBON 2Comment

Hoje vamos ao encontro de 5 portais entre Alfama e a Mouraria que o vão surpreender. Alguns são mais misteriosos mas outros têm histórias curiosas para contar.

Venha descobri-los neste passeio pelo coração de Lisboa!

Os 5 Portais entre Alfama e a Mouraria

Dirija-se a Alfama, mais concretamente ao Largo do Chafariz de Dentro, e inicie o percurso subindo a Rua dos Remédios.

A sua atenção será imediatamente captada pelo magnífico portal Manuelino da Igreja da Senhora dos Remédios, antiga Igreja do Espírito Santo, mas não é desse que hoje lhe queremos falar e porquê? Porque esse encontra-se no seu local de origem apesar de todas as vicissitudes e transformações que a igreja sofreu ao longo do tempo.

Os 5 portais entre Alfama e a Mouraria que lhe trazemos encontram-se fora de contexto. Podemos não conhecer muito da sua história, mas basta um breve olhar para compreender que os edifícios onde os vamos encontrar são muito mais recentes.

Portal  da Calçadinha de Santo Estêvão

Continuando a subir a Rua dos Remédios cruzamo-nos com a Calçadinha de Santo Estêvão e é no nº2 que encontramos o primeiro dos 5 portais.

Portal quinhentista decorado com motivos vegetalistas da Calçadinha de Santo Estevão em Alfama
Portal quinhentista da Calçadinha de Santo Estêvão

Um portal quinhentista decorado com motivos vegetalistas: troncos e flores. De onde terá vindo? Tratar-se-á de um elemento recuperado das inúmeras ruínas que resultaram do terrível terramoto de 1755? Muito provavelmente, mas não o podendo confirmar fiquemos pela contemplação de tão antigo testemunho.

Aproveite para apreciar as pitorescas ruas de Alfama enquanto se encaminha para a Baixa, onde nos aguarda o segundo dos nossos 5 portais entre Alfama e a Mouraria.

Portal da Igreja da Madalena

No cruzamento da Rua da Conceição com a Rua da Madalena, ali mesmo ao lado das lápides romanas das Pedras Negras encontra a Igreja da Madalena.

Atente no seu exuberante portal que exibe muitas das características do estilo Manuelino: arcos compostos, trilobados e contracurvados, ornados com elementos vegetalistas e esferas armilares (estas talvez fruto de um restauro estilístico).

Portal da Igreja da Madalena, no Largo Madalena
Portal da Igreja da Madalena

Mas tínhamos referido que os 5 portais entre Alfama e a Mouraria estavam fora do seu local de origem. Assim é, passamos então a revelar de onde veio este elemento arquitectónico que agora observa.

Com o terramoto de 1755 todas as construções da zona baixa da cidade de Lisboa ficaram destruídas entre elas inúmeras igrejas.

Havia à data quatro igrejas muito próximas: a Igreja da Conceição Velha, a Igreja da Conceição Nova, a Igreja da Misericórdia e a Igreja da Madalena.

A primeira pertencia aos Frades da Ordem de Cristo, ali instalados pelo rei D. Manuel I que tinha mandado transformar em igreja a antiga Sinagoga da Judiaria Grande, edifício sem préstimo após a conversão forçada dos judeus.

A segunda era a nova igreja paroquial, também de devoção a Nossa Senhora da Conceição e por isso apelidada Nova. Ambas ficaram totalmente arrasadas, não tendo tido lugar a sua reedificação.

O plano de urbanização que deu origem à futura Baixa Pombalina optou por reconstruir a Igreja da Misericórdia que se passou a chamar Conceição Velha, pois recebeu os frades que tinham ficado sem morada.

E por último, a Igreja da Madalena também reconstruída, recebeu por sua vez o portal Manuelino da original Igreja da Conceição Velha que se recuperou dos escombros. Fica, assim, desvendada a origem deste magnífico portal, classificado como Monumento Nacional.

Portal da Rua do Regedor

Retomemos o nosso caminho subindo a Rua da Madalena em direcção à Mouraria. Ao chegar ao Largo do Caldas enveredamos pela Rua do Regedor e logo no nº2, do nosso lado direito encontramos o terceiro dos 5 portais entre Alfama e a Mouraria.

Trata-se do portal lateral do antigo Paço de São Cristóvão ou Palácio Vagos, local onde em 1452 teve lugar o casamento da princesa D. Leonor, filha do rei D. Duarte, com o imperador romano-germânico Frederico III.

O edifício foi palco de inúmeras intervenções ao longo dos tempos: ampliações, reconstruções, acrescentos, transformações profundas que lhe mudaram a feição e o uso.

