Junho 12, 2019 getLISBON 0Comment

Hoje apresentamos-lhe um conjunto de obras de cerâmica de Querubim Lapa, um dos mais relevantes ceramistas portugueses do séc. XX. Este artista exprimiu-se através de diferentes expressões plásticas, mas é a sua vasta obra de cerâmica, espalhada pelo país e estrangeiro, que se destaca pela inovadora e criativa simbiose entre a escultura, a pintura e a azulejaria.

A getLISBON seleccionou 7 obras de cerâmica de Querubim Lapa, observáveis em espaços públicos da cidade de Lisboa, com localizações tão diversas como: fachadas de edifícios, estabelecimentos comerciais, instituições públicas e privadas.

Antes de falarmos dos trabalhos seleccionados, vamos dar-lhe a conhecer um pouco este artista.

Querubim Lapa

Querubim Lapa (1925-2016) nasceu em Portimão, no Algarve e cedo veio viver para Lisboa com a sua família.

Desde tenra idade que demonstrou gosto por trabalhos manuais e criativos.

Foi na Escola Industrial António Arroio, onde ingressou em 1942, que obteve as preciosas bases de formação e preparação em artes. Foi também nesta escola que tomou contacto com o movimento neo-realista, movimento artístico de reacção contestatária ao regime ditatorial em que Portugal vivia.

A sua formação estendeu-se ainda ao Curso de Escultura da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa ingressado em 1947 e ao Curso de Pintura da mesma instituição concluído em 1978.

Entre 1946 e 1949 desenvolveu um interessante mas menos conhecido trabalho de pintura à luz do movimento neo-realista, que pode ser visto no Museu do Chiado e no Museu Calouste Gulbenkian. Uma temática ligada à denúncia de problemas sociais, pobreza e más condições laborais dos mais desfavorecidos. Mais tarde veio a explorar outras linguagens como o abstracionismo simbólico e geométrico.

Em 1950 participou pela primeira vez em exposições colectivas de artistas plásticos, não ligados ao regime. É neste contexto que Querubim travou conhecimento com vários arquitectos com quem posteriormente veio a colaborar.

Querubim, o Ceramista

Em 1954 começou a aprofundar-se na cerâmica. Como dizia o próprio artista, a razão foi: “uma necessidade de juntar essas duas técnicas, essas duas expressões plásticas”, a pintura e a escultura, e “a necessidade de policromar a escultura”.

Através do arquitecto Chorão Ramalho, integrou a histórica Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, fundada em 1849, onde aprimorou técnicas e produziu grande parte do seu importante trabalho como ceramista. Teve aí o privilégio de ocupar uma oficina privada, como já acontecia com dois outros grandes artistas, Jorge Barradas e Manuel Cargaleiro.

Nesta mesma altura Querubim Lapa voltou à Escola de Artes Decorativas António Arroio, agora para leccionar, e ali dirigiu as oficinas de cerâmica nas quais implementou modernos métodos de trabalho e novas tecnologias.

Foi sem dúvida na cerâmica que Querubim Lapa encontrou o seu equilíbrio ideal de expressão.

Vamos então conhecer as obras de cerâmica de Querubim Lapa que escolhemos para si!

Obras de Cerâmica de Querubim Lapa

Esta selecção de obras de cerâmica de Querubim Lapa não inclui o painel já referido no artigo À Descoberta dos Miradouros da Penha de França e do Monte Agudo que o convidamos a ler ou reler.

Azulejos de Padrão no Centro Comercial do Restelo (1956)

São azulejos de padrão para fachadas das galerias inferiores de um projecto de habitação e zona comercial do arquitecto Chorão Ramalho, no Restelo, na zona ocidental de Lisboa.
Azulejos de padrão para fachadas

Trata-se do primeiro trabalho de cerâmica de Querubim Lapa. São azulejos de padrão para fachadas das galerias inferiores de um projecto de habitação e zona comercial do arquitecto Chorão Ramalho, no Restelo, na zona ocidental de Lisboa.

Esta composição consiste num jogo de cores e linhas curvas e na repetição alternada de dois padrões de azulejos. Tem como principal função decorar algumas paredes exteriores do centro comercial a céu aberto, classificado como Monumento de Interesse Público em 2012.

