Julho 4, 2018 getLISBON 0Comment

Chegou o calor! Refresque-se com a curiosa história da Neve que lhe vamos contar e com os gelados das 5 geladarias clássicas das Avenidas Novas.

O centro histórico de Lisboa está repleto de modernas geladarias, de marcas nacionais e estrangeiras. Servem gelados em que a variedade de sabores, formatos e conceitos, ultrapassam os limites da imaginação.

Não é dos sabores nem dos feitios que lhe vamos falar, nem das geladarias das zonas mais turísticas de Lisboa. Pensámos numa abordagem diferente.

Contudo, não queremos deixar de referir uma geladaria clássica em plena Baixa lisboeta, a Veneziana.

Simplesmente porque os seus gelados não são apenas deliciosos, mas também os mais antigos de Lisboa. Desde 1936 que A Veneziana ocupa o n.º 8 da Praça dos Restauradores.

Geladaria A Veneziana
Geladaria A Veneziana

Agora sim.

Sabia que o consumo dos gelados não é uma conquista do século XX e apesar de nos causar a maior admiração, o seu consumo vem de tempos muito recuados?

E imaginava que desde o século XVIII os lisboetas se refrescavam em cafés onde se servia Neve?

Que as geladarias estavam na moda nas décadas de 70 e 80 do século XX?

Vai ainda descobrir as 5 geladarias clássicas das Avenidas Novas que escolhemos para si.

 

Sorvetes e Gelados

Não queremos divagar sobre quem inventou ou como terá chegado à Europa esta deliciosa tentação. Para uns terá sido trazida no século XIII por Marco Polo da China onde a neve era misturada com frutas e mel.

Outros defendem que a introdução terá sido feita pelos Árabes do Médio Oriente. Estes desde o século XII consumiam uma bebida composta por frutas, especiarias e neve dos Himalaias, o sharbat ou sberbeth que terá então derivado na palavra sorvete.

Seja como for trata-se nos dois casos da conjugação de frutas e neve, sendo que a introdução do leite na receita será mais tardia feita já na Europa, o gelado. Verdade é que os gelados foram apresentados como especialidade florentina no casamento de Catarina de Médicis de Florença com Henrique II de França no século XVI.

As casas de gelados artesanais em todas as épocas e lugares apregoam receitas de Itália como garantia de qualidade. Ou pelo menos nomes com um toque italiano o que só por si lhes dá um certo charme.

Geladaria

 

História da Neve

Interessa-nos mais saber sobre o consumo de gelados em Portugal.

Ao pesquisar descobrimos que já em meados do século XVIII existia em Lisboa uma casa onde se podia comer Neve, a Casa da Neve. Sabe onde ficava? Mas neve em Lisboa? De onde vinha o gelo? A Real Fábrica do Gelo diz-lhe alguma coisa? Passamos a explicar:

Pelo menos desde o século XVII que chegava a Lisboa gelo proveniente da Serra da Estrela. É conhecido um contrato estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa e o neveiro Paulo Domingues que data de 1619, mas antes disso já existiria comercialização de gelo.

Esse ano é coincidente com a estada em Lisboa de Filipe II de Portugal e sabe-se que não faltaram à sua mesa bebidas frescas e Neve.

Desembarque de Filipe II de Portugal em Lisboa em 1619.
Juan Bautista Lavanha, Gravura de 1622.

Desde então o consumo de gelo veio sempre a aumentar, generalizando-se às camadas mais populares da população de Lisboa. Mas de onde vinha, concretamente, esse gelo?

 

Fábrica de Neve do Coentral na Serra da Lousã

Na Serra da Lousã, concretamente na aldeia do Coentral, existia uma rudimentar indústria de recolha de neve. Consistia em poços profundos para onde os habitantes locais transportavam neve que era calcada com grandes maços por calceteiros.

Assim se formavam grandes acumulações de gelo que era depois cortado e transportado em carroças de bois através da serra até Vila Nova da Barquinha. Aqui era passado para barcos que pelo rio Tejo alcançavam o lugar de destino, o Terreiro do Paço.

