Junho 10, 2020 getLISBON 0Comment

O escultor Costa Motta (tio) não é dos mais conhecidos do grande público. Mas sabia que são muitos e emblemáticos os monumentos de Lisboa que têm a sua assinatura? 

Os seus primeiros trabalhos, realizados em 1894, foram os túmulos do navegador Vasco da Gama (1469-1524) e do poeta Luís de Camões (1524-1580).

Encontra-os lado a lado, sob o coro alto da igreja do Mosteiro dos Jerónimos. Ambos apresentam a mesma tipologia e estética neo-manuelina. Por se destinarem a tão proeminentes figuras da história de Portugal e pela sua localização constituem grandes atracções turísticas e são por isso das suas peças mais conhecidas. 

Mas, apesar de vistosos, trata-se apenas das suas primeiras obras e sem dúvida não serão as melhores…

Quem Foi o Escultor Costa Motta (Tio)

António Augusto da Costa Motta (1862-1930) foi um notável escultor português, representante da corrente naturalista, da transição dos sécs. XIX e XX.

O seu nome é sempre acompanhado da designação tio, a fim de não ser confundido com o seu sobrinho (1877-1956), homónimo e também escultor.

Iniciou os estudos artísticos em Coimbra, a sua cidade natal, mas em 1883 ingressou a Escola de Belas-Artes de Lisboa onde cursou escultura.

Ali foi aluno de figuras relevantes da escultura portuguesa como António Tomás da Fonseca, Silva Porto, Simões de Almeida (tio), Alberto Nunes e Vítor Bastos. Este último, entre outras obras, foi o autor das estátuas do 1º registo do Arco do Triunfo da Praça do Comércio

Apesar das evidentes qualidades expressivas presentes em peças emblemáticas do seu trabalho, das quais destacamos O Cavador (1913) ou o Poeta Chiado (1925), este será quase na totalidade dedicado à clássica estatuária monumental e à produção de bustos.

Este período foi particularmente fértil no que respeita a concursos e encomendas directas para a construção de memoriais. Este facto permitiu-lhe ser um dos poucos escultores do seu tempo a viver exclusivamente desta actividade.

A Obra Pública do Escultor Costa Motta (Tio) em Lisboa

Vamos, então, conhecer os vários trabalhos deste escultor que com grande expressividade e realismo contribuem para o enriquecimento do património artístico da nossa cidade.  

Monumento a Afonso de Albuquerque (1901)

Monumento localizado em frente ao Palácio de Belém, homenageia o destacado guerreiro, estratega e 2º governador da Índia, Afonso de Albuquerque. Estátua de bronze sobre coluna em pedra decorada em estilo neomanuelino e pedestal, de forma octogonal que apresenta quatro baixos-relevos e quatro Virtudes.
Monumento a Afonso de Albuquerque, Belém

Este monumento localizado em frente ao Palácio de Belém homenageia o destacado guerreiro, estratega e 2º governador da Índia, Afonso de Albuquerque (1452-1515).

Trata-se do primeiro concurso que o escultor Costa Motta (tio) ganhou em 1892, em parceria com o arquitecto Silva Pinto, e com o qual iniciou a sua carreira profissional.

A iniciativa de erigir este monumento, assim como da realização dos dois túmulos do Mosteiro dos Jerónimos, partiu do escritor, historiador e político Luz Soriano (1802-1891) que para o efeito deixou em testamento essa vontade e os meios financeiros para a sua concretização.

Contudo, o escultor considerou que teve de conter a sua criatividade, dada a quantia exígua para o que julgava ser merecido a tão inspiradora personalidade.

Assim, foi necessário que o Estado fornecesse o bronze para a estátua que encima a longa coluna decorada em estilo neo-manuelino. 

A estátua foi fundida no Arsenal do Exército e o seu molde pode hoje ser apreciado na Casa dos Gessos, património pertencente ao Museu Militar.

O pedestal, de forma octogonal, apresenta quatro baixos-relevos e quatro Virtudes. Estas grandes figuras aladas simbolizam as qualidades atribuídas a Afonso de Albuquerque: Génio, Força, Valor e Justiça.

