As Fontes Monumentais do Rossio

As Fontes Monumentais do Rossio; pormenor de uma das quatro sereias
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As fontes monumentais do Rossio são dois marcos da Lisboa oitocentista que não passam despercebidos nesta cidade das sete colinas.

Existem outras, de que já lhe falámos em Fontes de Ferro da Lisboa Oitocentista mas que apesar de fascinantes não têm a grandiosidade destas que, implantadas em plena sala de visitas da capital, imprimem monumentalidade, embelezam e refrescam o Rossio desde 1889.

As fontes monumentais do Rossio fazem parte da denominada Baixa Pombalina, que está classificado como Conjunto de Interesse Público.

Mas sabe qual é a origem destas fontes-repuxo, onde foram produzidas, quem é o seu autor, quem são as personagens ali representadas?

Aqui encontrará as respostas a estas perguntas e outras curiosidades que vai gostar de saber.

Produção e Autoria das Fontes Monumentais do Rossio

No artigo sobre as fontes oitocentistas falámos-lhe da funcionalidade e origem das fontes-repuxo que se foram transformando de acordo com as necessidades e estéticas vigentes.

Como vimos, no séc. XIX estes equipamentos ganharam uma nova dinâmica com o fabrico em série de peças em ferro fundido.

Mobiliário urbano como bancos, candeeiros, fontanários-bebedouros entre outros, até esculturas destinadas a integrar fontes, foram concebidas por escultores, produzidas nas fundições francesas e vendidas à distância por catálogo, espalhando-se um pouco por todas as cidades da Europa e depois do mundo.

Sabemos que as duas fontes monumentais do Rossio foram instaladas nesta praça em 1889, por iniciativa de um vereador da Câmara Municipal de Lisboa e vieram tomar o lugar de dois poços que ali existiam desde 1837.

São idênticas e ladeiam o monumento de homenagem a D. Pedro IV, que encontramos no centro da praça, proporcionando simetria e equilíbrio ao grande espaço preenchido com o emblemático padrão de calçada portuguesa, Mar Largo, que simula instáveis ondas.

Panorâmica do Rossio onde são visíveis as duas fontes monumentais idênticas que ladeiam o monumento de homenagem a D. Pedro IV, no centro da praça
Panorâmica do Rossio onde são visíveis as duas fontes monumentais

O seu estilo ornamental francês de gosto clássico, apresenta uma gramática igualmente relacionada com o mar. Dela fazem parte peixes, búzios, cabos, âncoras, crianças, deuses e sereias.

Este modelo, muito ornamentado, rico em simbologia dedicada ao mundo marinho, pertence ao catálogo da fundição de Val d’Osne e foi contemplado com uma medalha de ouro na Exposição Universal de Paris em 1855. Hoje estas fontes são conhecidas internacionalmente como Fontes Tourny.

As suas esculturas principais são da autoria do profícuo escultor francês Mathurin Moreau (1822-1912) e as restantes figuras e ornamentos são criação do também escultor francês e desenhador ornamentista Michel Joseph Napoléon Liénard (1810-1870).

Descrição e Simbologia

Fonte monumental sul
Fonte monumental sul

As fontes monumentais do Rossio são constituídas por um grupo escultórico elaborado, composto por um corpo central rematado por quatro peixes que jorram água para uma pequena taça sob a qual se observam quatro crianças.

Desta taça transborda água para uma segunda, de formato octogonal e de grandes dimensões, que por sua vez a derrama para um lago circular de pedra.

Sob a segunda taça encontram-se sentadas quatro figuras agrupadas em pares. E dentro do lago, quatro sereias carregam búzios que projectam água na sua direcção.

As Quatro Crianças e os Seus Atributos

Fontes monumentais do Rossio: Crianças com os seus atributos: rede, corno da abundância, molho de espigas e leme
Crianças com os seus atributos

A observação que fizemos revela-nos aspectos curiosos.

As crianças, de costas umas para as outras, estão ligadas entre si através das suas mãos. Cada uma tem a palma da mão direita voltada para baixo num gesto de receber e a da esquerda para cima, num gesto de dar.

A elas estão ainda associados  um conjunto muito rico de elementos simbólicos, dos quais identificamos: uma rede, peça com simbologia de grande complexidade que pode simplesmente estar associado ao elemento Água, mas que numa análise mais profunda pode ser interpretada como uma arma de submissão; um corno da abundância que transborda frutos, símbolo de felicidade e fecundidade que se pode relacionar com a Terra; um molho de espigas que remete para o Verão, para a caridade, a abundância e o renascimento, por vezes ligado ao Fogo; e por último um leme sinal de responsabilidade, autoridade e prudência.

Podemos arriscar uma interpretação sobre a presença deste grupo. Estamos perante um ciclo em que a água é fonte de vida, promove a fertilidade que por sua vez cria abundância. Mas é necessária prudência e responsabilidade para manter o equilíbrio e não sucumbir na rede.

