Procissão de Santo António de Lisboa

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Neste artigo trazemos-lhe a Procissão de Santo António de Lisboa, uma manifestação de fé popular com uma característica muito peculiar. Diz-se que o Santo alfacinha sai só e volta acompanhado. Fique a saber porquê!

É crescente o número de participantes e curiosos que na tarde do dia 13 de Junho se deslocam ao largo da Igreja de Santo António, junto à Sé, para assistir a este evento.

A tradição está viva mas devemos salientar o magnífico trabalho de divulgação e promoção desta singular personalidade e das crenças e práticas a ela associadas, que tem sido realizado nos últimos anos, pela dedicada equipa do Museu de Lisboa – Santo António.

No mês de Junho, as Festas de Lisboa estão ao rubro com programação variada para todos os gostos, mas não podemos esquecer que Santo António é a razão de ser este o mês que Lisboa celebra.

O dia 12 é o ponto alto das festividades mais tradicionais com os Casamentos de Santo António, o desfile de marchas populares na Av. da Liberdade e arraiais que duram até de madrugada. É por isso surpreendente, na tarde do dia 13, ver o Largo de Santo António da Sé encher-se de gente que se reúne para ver ou participar numa curiosa procissão dedicada ao mais popular santo nascido em Lisboa.

Nesse dia, as ruas de Alfama tornam-se ainda mais estreitas e sinuosas. Observar as típicas ruas enfeitadas para os arraiais, apinhadas de gente, imagens de santos, flores, colchas nas janelas e o inebriante cheiro a rosmaninho, torna-se uma experiência intensa e emocionante mesmo para um não crente.

As janelas enfeitam-se com colchas à passagem da Procissão de Santo António
As janelas enfeitam-se com colchas à passagem do cortejo

Por esta razão aproveite o feriado em Lisboa e atreva-se a embrenhar-se pelas ruas de Alfama nesta peculiar companhia.

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A Procissão de Santo António de Lisboa

A procissão sai da Igreja de Santo António e percorre um longo caminho durante o qual se vão juntando outros santos, até voltar ao ponto de partida. Inicia-se com um andor e acaba com seis. Por isso se diz que o Santo António sai só mas volta acompanhado.

Em primeiro lugar junta-se à imagem do santo franciscano a sua relíquia oferecida pelo Santuário de Pádua em 1968 e que se guarda na Sé de Lisboa.

Após passar pela Sé a procissão segue pelo Bairro de Alfama, rapidamente chega à Igreja de São João da Praça e São João Baptista é o primeiro santo a vir ao seu encontro.

As ruas tornam-se então mais estreitas e logo à frente é a vez do arcanjo São Miguel se juntar ao desfile. Mais ruas estreitas apinhadas de gente que se deslocam de forma ritmada, entoando cânticos e orações.

As ruas estreitas de Alfama, enfeitadas para os arraiais, ficam apinhadas de gente que se desloca de forma ritmada, entoando cânticos e orações.
As ruas de Alfama tornam-se ainda mais estreitas e sinuosas

Após subir a famosa Rua dos Remédios a procissão dirige-se às proximidades da Igreja de Santo Estêvão, santo que a aguarda e a encabeça até encontrar novo grupo vindo da Igreja de São Vicente de Fora. A imagem de São Vicente acorre pela Rua das Escolas Gerais e por sua vez toma a dianteira.

Depois das Portas do Sol é a vez de Santiago se juntar à procissão. A partir daí será sempre a descer, passando pelo Largo do Limoeiro em direcção ao Largo da Sé. Ali terá lugar o encerramento com a bênção aos fiéis e o agradecimento com a entoação de Te Deum Laudamus.

São João, São Miguel e Santo Estêvão regressam às suas moradas em direcção a Alfama. Santiago e São Vicente recolhem aos seus locais de origem voltando para trás.

Mas nem sempre foi assim!

Origens da Procissão de Santo António de Lisboa

O Ferrolho

A data em que se iniciou a Procissão de Santo António de Lisboa é incerta, contudo existiu uma procissão que saía da Igreja de Santo António e que se dirigia à ermida da Penha de França, localizada na actual Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, atravessando as sinuosas ruas da Mouraria.