Este trabalho árduo era em Lisboa bem pago aos contratadores e aos neveiros, mas mal pago aos trabalhadores locais. Só no século XIX famílias do Coentral tomaram conta do negócio, pouco antes de a actividade se ter tornado obsoleta e consequentemente ter desaparecido.

Barcos tradicionais do Tejo no Cais das Colunas, Praça do Comércio, Lisboa
Imagem gentilmente cedida pelo coleccionador Luís Bayó Veiga.

 

Real Fábrica do Gelo

Quando falamos do desenvolvimento industrial português do século XVIII pensamos logo na designação de Real Fábrica.

São famosas a Real Fábrica das Sedas, das Louças ou dos Panos mas já ouviu falar na Real Fábrica do Gelo?

Ao longo do século XVIII o consumo de gelo aumentou de tal modo que terá sido necessário encontrar uma solução complementar ao habitual fornecedor.

Foi então que cerca de 1741 foi construída a Real Fábrica do Gelo da Serra de Montejunto. Uma serra relativamente próxima de Lisboa que, durante o Inverno, reunia as condições necessárias à formação de gelo.

Esta unidade industrial mais elaborada consistia num complexo formado por dois núcleos, um dedicado à produção e outro destinado à conservação e expedição do gelo.

Ao invés de se basear na recolha de neve, aqui o gelo era produzido. A fábrica dispunha de sistemas de captação e armazenamento de água e de 44 tanques rasos com cerca de 10 a 15 cm de água que a partir de Setembro, sujeita às baixas temperaturas nocturnas congelava. Era então necessário ainda antes de nascer o dia recolher o gelo formado e transportá-lo para silos cuidadosamente caiados a fim de garantir a sua higiene. Este processo repetia-se diariamente até ao final do Inverno.

Depois, os blocos de gelo eram protegidos com palha e serapilheira e carregados em burros que faziam o seu transporte até à Vala do Carregado. Daqui eram transportados por barco até Lisboa.

A fábrica encerrou em 1885 e esteve abandonada e esquecida até ser classificada como Monumento Nacional em 1997. Depois de intervenções de conservação e revalorização foi aberta ao público em 2011.

 

A Neve em Lisboa

Chegado ao Terreiro do Paço o gelo tinha vários destinos.

Em primeiro lugar a Casa Real mas também o Hospital, silos de armazenamento e cafés.

O gelo tinha muitas aplicações inclusive terapêuticas e um dos seus principais consumidores era o Hospital Real de Todos os Santos que existiu no Rossio até ao terramoto de 1755.

Sabe-se que existiram depósitos de conservação de gelo em Lisboa nas proximidades do Teatro São Carlos e na zona da Graça.

No que respeita aos cafés, o mais famoso e talvez o primeiro, inaugurado em 1778 foi a Casa da Neve, nada mais nada menos que o actualmente conhecido Martinho da Arcada. Aqui se transformava o gelo na apetecível Neve.

Ao longo do século XIX muitos outros cafés famosos ofereciam aos seus clientes os tão apreciados gelados… perdão, Neve.

Era assim anunciado à porta da Conservaria Pomona, casa especializada em frutas em calda e neve, mas também cervejaria e mais tarde pastelaria. A Pomona fechou há muito pouco tempo, mas conserva-se na esquina da Rua da Prata com a Rua de São Nicolau a pedra gravada que anunciava as especialidades.

Antiga Conservaria Pomona
Antiga Conservaria Pomona

Também o Café Gelo no Rossio, que data de 1890, deve o seu nome à comercialização da desejada Neve.

 

O Consumo de Gelados nas Décadas de 70 e 80 do Século XX

Gelado

Se há 40 ou 50 anos os gelados eram uma guloseima do tempo quente e na praia os vendedores apregoavam as variedades “fruta ou chocolate”, hoje o consumo de gelados generalizou-se por todo o ano. Quem os aprecia delicia-se seja Verão ou Inverno e as geladarias artesanais proliferam disponibilizando até em formatos de take away para os mais aficionados os poderem consumir no conforto do lar.

Nos anos 70 e 80 o consumo de gelados em Lisboa estava na moda. No Verão, depois de um passeio por um parque ou após uma sessão de cinema, as famílias gostavam de usufruir de um generoso gelado numa esplanada.

