Lisboa em Nós de Célia Pilão

Em Lisboa em Nós de Célia Pilão oferece-nos um inquietante roteiro que passa pelos lugares mais emblemáticos da cidade onde se cruza com personalidades de vários tempos.
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Esta semana é a vez de dar voz a uma intrépida administradora hospitalar que se apaixonou pelo património artístico dos Hospitais Civis de Lisboa. Nas suas palavras diz que nos últimos anos chateou toda a gente. Ainda bem que o fez! Em Lisboa em Nós de Célia Pilão oferece-nos um inquietante roteiro que passa pelos lugares mais emblemáticos da cidade onde se cruza com personalidades de vários tempos.

Um texto obrigatório que muito nos honra. Obrigada Célia!

Esta Lisboa que eu amo…

Desde 1971 que Lisboa me está no sangue. Não, não nasci cá, cheguei cá.  Escapei-me da Guarda, do frio de rachar, até à cidade da luz.

E por aqui tenho andado. Hoje vou-me até à Baixa, preciso de conversar e espairecer.

Apanho o 726 que vai para Sapadores e desço no Largo de S. Bárbara.

Mal chego à Almirante Reis, cumprimento o militar e no Intendente disfarço um manguito (não gosto destas autoridades). Prefiro o Benformoso onde tomo uma bica com Cardoso Pires. 

Encaminho-me para a Mouraria e lá vem a Severa com o amor do Vimioso. Ela mandou-o à fava. Gosta mais das noites da Mouraria e do Bairro Alto onde as navalhas “cantam” sob a bênção dos santinhos de azulejos.

Antes que ela me cante o fado da Rosa Maria, desejo-lhe muita saúde e vou até São Domingos. Aqui para nós, sempre gostei de coscuvilhar os grandes “eventos” de boas e más memórias, que não largam este sítio há mais de sete gerações, como diria a minha tia Lina.

Subo o Chiado e parece-me ver o Luiz Pacheco a apanhar um táxi, talvez com os 20 paus emprestados pelo Soares. No ar surge o Cesariny sobrevoando a estátua de Camões. À direita está o França com os óculos nos projectos da Baixa Pombalina, sentado na mesa do Pessoa, que nada diz, firme e hirto.

Temo pela minha saúde mental e dirijo-me apressada para a Calçada do Combro. Por sorte vejo, a descer, o Kalaf Epalanga mas só o apanho no Poço dos Negros. Ia encontrar-se com o Manuel João Vieira que já estava com um prato de iscas com elas.

Descobri uma mesa próxima e hesitei entre a cachupa, o kebab ou o crepe francês. 

Sem perder pitada da conversa, deixo-os sorrateiramente ao perceber que a filosofia do Kalaf esbarra com os trejeitos faciais do Vieira e temo uma explosão estética.

Deambulo até ao Tejo e lá estão os esculturais edifícios a ocupar parte da margem. Esta mania dos ricos virarem humanistas ou amantes das artes e quererem ficar no lugar das caravelas branqueando pecados capitais, irrita-me. 

A tarde cai e vou para casa. Percorro a Lisboa dos vistos gold, dos hotéis de falso charme, da marca CR7, dos pastéis de bacalhau com queijo da serra e dos de nata com nutella. Ouço em voz-off as prédicas dos arautos do planear, gerir, organizar, modernizar. Querem formatar e sofisticar a alma de Lisboa.

Os velhotes com olhar matreiro apreciam as turistas com malas de rodinhas.

Acelero o passo para apanhar o metro, mas só na Avenida porque olho sempre para o Palácio Foz na esperança de que o Grandela me convide para uma ceia makavenkal.

Continuo para Benfica, a tempo de fazer as nails e tomar um café com um pão de queijo.

Amanhã, apanho o 717 e vou até Fetais.