Apesar do suporte ainda ser tradicionalmente plano, nota-se neste trabalho uma tentativa de criar a ilusão de movimento e de tridimensionalidade que virá a caracterizar as obras mais emblemáticas e criativas do artista.

Painel da Pastelaria Mexicana (1962)

Na histórica pastelaria Mexicana, junto à Praça de Londres, conserva-se uma das mais emblemáticas obras de cerâmica de Querubim Lapa. O sol é elemento de destaque no painel da Pastelaria Mexicana
O sol, elemento de destaque no painel da Pastelaria Mexicana

Nesta histórica pastelaria junto à Praça de Londres, conserva-se uma das mais emblemáticas obras de cerâmica de Querubim Lapa. Foi concebida no âmbito da remodelação do espaço, a convite do arquitecto Jorge Ferreira Chaves.

O sol, símbolo da vida que fascinava o artista e que o levou a explorar este tema em inúmeras das suas criações, é o elemento de destaque neste painel, remetendo ao imaginário associado ao México. Para além do sol, podem ser observados cactos, pássaros e flores.

Aqui podemos encontrar a transposição da pintura e da escultura para a cerâmica. À forma clássica de azulejaria são incorporadas expressivas peças de relevo.

Querubim trabalhava os painéis como se de peças escultóricas se tratassem, revelando assim a sua criatividade e introduzindo inovação técnica na cerâmica portuguesa.

Revestimento Exterior e Interior da Casa da Sorte (1963)

Uma das mais emblemáticas obras de cerâmica de Querubim Lapa. Revestimento exterior e interior da antiga Casa da Sorte, em pleno Chiado.
Revestimento exterior e interior da antiga Casa da Sorte, no Chiado

Trata-se de uma intervenção de revestimento exterior e interior da antiga Casa da Sorte, em pleno Chiado.

Um trabalho que resultou de uma estreita colaboração com Francisco da Conceição Silva, um dos arquitectos mais importantes do movimento moderno em Portugal. Nesta intervenção, Querubim Lapa revela grande preocupação com a sintonia entre a loja e o espaço onde esta se insere.

No exterior observa-se uma composição fria de azulejos brancos e de tons azuis e verdes que permitem uma convivência harmoniosa da fachada da loja com o prédio e deste, por sua vez, com o ambiente envolvente.

Em oposição, o revestimento do interior apresenta uma conjugação de cores quentes, ocres, laranja e vermelho, que contrastam com azuis.

Todo o revestimento contém desenhos abstractos que escondem elementos simbólicos ligados à ideia de jogo e lotaria, da sorte e de destino, como são: os números, os signos do zodíaco, os pentagramas, os trevos de quatro folhas, entre outros. Mas também é possível encontrar pequenos detalhes surpreendentes como os olhos, por cima da vitrina exterior, que o artista assinala com humor e capta a atenção dos que ali passam.

Nesta obra podemos constatar a utilização de uma técnica que Querubim Lapa desenvolveu, nas suas experimentações na Fábrica Viúva Lamego. Através da sobreposição de esmalte opaco e vidrado transparente provocava o estalar das tintas, criando texturas que se tornaram características do seu trabalho neste período.

Hoje, já não se encontra aqui a Casa da Sorte, mas felizmente podemos continuar a apreciar as peças cerâmicas de Querubim Lapa enquanto nos deliciamos com a doçaria conventual de Alcobaça na Pastelaria Alcôa.

Painéis do Palácio da Justiça (1969)

Conjunto de seis painéis na galeria exterior do Tribunal Cível. Nesta intervenção Querubim Lapa executou seis painéis que são peças autónomas de temas relacionados com a justiça.
Conjunto de seis painéis na galeria exterior do Tribunal Cível

O Palácio da Justiça localiza-se na Rua Marquês da Fronteira, ao cimo do Parque Eduardo VII, bem perto do Jardim Amália Rodrigues.

É um projecto dos anos 60 do séc. XX, tendo a construção dos dois edifícios sido concluída em 1970. A ideia de incluir obras de arte levou à constituição de uma comissão encabeçada pelo arquitecto Raúl Lino (1879-1974).

