Se necessário fosse ter justificação para falarmos de Santo António, diríamos em primeiro lugar que se trata de uma personalidade histórica, nascida em Lisboa, com grande impacto mundial. Um dos poucos eleitos Doutores da Igreja, o único português. Um intelectual de excepcional cultura, sabedoria e erudição que toca o coração dos mais simples que o afirmam como o santo popular de eleição dos alfacinhas.
Santo António, de Lisboa para uns, de Pádua para outros, é considerado o mais universal dos santos da hagiografia cristã. Popular em todo o mundo, a sua imagem transcende barreiras religiosas, reunindo simpatia e devoção não só entre os cristãos mas também entre muçulmanos, hindus ou budistas e até mesmo agnósticos ou ateus.
Nascido em Lisboa em 1191 ou 1192 e baptizado na Sé como Fernando Martins de Bulhões, era filho de Martim ou Martinho de Bulhão e Tereza Taveira.
Diz a tradição que a casa paterna onde terá vindo ao mundo, ficaria em frente à Sé, no lugar onde hoje se ergue a igreja que lhe é dedicada. Rigor histórico ou tradição a verdade é que o local atrai gentes de toda a parte. É ali, no Largo de Santo António da Sé, que se encontra a referida igreja, o Museu de Lisboa – Santo António e a estátua a que os solteiros atiram moedas na esperança de assim vir a encontrar o seu par.
Mas quem foi este homem que todos apreciam, evocam e festejam e que tão fortemente marca a nossa cidade?
Fernando de Bulhões

Fernando de Bulhões frequentou a escola da Sé onde terá aprendido para além dos estudos primários gerais, noções de lógica e de retórica assim como de música e cálculo matemático. Foi ali que quando jovem adolescente terá sentido a tentação da carne e, em fuga pedindo ajuda ao divino, terá subido a escada do coro e riscado na pedra a cruz que ainda hoje ali se pode observar.

Aos 15 anos ingressou na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho do Mosteiro de São Vicente de Fora. Ali estudou mais alguns anos em recolhimento e meditação mas a presença próxima de familiares e amigos leva-o a pedir transferência para Coimbra, então capital do reino, a fim de continuar os estudos e experienciar o seu isolamento com mais rigor.
Foi nessa cidade, onde professa no Mosteiro de Santa Cruz, que vai ter contacto com os mendicantes franciscanos, facto que virá a mudar o rumo da sua história.
Os franciscanos eram então um movimento religioso inovador criado em 1209 por Francisco de Assis. Os primeiros elementos desta nova visão e vivência da religião cristã, chegaram a Coimbra em 1217 e serão cinco destes frades que virão a ser martirizados em Marrocos e resgatados pelo príncipe D. Pedro que os traz de volta a Coimbra para o Mosteiro de Santa Cruz. Fernando tinha-os conhecido em vida e a visão dos seus restos mortais fazem-no desejar a vida errante e missionária, despojada de bens e conforto, dos franciscanos.
Geralmente estes frades eram homens simples do povo, unidos pela missão de recuperar a forma mais primitiva do cristianismo e da figura de Jesus, em oposição a um clero secular carregado de vícios e ostentação de bens materiais. Fernando seria o seu primeiro elemento diferenciado pela erudição e esse facto seria determinante para a sua vida e para o mundo.
Frei António

Fernando abraça então a Ordem dos Frades Menores disposto a tornar-se, à semelhança dos Mártires, pregador no Norte de África.
Adopta então o nome de António tendo como referência Santo Antão do Egipto, o anacoreta e monge da passagem do século III para o século IV, que abandonou a sua vida confortável e entregou os seus bens materiais aos pobres, tal como Francisco, para depois se isolar no deserto em oração vindo mais tarde a criar a Ordem Hospitaleira dos Antonianos.
Fernando, agora Frei António, terá chegado a Marrocos mas contrai uma doença que o fragiliza de tal forma que embarca de volta a Portugal. Contudo, uma forte tempestade obriga a embarcação em que viaja a tomar outro rumo, a Península Itálica, incidente que viria a transformar mais uma vez o seu destino.
Após algum tempo de recolhimento, Frei António é levado a realizar uma pregação na ordenação de frades mendicantes e a sua eloquência foi de tal modo notada que a partir de então não mais parou de viajar, levando consigo o seu saber e as suas palavras.
No seu tempo havia por toda a cristandade grupos de cristãos que questionavam não só a forma de vida devassa e viciosa do clero mas também os dogmas de fé da igreja católica. Estes grupos comprometiam deste modo a união da Igreja e eram por isso considerados hereges. O aparecimento das ordens mendicantes, Franciscanos e Dominicanos, terão sido determinantes para o seu controlo e desaparecimento. Os primeiros pela acção da palavra e do exemplo, os segundos não só pela palavra mas também pela força através da criação da Santa Inquisição com as práticas e consequências trágicas que todos conhecemos.