A zona da cidade então mais em voga eram as Avenidas Novas com particular destaque para a Avenida de Roma. Ora é exactamente nessa zona que vamos encontrar as 5 Geladarias Clássicas das Avenidas Novas que passamos a apresentar.

 

5 Geladarias Clássicas das Avenidas Novas

Gelados Conchanata

A mais antiga da nossa lista de 5 geladarias clássicas das Avenidas Novas é a Conchanata que se encontra desde 1948 na Avenida da Igreja, em Alvalade.  Apesar de o nome original Gelados Itália ter mudado, a sua gestão mantém-se na mesma família de origem italiana.

Todos os gelados são fabricados pelo actual proprietário segundo receitas originais do seu avô. A estrela desta geladaria é a incontornável Conchanata, constituída por quatro bolas de gelados, três das quais de sabores à escolha e uma de nata, tudo regado com um molho de morango caseiro.

O Verão é a época habitual dos gelados mas se, por acaso, gosta de comer um gelado sem se importar com a estação do ano, fique a saber que a Conchanata encerra nos meses de inverno.

Gelado

Morada: Avenida da Igreja, 28 A, Lisboa

 

Gelataria Pindô

Uma geladaria memorável inaugurada em 1976, localizada na Avenida das Forças Armadas em Entrecampos. Esta geladaria fideliza os seus clientes com simpatia no atendimento e com os seus gelados artesanais de sabores clássicos. Os adeptos de sabores mais arrojados elegem o gelado de gengibre como o predilecto.

A variedade de taças de gelados faz regalar os olhos aos que visitam este espaço com particular destaque para a Taça Mangia e Bevi, constituída por gelado, salada de frutas e chantilly. Atreva-se ao fim da tarde e dispense o jantar!

Gelado

Morada: Avenida das Forças Armadas, 51 D, Lisboa

 

Geladaria Surf

Uma geladaria clássica, fundada em 1978 em plena época da moda das geladarias na zona das Avenidas Novas. Localizada junto à Praça de Londres, dispõe de uma esplanada espaçosa para que os clientes possam desfrutar ao ar livre dos cerca de 50 sabores que têm disponíveis.

Desde os sabores clássicos de frutas aos de vários tipos de nozes, mas o considerado mais original é o do Ovo Kinder. As taças de gelados servidas com sabores à escolha, chantilly e molho são as mais chamativas, para não falar dos crepes e dos waffles que são especialidades desta casa.

Gelado

Morada: Avenida Manuel da Maia, 56 C-D, Lisboa

 

Casa do Gelado

Abriu as suas portas em 1981 na tão em voga artéria da zona das Avenidas Novas, Avenida de Roma. É conhecida pelos crepes e pela afamada cassata. Os sabores dos gelados não ficam só pelos tradicionais, aqui pode degustar frutos mais exóticos como a fisális e o kumquat e ainda sabores que nos remetem a sobremesas tradicionais como o creme da avó ou o doce de leite.

Tem uma agradável e bem decorada esplanada onde se pode alongar a prova dos saborosos gelados artesanais feitos de ingredientes de qualidade.

Gelados

Morada: Avenida de Roma, 28 H/I, Lisboa

 

La Fabbrica – Antiga fábrica de gelados da Avenida de Berna

Esta geladaria fica na Rua de Dona Filipa de Vilhena, junto ao Jardim do Arco do Cego.

Apesar de ter sido inaugurada em 2014, esta nova marca tem a mesma origem da geladaria A Veneziana cuja fábrica funcionou na Avenida de Berna, entre 1940 e 1993.

O actual proprietário da La Fabbrica mantém a memória familiar da antiga fábrica onde aprendeu a arte de fazer gelados e dá continuidade às receitas italianas trazidas pela sua família para Portugal.

Prove uma das suas especialidades, o spaghetti, composto por chantilly, gelado de baunilha passado por uma prensa, calda de morango e suspiros desfeitos.

Gelado

Morada: Rua de Dona Filipa de Vilhena, 14 A/B, Lisboa

 

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