Abril 10, 2019 getLISBON 0Comment

Tal como o título deste post Esferas Armilares: Equívoco Desfeito! indica, vamos esclarecer uma situação relacionada com uma afirmação, que um dia alguém fez, e que por simpatia muitos vão repetindo sem reflectir e sem observar.

A getLISBON propõe-se abordar aspectos peculiares, menos conhecidos, desvalorizados ou simplesmente por nós apreciados de Lisboa, mas também tem vindo a investigar, descobrir e divulgar factos desconhecidos ou esquecidos da nossa cidade.

Já tivemos oportunidade de constatar que a discreta Igreja de Nossa Senhora da Oliveira situada na Rua de São Julião, talvez um dos injustamente mais desconhecidos espaços de culto católico da cidade de Lisboa, foi afinal ao contrário do que se costuma afirmar, reconstruída após o fatídico terramoto de 1755, no seu local original.

Também lhe demos a conhecer o curioso projecto de 1913 dos quiosques WC de Lisboa e revelámos o exemplar do jardim do Príncipe Real que já foi demolido e que entretanto se havia perdido da memória dos lisboetas.

Desta vez vimos desfazer um equívoco que tem a ver com esferas armilares.

Os Protagonistas do Equívoco

Os protagonistas desta estória são dois edifícios:

  • O Cine-Teatro Monumental, uma sala de espectáculos cujo desaparecimento gerou polémica e que continua como uma ferida aberta na memória não só dos lisboetas mas dos portugueses em geral;
Cine-Teatro Monumental, uma sala de espectáculos cujo desaparecimento gerou polémica e que continua como uma ferida aberta na memória não só dos lisboetas mas dos portugueses em geral
Arquivo Municipal de Lisboa; Cine-Teatro Monumental; 195-; António Passaporte (1901-1983);  PT/AMLSB/PAS/002976
  • O Padrão dos Descobrimentos, um ex-libris da cidade, exaltação da expansão marítima levada a cabo pelos portugueses, produzida segundo a estética do regime totalitário do Estado Novo.
Padrão dos Descobrimentos edificado em 1960
Padrão dos Descobrimentos, Belém

Estes dois edifícios contêm um elemento decorativo comum, a esfera armilar.

Este elemento que vemos reproduzido um pouco por todo o lado, das decorações dos portais quinhentistas à bandeira nacional, deu então origem a um grande equívoco.

Alguém um dia disse que a esfera armilar que se encontrava no topo do Cine-Teatro Monumental, demolido em 1984, está hoje junto ao Padrão dos Descobrimentos em Belém.

Esta afirmação sempre nos pareceu estranha já que o Cine-Teatro tinha apenas uma esfera no topo do torreão de esquina e o Padrão dos Descobrimentos exibe duas. Bizarro seria que tivesse sido produzida uma igual para que o par pudesse então ladear o famoso monumento.

A esfera do Cine-Teatro Monumental e as duas esferas armilares que ladeiam o Padrão dos Descobrimentos
A esfera do Cine-Teatro Monumental e as duas esferas armilares que ladeiam o Padrão dos Descobrimentos

Por outro lado, a simples observação comparativa entre fotografias mostra as diferenças entre as peças em causa.

Pareceu-nos por isso evidente que a afirmação não correspondia à verdade, mas era necessário procurar saber mais.

A Verdade das Esferas Armilares É Esta!

A fim de ficar a  conhecer o paradeiro da desventurada esfera do Cine-Teatro Monumental, procurámos esclarecimento junto de fonte da Direcção Municipal da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

Podemos então revelar-lhe que esta foi, tal como as estátuas do Jardim da Praça de Londres, recuperada dos escombros da demolição do edifício, pela Câmara Municipal de Lisboa. Hoje encontra-se conservada nos depósitos de reserva do Museu de Lisboa, devidamente referenciada como sendo obra de Carlos Mota, datada de 1946.

Missão cumprida, Esferas Armilares: Equívoco Desfeito! 😉

Esfera Armilar, Símbolo de Portugal

A esfera armilar é uma representação do cosmos segundo a visão de Ptolomeu, o famoso cientista de origem grega nascido no Egipto no séc. I.

Este sábio defendia a cosmologia aristotélica baseada no geocentrismo, teoria mantida até ao séc. XVI quando foi substituída pelo heliocentrismo de Copérnico.

Assim, na esfera armilar a terra encontra-se representada no centro e os aros que a rodeiam, armilas, representam os meridianos celestes, na vertical, e o equador e os círculos polares na horizontal.

Esta concepção do cosmos, que não separava a astronomia da astrologia, apresenta ainda a banda do zodíaco em diagonal. Esta é  habitualmente livremente representada mas em rigor deveria ser tangente aos dois círculos tropicais e inclinada 23,5 graus em relação ao equador.

Foi durante o reinado de D. Manuel I, que a esfera armilar se tornou símbolo do poder político, económico e marítimo e gradualmente adoptada como símbolo de Portugal.

Outras Peças Decorativas Desaparecidas

Talvez, também em depósito se encontre o globo, ex-libris do jornal O Mundo que se situava na Rua da Misericórdia no edifício que hoje pertence à Associação 25 de Abril e que foi retirado após a recuperação do imóvel.

Ou ainda o imponente anjo e as duas estátuas que o ladeavam, observando o movimento do Saldanha do cimo do edifício já demolido que ficava mesmo em frente ao Monumental.

Atenção, não estamos a dizer que estas peças decorativas se encontram em depósito, gostaríamos de pensar que sim… se um dia viermos a saber do seu paradeiro iremos, com certeza, partilhá-lo consigo. 😉

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