Março 13, 2019 getLISBON 0Comment

A Chita de Alcobaça é um tecido português, de algodão estampado muito expressivo e colorido. A razão do nome Alcobaça permanece um mistério uma vez que a sua produção nunca teve lugar nessa cidade.

Sabia que um dos principais centros de produção das chitas era Lisboa?

E que este produto resultou da globalização de há 500 anos iniciada com a chegada de Vasco da Gama à Índia, aliada à tardia industrialização de Portugal no final de setecentos?

Ao trazer este tema pretendemos realçar este produto tradicional de utilização transversal a toda a sociedade, que já teve grande importância económica mas que actualmente carece da merecida valorização.

Infelizmente, hoje é quase impossível encontrar chitas tradicionais em Lisboa mas seria importante que as lojas de tecidos voltassem a disponibilizar este produto que reflecte a cultura, o património e uma parte da história portuguesa. Uma herança cultural que muitos dos que nos visitam apreciam e que todos devemos valorizar.

A existência de pouca documentação, catálogos ou bibliografia sobre a estamparia em Portugal não permite a recolha de muitos elementos sobre a chita de Alcobaça contudo temos muito para lhe revelar!

Após a publicação do presente artigo tivemos a oportunidade de conhecer o responsável pela revitalização das chitas de Alcobaça no séc. XX, que amavelmente partilhou connosco a sua história da qual resultaram dois posts cuja leitura não pode perder. 

A Singular História das Chitas de Alcobaça no Séc. XX

A Origem dos Nomes das Chitas de Alcobaça – Colecção Elipas

O Chint Indiano e a sua Chegada à Europa

Padrões de chita de Alcobaça - SHANGRI-LÁ e BRINCH
Padrões de chita de Alcobaça – SHANGRI-LÁ e BRINCH

No séc. XV já havia na Índia uma produção muito desenvolvida de tecidos de algodão, coloridos com corantes naturais, os designados chints. Os desenhos eram originalmente pintados à mão, mas posteriormente os padrões passaram a ser estampados a partir de cunhos gravados.

Sabe-se que este tecido era comercializado no oriente desde os tempos antigos e trazido para a região do Mediterrâneo pelas Rotas do Levante.

A descoberta dos portugueses do caminho marítimo para a Índia, em 1498, traz para a Europa os coloridos chints indianos, abrindo um comércio até então mais limitado.

Apesar de melhor posicionado, Portugal não se interessa particularmente por este produto, o seu gosto inclina-se mais para tecidos de luxo. Contudo, Lisboa era o porto de entrada na Europa de todas as mercadorias vindas do Oriente e por aqui também passavam os “pintados”.

Padrão de chita de Alcobaça - VIANA
Padrão de chita de Alcobaça – VIANA

Estes tecidos eram muito apreciados, usados em estofos, decoração e mais tarde em vestuário.

Os produtores indianos recebiam encomendas com desenhos específicos, que influenciavam os padrões originais. Apesar das adaptações ao gosto europeu, os elementos vegetalistas e florais continuaram presentes e perduram até hoje.

Os conflitos religiosos, económicos e políticos entre Filipe II de Portugal e os Países Baixos levaram a que Lisboa perdesse importância como centro de trocas comerciais. Desde então as chitas passaram a ser comercializadas directamente no oriente por holandeses, ingleses e franceses que, rapidamente, desenvolveram a arte de estampar tecidos e no início de setecentos todas as cidades ligadas ao comércio com o oriente tinham oficinas de estamparia.

O uso das chitas era tal que os tradicionais produtores de panos de seda e lã exigiram a proibição da importação do algodão pintado, o que se veio a verificar tanto em França como em Inglaterra onde até o seu uso foi proibido. Isso não fez com que as classes mais abastadas deixassem de as ostentar e os 70 anos que durou o embargo não foram suficientes para erradicar o consumo e o gosto pelos “indianos”.

O Mistério do Nome Alcobaça

Padrão de chita de Alcobaça - ALCOBAÇA
Padrão de chita de Alcobaça – ALCOBAÇA

Em Alcobaça existia uma indústria têxtil de fiação e tecelagem de algodão, a que também se misturava linho e lã, à qual Gil Vicente (1465-c. 1536) faz referência na Farsa dos Almocreves:

E logo dahi hum ano/ pera ajuda de casar/ hua orfam mandaste dar/ meio covado pano/ de Alcobaça por tosar

Porém, a primeira fábrica registada em Alcobaça data de 1774 e relaciona-se com a política de fomento industrial pombalina. Aqui produziam-se lenços, cambraias e outros tecidos brancos.

Em 1810 a 2ª invasão francesa destruiu os edifícios e todo o recheio da fábrica. As tentativas de implementação de novas unidades nos anos seguintes não tiveram sucesso.

Mais tarde, em 1875 é criada a Companhia de Fiação e Tecidos de Alcobaça, empresa de grande importância para a economia e desenvolvimento daquela região e que durou até 1998, mas que era também de fiação e tecelagem de algodões brancos.

Na verdade Alcobaça nunca produziu chitas estampadas mas sim o tecido base necessário para a sua produção. Permanece por isso um mistério a razão da origem do seu nome, chitas de Alcobaça.

A Estamparia em Portugal

Padrão de chita de Alcobaça - CAMPINA
Padrão de chita de Alcobaça – CAMPINA

Factores condicionantes como a história, a economia, o gosto, e a técnica fazem com que a indústria da estamparia em Portugal surja somente no último quartel do séc. XVIII.

