Outubro 17, 2018 getLISBON 0Comment

Neste post vamos observar curiosos vestígios romanos em Lisboa. Vamos levá-lo até às insólitas lápides romanas das Pedras Negras.

Lisboa Romana

Lisboa foi romana entre o séc. II a.C. e o séc. V d.C. Comprovam-no inúmeros vestígios arqueológicos, linguísticos e culturais.

Desde 195 a.C. que os romanos faziam incursões pela Península Ibérica, mas somente por volta do ano 61 a.C. a cidade de Olissipo foi definitivamente conquistada. Nessa altura tornou-se Felicitas Julia, beneficiando do estatuto de município atribuído por Júlio César.

Desta cidade restam hoje vestígios que nos remetem para a ocupação de três núcleos principais:

  • O cimo da mais alta colina, a de São Jorge,  sede de poder e santuário onde hoje se encontra o Castelo;
  • A encosta onde se encontrava o núcleo populacional e instituições de proximidade como o fórum, o teatro, o mercado, entre outras;
  • E a zona ribeirinha onde se desenvolviam as actividades industriais e portuárias.

A história deste período está contada em diversas exposições museológicas das quais destacamos os dois núcleos do Museu de Lisboa – Teatro Romano e Casa dos Bicos e o Núcleo Arqueológico dos Correeiros da Fundação Millennium BCP que, vivamente, convidamos os nossos leitores a visitar.

Sugerimos também a leitura do nosso artigo História de Lisboa: Um Breve Olhar Através dos Tempos

Mas é de um vestígio quase secreto, por ser tão discreto, que lhe vamos falar! Encontra-se à luz do dia, num local por onde, diariamente, milhares de turistas e lisboetas passam sem reparar.

Prédio do Almada no Largo da Madalena

Em plena Baixa Lisboeta, ao fundo da Rua da Conceição, em frente à Igreja da Madalena encontra-se um edifício que tem uma história insólita para contar.

Este edifício, delimitado pela Travessa do Almada, Travessa das Pedras Negras, Rua da Madalena e Largo da Madalena, foi construído antes do terramoto de 1755 apesar de apresentar já características de edificação pombalina.

Foi construído em 1749 por João Manuel de Almada e Melo, visconde de Vila Nova de Sotto de El-Rei, familiar do Marquês de Pombal, ministro do rei D. José, nas suas propriedades das Pedras Negras.

Ao abrir as fundações para este e outros edifícios foram descobertos diversos achados arqueológicos que remetiam para a existência, neste local, de um templo dedicado à Deusa Cibele, Mãe dos Deuses que simbolizava a fertilidade da natureza.

Quatro lápides romanas retiradas deste local foram tratadas como curiosidade e surpreendentemente integradas na fachada do novo edifício, onde ainda hoje se encontram.

Em 1910 estas lápides romanas das Pedras Negras foram classificadas como Monumento Nacional.

Vamos conhecê-las.

As Lápides Romanas das Pedras Negras

As Quatro Lápides Romanas das Pedras Negras

Trata-se de quatro pedras com inscrições a que o olisipógrafo Norberto de Araújo no seu trabalho Peregrinações em Lisboalivro II, no final dos anos 30 do séc. XX referia como perfeitamente visíveis e legíveis.

Hoje não podemos dizer que as inscrições possam ser claramente lidas, por isso temos de recorrer a outras fontes para satisfazer a sua e a nossa curiosidade.

Atentemos em cada uma delas no sentido ascendente e segundo a descrição na Nota Histórico-Artística da Direção-Geral do Património Cultural.

Lápides Romanas das Pedras Negras

“A primeira lápide encontra-se incompleta, lendo-se apenas MERCVR…/ CAESA…/ AVGVST…/ C. IVLIVS F. IU…/ PERMISS V. DEC…/ DEDIT. F… , permitindo apenas compreender o nome de Caio Júlio, dedicante, e as invocações do deus Mercúrio e do imperador César Augusto. 

A inscrição seguinte é composta pela lápide e por um troço de coluna e pequeno pedestal, e nela se lê DEVM MATR / T. LICINIVS / AMARANTIVS / V. S. L. M, ou Tito Licínio Amarantio por voto dedicou à mãe dos deuses.

Lápides Romanas das Pedras Negras

A lápide maior, com mais de 2 metros de altura, possui a inscrição L. CAECILIO. L. F. CELERI. RECTO. / QVAEST. PROVINC. BAET. / TRIB. PLEB. PRAETORI. FEL. IVL. / OLISIPO, traduzível como Felicitas Julia Olisipo dedica a Lúcio Cecílio filho de Lúcio Celeri recto questor da província da Bética tribuno do povo e pretor. A inscrição de homenagem do povo de Lisboa ao pretor Lúcio Cecílio, da província da actual Andaluzia, é sobretudo importante por testemunhar que o título de Felicitas Iulia, concedido a Lisboa por César Augusto, se conservou durante as centúrias seguintes.

A última lápide é rematada por um pequeno frontão, e exibe a legenda MATRI DE / VM MAG. IDAE / A FRHYG. T. L. / LYCH CERNO / P. H. R. PERN. IIVI / CASS. ET CASS. STA. / M. AT. ET AP. COSS. GAI, dedicatória de Caio Licínio Cerno, da Lycaonia, na Ásia Menor, à deusa Ida da Frígia, mãe dos deuses, na época dos cônsules Marco Atílio e Afrosiano, e do governador Gaio.”

Temos assim duas lápides que invocam a deusa Cibele, uma o deus Mercúrio e uma homenagem da cidade ao antigo magistrado romano Lúcio Cecílio.


Curiosidade

Os especialistas deduzem a existência neste local de um templo dedicado à deusa Cibele, também denominada Idiae Frígiae nome que remete directamente para a sua origem na helénica Ásia Menor. Esta deusa foi mais tarde integrada no panteão romano. A proximidade ao Fórum revela a importância deste culto na cidade de Lisboa. Este facto surpreende o olisipógrafo José Sarmento de Matos, que na sua obra A Invenção de Lisboa, Livro I – As Chegadas, sugere a possibilidade de esta adoração ser já uma realidade anterior à ocupação romana. Refere ainda que o culto a esta divindade inclui o sacrifício do touro o que logo remete para a tradição das corridas de touros em Lisboa.

Apesar de estas lápides romanas estarem preservadas, seria interessante que existisse no local informação explicativa, uma vez que se trata de um Monumento Nacional.

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