Foram convidados três ceramistas para a execução de um conjunto de 16 baixos-relevos, de grandes dimensões (3m x 4m), destinados à decoração da galeria exterior do Tribunal Cível. Nesta intervenção Querubim Lapa executou seis painéis, tal como Júlio Resende, cabendo a Jorge Barradas a autoria de quatro.

São peças autónomas, de temas relacionados com a justiça, tendo as obras de Querubim Lapa as seguintes denominações: “Adão e Eva Expulsos do Paraíso”, “O Direito que Possibilita a Paz entre os Homens e as suas Glórias”, “Criação de um Código”, “A Prática da Justiça Apoiada no Direito”, “Espírito da Ordem” e “Temperança”.

Painel da Biblioteca e Arquivo do Banco de Portugal (1985)

Na Rua Francisco Ribeiro, na Freguesia de Arroios encontra-se na fachada lateral da Biblioteca e Arquivo do Banco de Portugal um enorme painel de Querubim Lapa.
Painel na fachada lateral da Biblioteca e Arquivo do Banco de Portugal

Na Rua Febo Moniz, na Freguesia de Arroios encontra-se na fachada lateral da Biblioteca e Arquivo do Banco de Portugal um enorme painel de Querubim Lapa.

É composto por traçados geométricos abstractos, predominantemente de tons de azul, alternados com apontamentos de cores quentes (ocres e cor de laranja) e brancos.

Este painel pode ser observado através da vidraça do edifício e foi com ele que o artista ganhou o Prémio Municipal de Azulejaria atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1985.

Painel da Fachada da Escola António Arroio (1999)

Painel na fachada da Escola Artística António Arroio. Nesta obra podemos observar a utilização de formas geométricas desconstruídas, contrastadas com a existência de uma grande pintura abstracta de cores intensas que atravessa o painel na diagonal.
Painel na fachada da Escola Artística António Arroio

Os anos 90 do séc. XX correspondem ao período em que Querubim Lapa explora a linguagem da abstracção geométrica.

Este painel de cerca 12m x 9m foi concebido em 1999 para revestir a fachada exterior voltada para a Rotunda das Olaias, da Escola Artística António Arroio.

Nesta obra podemos observar a utilização de formas geométricas desconstruídas, contrastadas com a existência de uma grande pintura abstracta de cores intensas que atravessa o painel na diagonal.

Esta escola já havia recebido um baixo-relevo cerâmico da sua autoria em 1987 que se encontra na fachada principal, onde figura elementos abstractos e o nome da própria escola.

Baixo-relevo cerâmico de 1987 onde figura elementos abstractos e o nome da própria escola, Escola António Arroio.
Baixo-relevo cerâmico de 1987, Escola Artística António Arroio

Painel da Fachada da Escola de Campolide (2006)

Painel de 2006, Escola Básica Mestre Querubim Lapa, localizada na zona Norte de Lisboa.
Painel de 2006, Escola Básica Mestre Querubim Lapa

Nesta escola, localizada na zona Norte de Lisboa, encontramos também duas intervenções de Querubim Lapa de épocas diferentes.

A primeira, denominada As Meninas e Os Meninos, de 1956 consiste em dois painéis que decoram o muro que separava o recreio das raparigas do dos rapazes.

Em 2006 Querubim foi convidado novamente a intervir na Escola de Campolide, desta vez com um painel abstracto na linha do da Escola António Arroio.

Foi nessa ocasião que esta escola recebeu o nome do artista, passando a chamar-se Escola Básica Mestre Querubim Lapa.


Chegámos ao fim da apresentação das 7 obras de cerâmica de Querubim Lapa que seleccionámos para si. Os trabalhos mencionados neste artigo constituem apenas uma pequena mostra de uma vasta obra cerâmica deste artista multifacetado.

Para além de painéis de azulejos e murais cerâmicos em espaços públicos, podem ser apreciadas muitas outras obras em vários museus, como o Museu Nacional do Azulejo, a Museu Calouste Gulbenkian e o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.

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