Portal quinhentista do antigo Paço de São Cristóvão na Rua do Regedor
Portal quinhentista da Rua do Regedor

No séc. XVI o palácio terá sofrido melhoramentos e data desse tempo o portal que lhe damos a observar. Contudo, este não seria o seu local original, como testemunha a implantação desajustada ao pavimento.

O portal é formado por um arco recto decorado por toros torsos que lateralmente formam colunelos com capitéis vegetalistas e bases facetadas assentes em plintos cilíndricos mais recentes

Portal do Largo da Severa

Embrenhemo-nos de novo por um bairro típico de Lisboa, a Mouraria. Ruas estreitas, casas de ressalto e pedras foreiras distraem o nosso olhar, mas o caminho não tem que enganar.

Atravesse o Largo de São Cristóvão e siga sempre em frente pela Rua de São Cristóvão, Rua das Farinhas, Largo da Rosa, Rua Marquês Ponte de Lima e aí sim vire à direita pela Rua da Guia onde encontrará o Largo da Severa e a Rua do Capelão, morada da mítica fadista Maria Severa Onofriana (1820-1846).

Aqui encontrará muitas referências a fadistas: o busto de Fernando Maurício, placas evocativas, tributos… mas isso é outra história! Não nos percamos do nosso objectivo que é ir ao encontro dos surpreendentes 5 portais entre Alfama e a Mouraria.

Já sem placa, mas que sabemos ter sido o nº9 do Largo da Severa, deparamo-nos com um discreto portal em arco recto, constituído por pedras muito antigas que emolduram uma porta moderna.

Portal do Largo da Severa que apresenta lintel esculpido com símbolos de protecção
Portal do Largo da Severa que apresenta lintel esculpido com símbolos de protecção

Surpreende-nos o lintel esculpido em simetria com símbolos de protecção cristãos: Rosáceas, Chaves de São Pedro, Rosetas Hexapétalas, Flores-de-Lis, o motivo central já se perdeu mas adivinha-se a representação de uma Vieira.

Trata-se sem dúvida de um salvado de uma ruína, mas de onde veio esta curiosa pedra poderá permanecer para sempre um mistério.

O olisipógrafo Norberto de Araújo refere que o topónimo Rua da Guia tem a sua origem no séc. XVIII e se relaciona com a existência de um oratório armado numa parede que merecia a devoção dos habitantes locais que ali se concentravam no fim das tardes para realizar as suas orações em conjunto. Poderão estas pedras ser provenientes deste oratório há muito desaparecido…?

Portal da Rua da Mouraria

Prossigamos pela Rua do Capelão até chegar à Rua da Mouraria. Encontra-se quase a chegar à Praça Martim Moniz, mas não sem antes se deparar com outro magnífico portal, o quinto e último do nosso percurso 5 portais entre Alfama e a Mouraria. Este tem uma história bem curiosa.

O Colégio dos Meninos Órfãos da Invocação de Nossa Senhora do Monserrate teve a sua origem em 1273 por iniciativa da rainha D. Brites, mulher de D. Afonso III. Em 1549 outra rainha, D. Catarina mulher de D. João III, deu novo fôlego a esta obra e o portal que observamos será deste período.

Mais uma vez estamos perante um edifício profundamente transformado, mas mesmo que este portal se encontre no seu local de origem, apesar do edifício já não ser o primitivo, uma coisa é certa, terá ruído e voltou a ser precipitadamente reconstruído.

Se observarmos com atenção podemos constatar que as bases das colunas se encontram em cima no local dos capitéis e os capitéis no lugar das bases.

Já alguma vez tinha reparado? 😉

Magnífico portal da Rua da Mouraria. Se observarmos com atenção podemos constatar que as bases das colunas se encontram em cima no local dos capitéis e os capitéis a fazer as vezes de bases.
Portal da Rua da Mouraria

Todas estas mudanças de elementos arquitectónicos dos seus locais de origem podem surpreender o leitor mas temos de lembrar que até ao séc. XVIII não havia preocupação com a preservação dos edifícios.

Ou seja, quando a funcionalidade prática ou estética estava comprometida, levavam-se a cabo transformações, acrescentos. Se a função deixasse de existir simplesmente se passava à demolição e à reciclagem dos elementos que constituíam os edifícios. Não havia desperdícios!

Alegremo-nos com a existência destes portais deslocados do seu local original. Eles falam-nos não só de si próprios como dos nossos antepassados que os apreciaram e reaproveitaram, dando-nos a possibilidade de nos surpreender.

Conseguimos surpreendê-lo?

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