Janeiro 15, 2020 getLISBON 2Comment

Com este artigo sobre a Casa-Museu Medeiros e Almeida pretendemos chamar-lhe a atenção para um ainda jovem e discreto, mas surpreendente museu.

Nele encontra uma colecção ecléctica de obras de arte nacionais e estrangeiras, de valor inestimável, reunidas por um grande coleccionador que quis deixar o seu espólio à fruição pública.

Se aprecia artes decorativas e histórias curiosas não pode perder esta peculiar Casa-Museu, instalada num palacete situado nas proximidades da Av. da Liberdade no centro de Lisboa.

O Fundador

Casa-Museu Medeiros e Almeida - Retrato do fundador e vistas do quarto e do salão
Retrato do fundador e vistas do quarto e do salão

A Casa-Museu Medeiros e Almeida deve o seu nome a António Medeiros e Almeida (1895-1986), um prestigiado empresário português e paralelamente um destacado coleccionador internacional de obras de arte.

De origens açorianas, nascido em Lisboa na Rua do Salitre, cedo mudou com os pais para o nº12 da Rua Mouzinho da Silveira, uma bonita moradia com risco do prestigiado arquitecto Ventura Terra e decoração do pintor Veloso Salgado, amigo da família.

O seu pai era médico mas participava em tertúlias de artistas. Esta proximidade e interesse pelas artes foram desde cedo uma constante na formação de gosto do futuro coleccionador.

Ainda frequentou o curso de medicina, mas o seu talento estava vocacionado para o mundo dos negócios.

O espírito empreendedor e a sua paixão por automóveis fê-lo aventurar-se, ainda muito jovem, na importação de Inglaterra para Portugal, de automóveis da marca Morris. Cedo percebeu que os carros não estavam preparados para as más condições das estradas nacionais e sugeriu alterações na sua construção junto da marca inglesa, resultando em elevadas vendas.

A partir daí nunca mais parou, tendo os seus interesses estado ligados a negócios tão diversos como a aeronaútica ou a indústria açoriana do açúcar… sempre com grande êxito. 

A História da Casa-Museu Medeiros e Almeida

Casa-Museu Medeiros e Almeida - Palacete da Rua Rosa Araújo
Casa-Museu Medeiros e Almeida – Palacete da Rua Rosa Araújo

António Medeiros e Almeida era casado, desde 1924, com Margarida Pinto Basto (1898-1971), com quem não viria a ter filhos. Em 1943 mudaram-se para um palacete do período de expansão da Av. da Liberdade, na esquina da Rua Mouzinho da Silveira com a Rua Rosa Araújo, muito próxima da casa de seus pais.

As primeiras obras de arte que adquire destinam-se a decorar a sua residência. Mas o seu gosto pelo coleccionismo atinge rapidamente grandes proporções, estimulado não só pelo seu sucesso financeiro, bem como pela abertura do mercado internacional de arte após a II Guerra Mundial.

Torna-se então um famoso coleccionador entre os antiquários e as leiloeiras europeias e no início dos anos 60 começa a tomar forma a intenção de transformar a sua residência numa casa-museu, com o objectivo de garantir a união e conservação do seu rico espólio.

Em pouco tempo a casa precisou de ser ampliada para poder conter tamanha quantidade e variedade de tão valiosas peças.

Para tal, em 1968, encarrega o arquitecto Alberto Cruz, sendo também iniciada a adaptação para um futuro espaço museológico, segundo as precisas indicações do proprietário que se mudará para uma nova morada dois anos depois.

A Fundação com o seu nome será criada em 1972, garantindo suporte e sobrevivência à Casa-Museu Medeiros e Almeida que após dois anos ficará pronta mas que apenas em 2001 abrirá ao público.

O Espólio da Casa-Museu Medeiros e Almeida

Salas do museu e objectos relacionados com personalidades históricas
Salas do museu e objectos relacionados com personalidades históricas

O espólio da Casa-Museu encontra-se dividido em duas áreas museológicas distintas: a habitação dos proprietários e a zona nova que resultou da ampliação e adaptação da casa em museu.