Esta procissão realizou-se entre 1599 e 1856 no dia 5 de Agosto e teve como origem um voto de agradecimento do presidente da Câmara de Lisboa à Senhora da Penha por a cidade ter sido poupada a uma peste que assolou os arredores. Tinha a particularidade de se realizar de noite, dos vereadores a fazerem descalços e de os jovens que a integravam irem batendo a todas as portas das casas por onde passavam, fazendo grande alarido. Foi por isso apelidada de Procissão do Ferrolho.

Os populares lançam pétalas de flores à passagem da Procissão de Santo António de Lisboa
Os populares lançam pétalas de flores à passagem dos andores

Do Convento de São Francisco a 1834

No dia 13 de Junho tinha lugar uma outra procissão com menor participação da nobreza mas mais concorrida pelo povo. Contava com treze andores entre eles a imagem de Santo António e no final do cortejo dois santos negros, São Benedito e Santo António Noto. Começava no antigo Convento de São Francisco (séc. XIII), local onde hoje se encontra a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, no Chiado.

O séc. XVIII foi devastador para este complexo religioso. Uma sucessão de incêndios e o terramoto de 1755 deixaram o convento reduzido a pouco mais que escombros.

Encontrava-se em reconstrução lenta quando em 1834 a extinção das ordens religiosas ditou o fim da sua ocupação religiosa assim como o fim da procissão.

Um relato presente no Diário de William Beckford em Portugal e Espanha dá testemunho da passagem da procissão pela Rua Augusta no ano em que o autor esteve pela primeira vez em Portugal, 1787.

Este escritor de viagens não poupa de críticas o desfile que considerou o mais mal amanhado cortejo que já presenciara. Refere ainda que se terá mesmo sentido vexado “…ao ver o venerável e majestático Santo António reduzido às proporções de um empertigado fantoche, que não chega a ter três pés de altura, com um fato de tafetá indiano salpicado de ouro…”.

A simplicidade do desfile não terá impressionado positivamente o aristocrata inglês, mas o seu relato fornece-nos elementos preciosos que de outra forma possivelmente não teriam chegado aos nossos dias. Um testemunho que vale a pena ler.

Intermitências e Curiosidades

A imagem de Santo António que hoje sai na procissão é transportada por um jipe dos bombeiros
A imagem de Santo António que hoje sai na procissão é transportada por um jipe dos bombeiros

A tradição da Procissão de Santo António de Lisboa foi retomada em 1895 mas nessa altura passou a iniciar-se no Mosteiro de São Vicente de Fora, local onde Santo António estudou quando era ainda muito jovem.

Foi já na década de 50 do séc. XX que foi instituído o dia 13 de Junho como feriado municipal de Lisboa e que a procissão se passou a realizar, partindo da Igreja de Santo António mas num percurso reduzido. Esta igreja, localizada no sítio onde o santo terá nascido (c. 1191), é actualmente uma reconstrução pós terramoto. A primitiva igreja terá então ficado reduzida a escombros, tendo-se dela apenas salvo a imagem de Santo António, uma grande escultura em pedra, policromada que pesa cerca de 300kg.

Dada a evidente dificuldade e risco de a retirar do altar-mor da igreja, local onde hoje se encontra e para que esta se preserve foi executada uma imagem idêntica, a que hoje sai na procissão transportada por um jipe dos bombeiros.

A imagem de Santo António participa ainda em outros cortejos como é o caso da Procissão de Nossa Senhora da Saúde que se realiza no primeiro domingo de Maio.

Após nova interrupção a realização da Procissão de Santo António de Lisboa foi reiniciada em 1981, tendo vindo desde então a ganhar relevo.

Constitui uma curiosidade o facto da maioria dos andores que integram esta procissão serem exclusivamente carregados por mulheres.

Existe a crença que no final do cortejo alguns fiéis são abençoados com o milagre do sol. Um fenómeno que muitos descrevem como uma imensidão de cores com mensagens simbólicas que se observam ao fixar o sol.

Não aconselhamos a fixar o olhar no sol mas sem dúvida que dar um salto a Alfama no dia de Santo António é uma experiência que vale a pena ter.

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