Julho 11, 2018 getLISBON 2Comment

Qual a origem dos coretos de Lisboa e qual o seu papel na vida da cidade? Porque entraram em declínio? Quantos ainda existem? Vamos descobrir!

O Verão é tempo de festividade, de viver a rua e os espaços abertos e festa não é festa sem música. A música está nas ruas de Lisboa em festivais de rock, jazz, fado e música erudita, abrangendo todas as sonoridades e tipos de público. Para estes eventos são geralmente montados palcos temporários, equipados com todo o tipo de tecnologia que os tempos que vivemos exigem.

Neste panorama que lugar cabe aos coretos de Lisboa? Aquelas curiosas estruturas que ainda podemos encontrar espalhadas um pouco por toda a cidade ainda têm utilidade?

Podemos dizer que sim. Na verdade, os coretos continuam a ser usados nas festas populares e em eventos pontuais, mas constituem sobretudo, marcos de memória e de referência dos cidadãos.

Actualmente são 10 os coretos de Lisboa, mas chegaram a ser mais de 20. Muitos foram demolidos porque se degradaram, porque deixaram de ter uso ou porque o enquadramento urbanístico mudou e o seu lugar deixou de fazer sentido.

 

Origem e Tipologia dos Coretos

Arquivo Municipal de Lisboa; Coreto montado no Rossio por ocasião da visita de Afonso XIII de Espanha, 1903; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000042

Os coretos são uma estrutura elevada, um palco quase sempre coberto, que permite a presença de público em seu redor, destinado à exibição de agrupamentos musicais.

Juntamente com os quiosques, é um equipamento que deriva do Kiosco de origem persa. Uma construção ligeira com cobertura, habitualmente construída no fundo dos jardins ou num local elevado onde se podia gozar de boa vista. Tratava-se de um lugar de descanso onde se podia usufruir da sombra que esta proporcionava ou proteger de uma chuva súbita, o que hoje chamaríamos uma pérgula.

Os coretos eram implantados em jardins ou praças e ofereciam ao público concertos gratuitos ao fim-de-semana, constituindo programa de lazer e fruição de espaços verdes.

A base destas construções era, geralmente, em alvenaria ou em cantaria com o interior vazado. Permitia criar um espaço de arrecadação para arrumação de cadeiras para o público e para os músicos, estantes e outro material, assim como ferramentas de jardinagem utilizadas na manutenção do espaço envolvente.

No que respeita à estética, predominava o gosto oriental da sua origem, então em voga, associado à emergência do design e à moderna arquitectura do ferro.

 

Coretos Móveis e Fixos

Arquivo Municipal de Lisboa; Comemorações do 1º aniversário da República Portuguesa, Coreto no Largo do Corpo Santo, 1911; António Novais (1854-1940); PT/AMLSB/ANV/000797

Os coretos começaram por ser estruturas efémeras que eram construídas aquando da realização de festas sazonais ou eventos importantes, estávamos no final do século XVIII.

Estas eram construídas em materiais mais perecíveis como a madeira, sendo os têxteis e decorações substituídos em função do evento.

Quer se tratasse de uma festa de cariz popular como os arraiais, as feiras e romarias; ou de carácter oficial como as visitas de chefes de estado, comemorações ou exposições, os coretos tinham um lugar de destaque.

Enquanto equipamentos fixos surgiram associados ao período de desenvolvimento e expansão das cidades, no final do século XIX, fazendo parte integrante do equipamento dos novos projectos urbanísticos. Coretos, candeeiros, chafarizes, bancos, urinóis e casas de banho públicas, quiosques e gradeamentos de segurança, serviam a população e regulavam o espaço público.

O primeiro coreto fixo de Lisboa foi construído no Passeio Público em 1848, um jardim murado que marcava o limite norte da cidade. Foi demolido em 1884 na sequência da abertura da Avenida da Liberdade que permitiu o alargamento da cidade.