Frei António foi assim pregador franciscano, autor de uma obra incontornável no panorama da cultura europeia medieval e ainda mestre de Teologia a convite do próprio São Francisco, mentor da regra então recentemente aprovada pela Santa Sé, em 1223. Foi assim, o primeiro professor da jovem Ordem Franciscana, exercendo em Bolonha, depois em Toulouse, em Montpellier e por fim em Pádua, onde escreveu os famosos Sermões.
Relacionou-se de perto com São Francisco e com o Papa Gregório IX que muito o apreciava e o viria a canonizar em Espoleto, poucos meses após a sua morte. A sua popularidade era enorme, o povo reunia-se em grande número para o ouvir e a sua fama de homem puro e santo taumaturgo já corria.
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Morre Frei António, Viva Santo António!

Frei António faleceu jovem com perto de 40 anos no dia 13 de Junho de 1231. Os seus restos mortais conservam-se em Pádua onde desejou morrer, numa basílica que lhe foi dedicada, no centro histórico da cidade.
Existe na Sé de Lisboa uma relíquia que se exibe num magnífico relicário e que sai à rua todos os anos para a impressionante e curiosa Procissão de Santo António que se realiza no dia 13 de Junho.

Como vimos, não chegou a passar um ano do seu desaparecimento para a sua canonização. Conta-se que nesse dia, 30 de Maio de 1232, todos os sinos das igrejas de Lisboa tocaram em uníssono apesar de não ter havido a intervenção de ninguém… só mais tarde a população veio a saber do ocorrido e a ligar os dois acontecimentos.
Será apenas a 16 de Janeiro de 1946 que o Papa Pio XII o irá proclamar Doutor da Igreja.
Atributos e Representações

Atrevemo-nos a dizer que Santo António de Lisboa deve ser o santo mais representado de todos os santos da Igreja Católica. Na pintura e na escultura eruditas de todas as épocas; na azulejaria; mas também no artesanato e até na publicidade; nas pagelas de orações; nos pequenos santinhos que habitam altares caseiros: nos tronos da festas populares… todos os suportes são válidos para a sua evocação.

A sua imagem é imediatamente reconhecida pelo seu rosto imberbe, hábito castanho de franciscano e pela tonsura, corte de cabelo característico dos frades e monges. Numa mão empunha um livro ou uma bíblia e um lírio que nos remetem respectivamente, para a sua sapiência e pureza de alma e de corpo. No outro braço, ou sobre o livro aberto, carrega o Menino, uma alusão directa a uma visão do Menino Jesus que terá tido aquando da sua morte mas que no fundo simboliza o seu amor à humanidade.
Existem outras variantes principalmente no artesanato que nos apresentam sempre um santo simpático, alegre e folgazão.
A sua evocação toca a superstição como advogado dos pertences perdidos, para os quais se aconselha a leitura do responso de Santo António presente nas pagelas que muitos guardam religiosamente na carteira. É também protector das mulheres, das solteiras que procuram bons casamentos, assim como das viúvas e até das casadas traídas ou insatisfeitas com os seus maridos.

O povo é de tal forma próximo do santo que o trata com familiaridade, o evoca por tudo e por nada, e roça até a crueldade quando o castiga colocando a sua imagem de cabeça para baixo ou virado para a parede, até que o pedido feito seja satisfeito. O hábito de o colocar ao contrário dentro de um copo com água tem origem nos marinheiros da barra do Tejo.
Presente em nomes de estabelecimentos ou produtos de uso corrente; nas notas e nos selos; nos registos de azulejos que proliferaram após o terramoto de 1755 com o intuito de proteger as casas; representado em quase todos os altares das igrejas da cidade; nas festividades populares do mês de Junho, companheiro de copos e bailaricos; Santo António vive no coração dos lisboetas desde sempre com devoção e carinho renovados.

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