Acis e Galatea 

Acis e Galatea, personagens da ópera com o mesmo nome de Georg Friedrich Händel (1685-1759), inspirada nas Metamorfoses de Ovídio (I a.C. - I d.C.)
Acis e Galatea

No que respeita às figuras, o primeiro par refere-se a Acis e Galatea, personagens da ópera com o mesmo nome de Georg Friedrich Händel (1685-1759), inspirada nas Metamorfoses de Ovídio (I a.C. – I d.C.), a obra literária da Antiguidade Clássica que mais influenciou a cultura europeia. Esta narrativa  inspirou centenas de artistas de todos os tempos, das artes plásticas à música e à literatura. Nela são contadas histórias que envolvem transformações de deuses ou humanos em elementos da natureza como pedras, árvores, rios, fontes… 

Este par remete para o amor trágico entre o pastor Acis, um mortal, e a ninfa do mar Galatea. Conta-se que certo dia o ciclope Polifemo, um gigante de um só olho, que se apaixonara pela semi-deusa, ao ver o casal mata Acis mas a ninfa trá-lo de novo à vida em forma de rio de águas límpidas.

Poseidon e Afrodite

Poseidon e Afrodite, duas das personagens maiores da mitologia grega, igualmente relacionadas com o mundo das águas
Poseidon e Afrodite

O segundo par é formado por Poseidon e Afrodite, duas das personagens maiores da mitologia grega, igualmente relacionadas com o mundo das águas.

Entre eles está representada uma âncora símbolo de firmeza, solidez, tranquilidade e fidelidade.

O deus grego Poseidon, que em Roma adoptou o nome de Neptuno, é o deus supremo dos mares e também dos terramotos.

Por sua vez, Afrodite nasceu no mar e é considerada não só a deusa do amor, mas também a deusa das águas calmas, propiciadora de boas viagens. Protectora dos navegadores, como a descreveu Luís de Camões na epopeia Os Lusíadas onde a deusa Vénus (versão romana de Afrodite) tem um papel decisivo no sucesso de Vasco da Gama e dos portugueses na sua aventura marítima que culmina na Ilha dos Amores.

A presença desta deusa pode ter sido determinante na escolha deste modelo de fonte-repuxo por parte do município da cidade.

Curiosidade

Identificámos as mesmas esculturas de Acis e Galatea também num contexto de fonte mas com uma integração totalmente distinta no Chateau du Pian em Bouliac perto de Bordeaux.

Também Poseidon e Afrodite foram encontrados numa composição diferente numa avenida em Santiago do Chile.

Reacções à Instalação das Fontes Monumentais do Rossio

Revista Occidente nº386, de 1889, capa e artigo de opinião
Revista Occidente nº386, de 1889, capa e artigo de opinião

No nº386, de 11 de Outubro de 1889, da revista Occidente, estas fontes são tema de capa e de um artigo de opinião no seu interior.

Ali é reconhecido o empenho que a Câmara Municipal de Lisboa, por aqueles anos, empreendeu no sentido de embelezar a cidade. A abertura da Avenida da Liberdade é elogiada, mas a resolução da implementação das fontes do Rossio já é mais polémica.

Defende-se que teria sido preferível abrir concurso público para a sua concepção. Essa acção resultaria em peças únicas e representativas da criatividade de artistas nacionais, o que na visão do autor seria uma vantagem. Apesar de ter concordado com a beleza destas fontes, reforça a ideia da falta de originalidade por serem de produção em série, acusando directamente os mentores do projecto de ignorância.

Em nossa opinião e a julgar por outros casos de concursos públicos cujos projectos premiados nunca passaram do papel, talvez tenha sido melhor assim. As fontes estão lá, funcionam e cumprem o seu papel imprimindo um certo toque francês que caracterizou o gosto do final do séc. XIX.

Fontes-Repuxo Idênticas Espalhadas pelo Mundo

Imagens do catálogo da fundição Val d’Osne; Acis e Galatea e uma vista geral da chamada Fonte Tourny
Imagens do catálogo da fundição Val d’Osne; Acis e Galatea e uma vista geral da chamada Fonte Tourny

A observação feita pela revista Occidente tem um fundo de verdade no que respeita à falta de originalidade, mas isso não invalida a sua qualidade plástica, simbólica e monumental.

Hoje, passados mais de 160 anos sobre a sua concepção, são apreciadas, escolhidas como cenário de fotografias dos turistas, ex-libris de cidades.

Inúmeros exemplares desta fonte monumental continuam espalhados por outras tantas cidades do mundo. Lugares tão diferentes como Genebra na Suíça; Tacna no Peru; Quebec no Canadá; Buenos Aires na Argentina; Boston nos EUA; Salvador da Baía no Brasil; Launceston na Tasmânia; Cairo no Egipto…

Lisboa tem duas e ainda bem! 🙂

Leia também o artigo A Egípcia do Jardim do Torel em Lisboa, onde lhe falamos desta enigmática escultura que decora uma fonte-repuxo deste jardim.

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