 

Contexto Político e Social

Arquivo Municipal de Lisboa, Bernardino Machado discursando no comício republicano, realizado na antiga Avenida Dona Amélia, actual Avenida Almirante Reis, 1908; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/ACU/001258

Como vimos, o surgimento dos coretos data do século XVIII mas o seu papel adquire realmente importância no século seguinte. Um pouco por toda a Europa, traduzirá o gosto e mentalidade de um período pós-revolucionário, liberal e democrático.

Os políticos e mecenas do final do século XIX e início do século XX apoiavam uma oferta cultural no espaço público promovendo novas actividades lúdicas, instrução e nivelamento social. A música assumirá um papel fundamental neste objectivo e passará a estar sempre presente em todos os tipos de eventos.

Enquanto as bandas actuavam nos coretos, o público estava dispensado de convenções. Na rua podia-se estar sentado ou de pé, dançar ou passear. As bandas, militares ou filarmónicas, traziam para a rua adaptações de música erudita, destinada aos ouvidos de todos. Nas colectividades os elementos das filarmónicas, constituídos por diferentes estratos sociais privavam, sendo as diferenças atenuadas pela adopção de farda.

Em suma, o coreto está ligado à ideia de liberdade e democratização da cultura, objectivos dos ideais revolucionários e republicanos.

O seu declínio, no século XX, relaciona-se com o período dos conflitos mundiais e a emergência dos regimes totalitários associado ainda ao aparecimento da rádio e mais tarde da televisão. Estes novos meios de comunicação e diferentes formas de ouvir música proporcionaram uma atitude mais privada e individual.

Em Portugal, a política liberal será fortemente abalada durante o Estado Novo. As políticas de isolamento e clima de Guerra Colonial criaram um ambiente adverso à realização de festas. A juventude que geralmente caracterizava os elementos das bandas dividiu-se entre a emigração e a guerra.

Nas décadas de 80 e 90 foram construídos diversos coretos em Lisboa. Esta prática traduz a consolidação do regime democrático e o interesse em fomentar iniciativas culturais locais. O coreto surge assim como equipamento público agregador de comunidades.

 

Os 10 Coretos de Lisboa

Tempo agora para conhecer os 10 coretos de Lisboa.

Coreto do Jardim da Estrela

Coreto do Jardim da Estrela

Este coreto localizava-se originalmente nos jardins da Avenida da Liberdade, no quarteirão em frente à actual Rua Rosa Araújo. Inaugurado a 15 Agosto de 1894, ali permaneceu até 1935.

Arquivo Municipal de Lisboa; Coreto da Avenida da Liberdade, desde 1935 no Jardim da Estrela ; José Chaves Cruz (1870-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/CRU/000359

Com o aumento do tráfego automóvel e a ocupação mais comercial e de serviços da avenida, o coreto deixou de atrair público ao fim-de-semana. Foi então desmanchado e reconstruído no Jardim da Estrela, onde ainda hoje se encontra.

Este coreto foi projectado por José Luís Monteiro, arquitecto de formação francesa que também foi responsável pela nave da Estação do Rossio, entre outras peças de referência.

Em estilo francês é o maior e, indiscutivelmente, o mais bonito dos coretos de Lisboa.

Coreto da Praça da Viscondessa dos Olivais

Coreto da Praça da Viscondessa dos Olivais
De autor desconhecido, inaugurado em 1896, é o coreto com tipologia mais antiga e simples, de base quadrangular em tijolo e cantaria. Não restam dúvidas de qual a sua funcionalidade pois são bem visíveis duas liras cruzadas no remate da cobertura, construída em madeira e chapa em quatro águas.

Coreto da Praça José Fontana

Coreto da Praça José Fontana

Inserido na malha urbanística das Avenidas Novas, situa-se no Jardim Henrique Lopes de Mendonça que foi construído nos finais da década de 80 do século XIX.

Aqui existiu um primeiro coreto construído em 1863, demolido em 1909 devido à construção do Liceu Camões.