Monumento a Eduardo Coelho (1904)

The Work of the Sculptor Costa Motta (Tio) in Lisbon: Monumento a Eduardo Coelho (1835-1889), jornalista e fundador do jornal Diário de Notícias em 1864, implantado no Jardim de São Pedro de Alcântara
Foto da esquerda: Monumento a Eduardo Coelho no Jardim de São Pedro de Alcântara, 2020; Foto da direita: Arquivo Municipal de Lisboa; 19–; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000494

Implantado no Jardim de São Pedro de Alcântara encontramos o monumento a Eduardo Coelho (1835-1889), jornalista e fundador do jornal Diário de Notícias em 1864.

Esta obra conjuga duas esculturas de bronze do escultor Costa Motta (tio) e a complexa peanha, de gosto eclético então em voga, do arquitecto Álvaro Machado.

Além do busto do homenageado observa-se a figura de um rapaz enérgico e em movimento. Este constitui um tributo aos ardinas, jovens ou mesmo crianças, que percorriam a cidade apregoando e vendendo este jornal.

Esta profissão foi uma novidade então introduzida pelo revolucionário meio de comunicação que apostava num misto de informação e publicidade, permitindo um preço acessível a todas as bolsas; na notícia isenta de opinião e polémica; e na simplicidade e clareza, alcançando leitores de todas as classes, sexos ou convicções.

Originalmente a estátua do rapaz estava mais elevada, ficando a sua cabeça ao nível do espaço onde hoje se encontra um medalhão de bronze. Este foi introduzido em 1914 aquando da comemoração dos 50 anos de existência do jornal e exibe a efígie de Tomás Quintino Antunes, conde de São Marçal, co-fundador e segundo director do matutino que marcou de muitas formas a vivência de Lisboa.

2º Monumento a Sousa Martins (1907) e Monumento a Pinheiro Chagas (1908)

A Obra do Escultor Costa Motta (Tio) em Lisboa: Monumento ao Dr. Sousa Martins no Campo Mártires da Pátria e Monumento a Pinheiro Chagas na Avenida da Liberdade
Monumento ao Dr. Sousa Martins, Campo Mártires da Pátria e Monumento a Pinheiro Chagas, Avenida da Liberdade

Estes são dois interessantes monumentos que já lhe demos a conhecer em artigos anteriormente publicados.

O primeiro corresponde ao 2º monumento erigido na Colina de Santana ao Dr. Sousa Martins, o Santo Laico, ainda hoje local de culto e devoção. 

O segundo a homenagem ao escritor, jornalista e dramaturgo Manuel Pinheiro Chagas (1842-1895) presente em A Escultura da Av. da Liberdade – Nascente.

Estátua O Cavador (1913)

O Cavador, presente no Jardim da Estrela desde 1913. A torção do corpo, a ilusão de movimento e expressividade, associadas à indumentária sem embelezamentos, fazem deste um bom exemplo das capacidades plásticas e da intenção deste escultor.
O Cavador, Jardim da Estrela

O Cavador, presente no Jardim da Estrela desde 1913, é uma obra com carácter diverso das anteriores e apresenta algumas novidades dado o seu carácter realista e a sua implantação.

Podemos dizer que estamos perante um instantâneo fotográfico. A torção do corpo, a ilusão de movimento e expressividade, associadas à indumentária sem embelezamentos, fazem deste um bom exemplo das capacidades plásticas e da intenção deste escultor.

Por outro lado esta é a primeira peça onde o escultor Costa Motta (tio) elimina o pedestal, vontade pressentida mas ainda não totalmente assumida na representação do ardina que vimos anteriormente.

Infelizmente intervenções posteriores escavaram o terreno em volta da estátua e a sua base de suporte, que se encontrava enterrada, funciona hoje como pedestal o que claramente desvirtua a ideia original do escultor.