Célia Pilão no Hospital de S. José, junto a uma obra de Bárbara Assis Pacheco, foto de Rosa Reis Tágide, colagem de Célia Pilão
Célia Pilão no Hospital de S. José, junto a uma obra de Bárbara Assis Pacheco, foto de Rosa Reis.
Tágide, colagem de Célia Pilão
Lisboa em Nós de Célia Pilão
Mini apresentaçãoSou Célia Pilão, nasci em 1952, em Trinta (aldeia dos cobertores de papa), no distrito da Guarda, numa família ligada à indústria dos lanifícios. Em 1971, vim para Lisboa estudar e vadiar. Frequentei sempre o ensino público e o meu trabalho foi, durante 36 anos, a administração de hospitais públicos. Dizem que trabalhava muito e eu acredito. Nos últimos anos, apaixonei-me pela Colina de Santana e chateei toda a gente para ver o património dos Hospitais Civis de Lisboa. Tentei e tento ver todo o mundo que conseguir para me tornar mais humilde e tolerante. Não devo conseguir, porque a minha avó Jesus sempre me disse que eu era uma revoltosa que saía ao meu bisavô republicano, Francisco Inácio. A ver vamos!
Um local inspirador A Igreja de S. Domingos
Uma visita imperdívelA Colina de Santana com um bom contador de estórias
Água na boca com…Uma sande de leitão na Pombalina com uma imperial
Uma música…Inquietação de José Mário Branco

Apêndice:

Almirante Reis – Carlos Cândido dos Reis (1852-1910), militar, carbonário, herói das revoltas republicanas. Após a implantação da República foi dado o seu nome à Avenida Rainha D. Amélia.

Manguito – Gesto realizado com os dois braços, cruzando-se um sobre o outro, mantendo-se um deles na vertical, e que serve para ofender alguém. Este gesto surge associado à célebre figura do Zé-povinho, uma criação de Raphael Bordalo Pinheiro, de 1875, que representa simbolicamente o povo português, ingénuo, sensível e desconfiado, que resiste aos que o oprimem.

Benformoso – Rua do Benformoso na Mouraria, topónimo que deriva da degeneração de boi formoso. Hoje é um lugar de cruzamento multicultural.

Cardoso Pires – José Cardoso Pires (1925-1998), justamente considerado um dos maiores escritores portugueses com uma carreira literária marcada pela inquietação e pela deambulação.

Severa – Maria Severa Onofriana (1820-1846), mítica cantadeira de fado, prostituta da Rua do Capelão na Mouraria com uma história de vida curta e trágica. Terá mantido uma relação com o Conde de Vimioso e pela sua mão cantado em salões nobres da cidade.

Vimioso – Francisco de Paula de Portugal e Castro (1817-1865), 13.º Conde de Vimioso. Fidalgo português famoso como cavaleiro tauromáquico… e amante da Severa.

Fado da Rosa Maria – Referência ao célebre fado Há festa na Mouraria que descreve as festividades deste bairro em torno da Procissão da Senhora da Saúde. Nessa altura toda a população se reúne em devoção, incluindo as “mulheres de má fama” personificadas na Rosa Maria: “Há festa na Mouraria,/ é dia da procissão/ da Senhora da Saúde./ Até a Rosa Maria/ da Rua do Capelão/ parece que tem virtude…”

Luiz Pacheco – Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (1925-2008), foi um escritor, editor, crítico de literatura e comunista português detentor de uma personalidade  paradoxal e desconcertante.

Soares – Mário Alberto Nobre Lopes Soares (1924-2017), advogado e político português co-fundador do Partido Socialista em 1973. Foi Primeiro-Ministro de Portugal (1976-1978 e 1983-1985) e Presidente da República Portuguesa (1986-1996).

Cesariny – Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006), poeta e pintor, considerado o principal representante do surrealismo português.

Camões – Luís Vaz de Camões (c. 1524-1579 ou 1580), uma das maiores figuras da literatura lusófona e um dos grandes poetas da tradição ocidental. Representado em monumento da autoria do escultor Victor Bastos (1830-1894), presente na Praça Luís de Camões.

França – José Augusto Rodrigues França (1922-2021), historiador, sociólogo e crítico de arte português, considerado um nome maior da historiografia da Arte em Portugal.

Pessoa – Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935), poeta, filósofo… considerado por muitos o mais universal poeta português. Está representado, à porta do café A Brasileira no Chiado, em estátua  da autoria de Lagoa Henriques (1923-2009).

Kalaf Epalanga – Músico, cronista e editor discográfico contemporâneo, nascido em Angola em 1978. 

Manuel João Vieira – Manuel João Gonçalves Rodrigues Vieira, nascido em Lisboa em 1962 é músico e pintor.

Grandela – Francisco de Almeida Grandella (1853-1934) foi um político, Republicano, industrial e comerciante.

Ceia makavenkal – relativa aos makavenkos, membros de uma sociedade fundada em 1884 que tinha Francisco Grandella como uma das figuras mais conhecidas. Tratava-se de um grupo de amigos entusiastas dos prazeres da vida que se reuniam em diversos lugares, na maioria já desaparecidos, resta talvez o mais emblemático situado na cave do Palácio Foz.

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