Se na primeira encontramos, o salão, a sala de jantar com a mesa pronta a receber convidados, a biblioteca, o quarto… na segunda estão patentes reconstituições de ambientes harmónicos, compostos por mobiliário e outras peças artísticas de diversas épocas e origens.

Ao contrário do banqueiro e coleccionador Ricardo do Espírito Santo e Silva (1900-1955) que se concentrava na recuperação de produções artísticas nacionais dispersas pelo mundo e com as quais veio a constituir um conjunto de grande unidade e coerência artísticas patente no Museu de Artes Decorativas Portuguesas.

Aqui estamos perante um coleccionador com um gosto eclético tanto no que respeita a tipologias como a épocas e proveniências. A unidade deste espólio consiste na constante elevada qualidade das peças que compõem as diferentes colecções: relógios, porcelanas, leques, mobiliário, pintura, têxteis, jóias, caixas…

Constitui uma das vertentes peculiares deste espólio objectos que para além da qualidade artística têm associadas histórias e/ou personalidades ilustres que lhes acrescentam valor. São os casos do serviço de chá em prata portuguesa que pertenceu a Napoleão Bonaparte durante o seu exílio; de um bidé de porcelana da China que pertenceu à família real francesa; de um relógio de bolso que passou pelas mãos dos generais Junot e Wellington; de uma lareira da casa do escritor Somerset Maugham…

As reservas da Casa-Museu Medeiros e Almeida conservam ainda surpresas que vão sendo expostas à medida que são descobertas e estudadas. Foi o exemplo recente de três estatuetas funerárias egípcias em faiança (chauabtis), datadas entre 380 e 343 a.C., que colocaram este espaço museológico na lista dos museus de Lisboa que conservam e expõem arte do Antigo Egipto.

Destaques para Peças Surpreendentes

Capela onde se reúne uma colecção eclética de arte sacra
Capela onde se reúne uma colecção eclética de arte sacra

Da colecção de arte sacra, entre muitas outras preciosidades, destacamos pela sua impactante dimensão e originalidade, um púlpito indo-português policromado do 1º quartel do séc. XVIII. Hoje sabe-se ser proveniente da Capela da Senhora do Monte em Goa, onde ainda se encontram o alçado e o baldaquino que completavam o conjunto.

Salva de prata encontrada nos escombros do terramoto de 1755 e  uma das doze taças Aldobrandini.
Salva de prata encontrada nos escombros do terramoto de 1755 e uma das doze taças Aldobrandini.

Destaque ainda para duas curiosidades que integram o espólio da colecção de pratas: um conjunto de salva e caneca encontradas em Lisboa nos escombros do terramoto de 1755 e que foram gravadas com a explicação deste facto e ainda uma das doze taças Aldobrandini.

Estas taças quinhentistas, de prata dourada, foram feitas em honra dos primeiros Césares romanos e são constituídas por um pé, um prato decorado com quatro cenas da vida do imperador e uma figura do mesmo ao centro.

No séc. XIX os pratos e as figuras terão sido inadvertidamente trocados. Hoje encontram-se dispersos por museus e colecções particulares e apesar das inerentes dificuldades está de pé a ideia por parte dos proprietários, de rectificar este insólito erro.

Sala das porcelanas -Destaque para o gomil decorado com a esfera armilar, armas pessoais do rei D. Manuel I, 1ª metade do séc. XVI
Gomil decorado com a esfera armilar, armas pessoais do rei D. Manuel I, 1ª metade do séc. XVI

Da sala das porcelanas, cujo espólio abarca vinte séculos de terracotas e porcelanas chinesas, não podemos deixar de destacar aquela que é considerada uma das mais importantes peças da Casa-Museu Medeiros e Almeida. Trata-se de uma das primeiras encomendas europeias, datada da 1ª metade do séc. XVI, um gomil decorado com a esfera armilar, armas pessoais do rei D. Manuel I.

Serão estes motivos suficientes para que faça uma visita a este fantástico museu? Garantimos que há muitos mais… 🙂

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