Conjunto Escultórico O Lavrador ou Sagrada Família (1918)

Conjunto Escultórico tributo ao povo e, em simultâneo, uma alusão à Sagrada Família. Casal de camponeses em bronze, composto por um homem que caminha a pé, transportando uma enxada ao ombro e uma mulher sentada num burro com um bebé ao colo.
Conjunto Escultórico O Lavrador ou Sagrada Família, Jardim 5 de Outubro

Este conjunto escultórico de pequena dimensão implantado num discreto jardim torna-o desconhecido de muitos e talvez por isso uma das suas peças mais curiosas.

Sobre um discreto pedestal no Jardim 5 de Outubro, também conhecido por Jardim da Burra, junto à Basílica da Estrela, encontramos um casal de camponeses em bronze. 

Composto por um homem que caminha a pé, transportando uma enxada ao ombro e uma mulher sentada num burro com um bebé ao colo, constitui um retrato realista da gente simples do campo. Um tributo ao povo e, em simultâneo, uma alusão à Sagrada Família.

Estátua Maria da Fonte (1920)

Monumento à Maria da Fonte no Jardim Teófilo Braga em Campo de Ourique. A estátua em mármore branco é plena de expressão e movimento. Representa uma mulher jovem, em tamanho maior que o real, vestida de traje minhoto e descalça. Com a mão esquerda segura uma arma artesanal, composta por uma vara com uma ponta de ferro, apoiada no ombro. A mão direita ergue uma pistola com a qual incita à luta, apontando o caminho aos seus seguidores.
Estátua da Maria da Fonte, Jardim Teófilo Braga

A figura da Maria da Fonte simboliza o movimento popular e a liberdade que adveio da instauração, em 1820, do regime liberal em Portugal. Foi precisamente aquando da comemoração do seu centenário que foi inaugurado este monumento no Jardim Teófilo Braga em Campo de Ourique.

A estátua em mármore branco é plena de expressão e movimento. Representa uma mulher jovem, em tamanho maior que o real, vestida de traje minhoto e descalça. Com a mão esquerda segura uma arma artesanal, composta por uma vara com uma ponta de ferro, apoiada no ombro. A mão direita ergue uma pistola com a qual incita à luta, apontando o caminho aos seus seguidores.

Estátua do Poeta Chiado (1925)

Monumento promovido pela Câmara Municipal de Lisboa de homenagem ao poeta António Ribeiro conhecido por Chiado. O poeta Chiado enverga as vestes de franciscano, que se julga nunca ter deixado de usar. Encontra-se sentado num banco de madeira que acompanha o seu movimento de se inclinar para a frente e elevando o braço direito, parece desafiar quem passa para uma boa conversa.
Estátua do poeta Chiado, Largo do Chiado

Este monumento promovido pela Câmara Municipal de Lisboa de homenagem ao poeta António Ribeiro (1520?-1591) foi inaugurado em 1925, apesar de contestado por intelectuais da época. Estes consideravam que outros escritores seriam mais dignos de ter representação naquela que é uma das principais praças da cidade.

O escritor terá nascido em Évora onde foi franciscano mas abandonou a vida religiosa e veio viver para Lisboa. Apelidado de poeta Chiado, por ter morado na rua com este nome, hoje Rua Garrett, dedicava-se à poesia jocosa e à sátira. Era conhecido por talentoso mas também por arruaceiro, boémio e provocador.

A sua estátua em bronze assenta sobre um plinto de pedra da autoria de José Alexandre Soares. O poeta enverga as vestes de franciscano, que se julga nunca ter deixado de usar. Encontra-se sentado num banco de madeira que acompanha o seu movimento de se inclinar para a frente e elevando o braço direito, parece desafiar quem passa para uma boa conversa.

Leia também sobre dois dos projectos do arquitecto José Alexandre Soares: os quiosques WC de Lisboa de 1913 e o coreto da Praça José Fontana, construído nos finais da década de 80 do séc. XIX.

Em todas estas obras de Costa Motta (tio) parece-nos que ficam bem patentes as suas qualidades enquanto escultor e a justificação do seu sucesso. A capacidade de conceber uma obra institucional clássica que responde satisfatoriamente à encomenda pública convive em simultâneo com o realismo e a expressividade intemporal que até hoje não nos deixa indiferentes.

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