Foi então aprovada em 1912 a construção deste novo coreto, com projecto de José Alexandre Soares, um arquitecto também bolseiro em Paris e aluno de José Luís Monteiro. Tem dimensão e características muito parecidas com o do Jardim da Estrela.

Coreto de Carnide

Coreto de Carnide

Situado no actual Largo do Coreto, marca o centro histórico de Carnide.

Em Abril de 1929 coincidiu a sua inauguração com a activação da linha de eléctrico n.º 13 que aproximou esta zona do centro de Lisboa.

Com o forte ciclone de 1941 ficou sem cobertura, tendo recebido uma nova apenas em 1984, com traço do arquitecto João Parrinha.

Coreto do Largo do Olival no Beato

Coreto do Largo do Olival no Beato

Este coreto está inserido numa zona fortemente industrializada no final do século XIX, Lisboa oriental. Em 1894 foi criada a Sociedade Musical União do Beato que promovia concertos ao ar livre. Mas só em 1957 aquando da comemoração dos 63 anos de existência desta banda então inactiva, a Câmara Municipal de Lisboa aprova a construção de um coreto. Este de estrutura muito simples, em betão armado, sem cobertura e cujo gradeamento de ferro parece ser recente.

Coreto do Jardim Zoológico

Coreto do Jardim Zoológico

Encontra-se no lugar de um outro muito antigo, mandado construir pelo Conde de Farrobo então proprietário da quinta das Laranjeiras, em 1841. Era sem dúvida uma construção curiosa lamentavelmente demolida em 1935, dado o avançado estado de degradação, e substituída por um estrado de madeira.

Arquivo Municipal de Lisboa; Jardim de Inverno e coreto do Jardim Zoológico, post. 1905; A80021

O actual coreto foi construído em 1988 e situa-se na zona de acesso gratuito do Jardim Zoológico de Lisboa. Apresenta uma base octogonal e cada lado é revestido com azulejos com motivos relacionados com a vida selvagem.

Coreto do Jardim da Parada, Campo de Ourique

Coreto do Jardim da Parada, Campo de Ourique

Será legítimo estranhar que o Jardim Teófilo Braga ou da Parada não estivesse equipado há muito com um coreto fixo. Neste bairro de Campo de Ourique, construído no final do século XIX, ideologicamente conotado com os ideais republicanos, faria sentido que existisse no centro do seu emblemático jardim um coreto.

Contudo, não temos notícia senão do actualmente existente que com certeza não será anterior a 1987, uma vez que não consta de um levantamento apresentado por Baltazar Matos Caeiro no seu livro Os Quiosques de Lisboa.

Coreto do Jardim do Campo das Amoreiras, Charneca

Coreto do Jardim do Campo das Amoreiras, Charneca

Inserido num amplo jardim, próximo da sede da Banda Musical e Artística da Charneca, da Junta de Freguesia da Charneca e da magnífica Quinta Alegre, terá sido construído na década de 90 do século XX.

Foi com a remodelação de 2001 que foram inseridos os azulejos do ceramista José João Gonçalves. Neles podemos observar representações de locais da freguesia inclusive um dos outros coretos de Lisboa, o do Largo das Galinheiras, e um verso de José Carlos Ary dos Santos.

Coreto do Largo das Galinheiras

Coreto do Largo das Galinheiras

Situado num bairro mais periférico e multicultural, este coreto edificado nos anos 90 propõe-se como um marco de identidade do local. Ponto de encontro de culturas e desenvolvimento de actividades que visam promover o convívio entre população.

Coreto do Bairro do Condado em Marvila

Coreto do Bairro do Condado em Marvila

Construído por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa no final da década de 90, constitui, como o anterior, um equipamento municipal que visa contribuir para a formação da identidade de uma comunidade.

 

2 thoughts on “Coretos de Lisboa, Memórias de Liberdade e Identidade

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