As tradicionais chitas de Alcobaça constituem um dos maiores enigmas da arqueologia industrial portuguesa. A falta de documentos não permitem compreender claramente os contornos e as particularidades de cada uma das oficinas de estamparia.

Este facto deriva da desvalorização do espólio das fábricas aquando do seu encerramento e da sua pequena dimensão. A maioria seriam pequenas oficinas artesanais com estruturas muito simples.

Estas, tal como as grandes unidades fabris registadas, situavam-se junto das grandes cidades de Lisboa e Porto, locais que permitiam o escoamento dos produtos e das matérias-primas, com particular importância a exportação para as colónias em África e o Brasil.

A primeira fábrica de estamparia oficialmente reconhecida data de 1775, situava-se em Azeitão e serviu de modelo para as que se lhe seguiram.

Existiam estamparias no centro da cidade de Lisboa: Bairro Alto, Cais do Sodré, Olarias e Anjos. Na zona ocidental: Vale de Alcântara e Calvário; na zona oriental: Xabregas, Chelas, Marvila, Olivais, e a norte: Campo Pequeno, Campo Grande, Lumiar, Sete Rios, Campolide…

Assim como em concelhos limítrofes próximos e num anel mais largo, mas sempre com o Tejo como paisagem, na zona de influência de Santarém.

Hoje pode ser difícil imaginar, pois a maior parte dos locais referidos estão no centro da cidade, mas à época eram zonas rurais. As fábricas, na sua maioria, instalavam-se em palácios, conventos, ou velhos solares abandonados… outros eram construídos de raiz, geralmente edifícios simples de planta rectangular com grandes janelas que permitiam a iluminação natural e espaços arejados para a secagem dos panos.

Os Padrões das Chitas de Alcobaça

Padrão de chita de Alcobaça - LORMOIS
Padrão de chita de Alcobaça – LORMOIS

Os padrões nacionais das chitas de Alcobaça seguem as tendências dos tecidos europeus de influência oriental.

Um dos mais apreciados e ainda hoje mais comum é o padrão que alterna riscas geralmente com cores de fundo diferentes.

Os motivos decorativos eram inúmeros e variados: pequenas paisagens, figuras humanas vestidas com trajes exóticos, esculturas, camafeus, animais como cães, esquilos, aves exóticas, borboletas, galinhas e perus, grande variedade de flores variadas em jarras, cestos, gaiolas, ou cornucópias, frutos e motivos abstractos como espirais ou volutas.

Apesar da forte influência oriental presente em todas as produções europeias cada país desenvolveu o seu estilo e são sobejamente conhecidos os padrões toile de jouy  e as coloridas chitas da Provence, uma das imagens de marca da França.

Chitas de Alcobaça, um Património a Requalificar

Padrão de chita de Alcobaça - PAIÃO
Padrão de chita de Alcobaça – PAIÃO

As chitas de Alcobaça de magníficos e elaborados padrões, de grande valor decorativo, têm sido desvalorizados e apesar de algumas tentativas de novas aplicações estamos sempre perante um aproveitamento de um produto considerado popular, tradicional ou folclórico.

Apesar de ainda serem produzidas já não existem muitos padrões e a maior dificuldade é encontrar lojas que as vendam.

Apenas conhecemos a existência de duas lojas especializadas em todo o país, no Porto e em Alcobaça, que além de disponibilizarem todos os padrões, em diversas cores, a metro, também apresentam uma diversidade de artigos produzidos com chitas ou nelas inspirados.

Padrões de chita de Alcobaça - SINTRA e ÍNDIA
Padrões de chita de Alcobaça – SINTRA e ÍNDIA

E em Lisboa? São poucas as lojas onde ainda podemos encontrar alguma variedade de padrões de chitas de Alcobaça. Entre elas destacamos a tradicional Tavares & Tavares, na Rua dos Fanqueiros e o conceito mais moderno Rosa Pomar, na Rua do Loreto que também disponibiliza venda online.

Só o grande desconhecimento da história e a falta de observação atenta dos desenhos pode fazer supor que estamos perante um produto de baixa qualidade sem lugar no mercado actual.

Por um processo idêntico passaram as cerâmicas de Caldas da Rainha, nomeadamente as cerâmicas Bordallo Pinheiro, ou mesmo os azulejos portugueses que finalmente encontraram a devida valorização tanto por nacionais como por estrangeiros. Da mesma forma podemos e devemos recuperar e porque não, reinventar a utilização deste património que constituem as chitas de Alcobaça, antes que o processo seja irreversível.

Apelamos aos industriais que ainda as fabricam que não abandonem a sua produção e que na medida do possível, introduzam padrões que já se deixaram de fazer para diversificar a oferta.

Aos comerciantes que não desistam de as disponibilizar mas principalmente aos designers, decoradores, estilistas e formadores de opinião que olhem para as nossas chitas de Alcobaça, para a sua elevada qualidade e potencial estético e económico… não as deixem morrer!

Curiosidade

Sabia que os termos chita e chintz (em inglês) são derivados da palavra em sânscrito “chint” que significa manchado ou variegado?

E que sarasa é a designação japonesa para as chitas?
Esta palavra deriva do português saraça que significa tecido fino de algodão. Foram os portugueses que no séc. XVI levaram a chint indiana para o Japão que a partir desta desenvolveram um tecido muito utilizado em roupa de cama, peças decorativas e kimonos, entre outras.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

three × 4 =