Dezembro 5, 2018 getLISBON 0Comment

Às portas de Alfama, instalado no palácio Azurara, encontramos o Museu de Artes Decorativas Portuguesas.

Um espaço fascinante marcado pela relevância do seu espólio, pela qualidade expositiva e pela importância da sua missão.

Um lugar onde o saber fazer das técnicas tradicionais e o cuidado com os detalhes nos faz entrar numa dimensão onde o tempo corre mais devagar.

A Colecção de Ricardo do Espírito Santo e Silva

Tapeçaria “Cortejo com Girafas” da Oficina de Tounai, datada de c. 1510, Museu de Artes Decorativas Portuguesas, Lisboa
Tapeçaria “Cortejo com Girafas” da Oficina de Tounai, datada de c. 1510

O Museu de Artes Decorativas Portuguesas abriu ao público em 1953, reunindo parte da colecção particular do banqueiro Ricardo do Espírito Santo e Silva (1900-1955).

O espólio aqui exposto reflecte o interesse do coleccionador que se concentrou em reunir peças representativas das artes decorativas portuguesas, dispersas um pouco por todo o mundo, resultando num conjunto de grande unidade e coerência artísticas.

Ao longo da sua curta vida o mecenas foi adquirindo, em leilões e antiquários nacionais e internacionais, objectos variados produzidos em Portugal ou decorrentes de encomendas nacionais. Desta forma permitiu trazer de volta ao país obras de arte tão significativas como a tapeçaria “Cortejo com Girafas” da Oficina de Tounai, datada de c. 1510.

Uma visita a este museu permite, através das Colecções de Mobiliário, Ourivesaria, Têxteis, Azulejaria, Pintura, Porcelana e Faiança fazer uma viagem pelo panorama das artes decorativas portuguesas e conhecer as suas influências e contaminações artísticas do séc. XVI ao séc. XIX.

De Palácio Azurara a Museu de Artes Decorativas Portuguesas

Museu de Artes Decorativas Portuguesas instalado no Palácio Azurara, um edifício classificado como imóvel de interesse público.
Palácio Azurara, Largo das Portas do Sol

O Palácio Azurara é um edifício classificado como imóvel de interesse público, que data da 1.ª metade do séc. XVII e que integra na sua estrutura uma torre e um troço da Cerca Moura.

Situa-se no Largo das Portas do Sol, lugar da desaparecida porta oriental da cidade de Lisboa, sobre o antigo bairro de Alfama.

O nome Azurara deriva da sua ocupação pelo Visconde de Azurara, João Salter de Mendonça, no último quartel do séc. XVIII.

O palácio teve vários tipos de ocupação até ter sido adquirido em1947 por Ricardo do Espírito Santo e Silva com o propósito de aí instalar parte da sua colecção. Após uma intervenção de restauro e adaptação levada a cabo pelo arquitecto Raul Lino (1879-1974), o espaço resultou numa reconstituição didáctica de um ambiente aristocrático da Lisboa do séc. XVIII.

Um Projecto Único, Museu e Oficinas

Vista parcial da Sala D. Maria e ao fundo a Sala D. José, Museu de Artes Decorativas Portuguesas, Lisboa
Vista parcial da Sala D. Maria e ao fundo a Sala D. José

Em 1953 o palácio e a colecção foram doados ao Estado Português, nascendo desse processo a Fundação Ricardo do Espírito Santo e Silva que pretendia proteger e divulgar as Artes Decorativas Portuguesas e os ofícios com elas relacionados.

A reunião de tão vasto e valioso espólio e a preocupação de o salvaguardar e divulgar, consistem apenas numa parte de um projecto mais amplo e original.

Ao museu associava-se uma escola de artes e ofícios, onde Mestres transmitiam os seus saberes tradicionais que se encontravam em acentuado declínio. Esta prática permitiu a protecção e defesa não só do património artístico material como do património imaterial do saber-fazer.

Hoje, a Fundação é uma prestigiada entidade, reconhecida nacional e internacionalmente, especializada nas áreas das artes decorativas, dos ofícios tradicionais e da conservação e restauro. O Departamento de Conservação e Restauro realiza importantes projectos em património relevante de museus, entidades públicas e particulares, desenvolvendo um trabalho integral de análise e diagnóstico, proposta de metodologias de intervenção e execução das mesmas.

Peças Exóticas, Emblemáticas e Surpreendentes do Museu

Constitui uma tarefa ingrata destacar algumas peças de um espólio tão rico e diversificado. Contudo, não vamos fugir a esse desafio porque queremos aguçar-lhe a curiosidade para que se desloque a este fascinante espaço.

Começamos por destacar um importante conjunto de peças que resultam do encontro de Portugal com outras culturas. De origens tão diversas e distantes geograficamente como a Índia, a China ou o Japão, temos presentes peças exóticas de mobiliário indo-português, porcelana chinesa, arte Namban

Salão Nobre, Museu de Artes Decorativas Portuguesas, Lisboa
Salão Nobre

O gosto pelo desconhecido e pelo exótico estão ainda presentes no tema da emblemática tapeçaria “Cortejo com Girafas”, uma importante encomenda feita no início do séc. XVI à Oficina de Tounai na Flandres. Um verdadeiro documento que testemunha um momento alto da história da expansão marítima portuguesa no reinado de D. Manuel I.

Menos documental mas não menos interessante e na mesma sala, atente num magnífico bordado do séc. XVII. Trata-se de um tapete em ponto de arraiolos, de lã sobre linho, onde os motivos são contornados a ponto pé de flor o que indicia a sua recuada data. Deslumbre-se com este e outros tapetes da colecção, observe a minúcia dos pontos, as cores e os motivos estilizados de flores e pássaros.

Certamente que entre outros motivos se irá surpreender com mais uma peça emblemática do museu, uma mesa multifunções do séc. XVIII. Esta extraordinária mesa associa a nobreza dos materiais e a arte dos embutidos e da talha ao engenho que permite “folhear” vários tampos com diferentes funções.

Museu de Artes Decorativas Portuguesas, Lisboa: mesa multifunções do séc. XVIII
Mesa multifunções do séc. XVIII

Surpreendente é também a opção expositiva didáctica que coloca lado a lado ambientes onde é fácil apreender as diferenças de estilos. É o caso da reconstituição de dois quartos contíguos, D. José e D. Maria, ou a sala de música que apresenta paralelamente mobiliário português de influências francesa e inglesa.

Enfim, muito mais haveria para destacar…

Para além da exposição permanente, o Museu de Artes Decorativas Portuguesas promove a realização de parcerias e exposições temporárias com artistas plásticos onde se alia a criatividade contemporânea às técnicas e materiais ancestrais.

Dispõe também de visitas guiadas ao Museu e às Oficinas, workshops e programas de férias escolares.

Pode ainda usufruir de uma agradável cafetaria e de uma loja onde pode encontrar reproduções certificadas de peças do museu, livros e uma grande diversidade de belos artigos executados nas oficinas utilizando as técnicas tradicionais.

Loja do Museu de Artes Decorativas Portuguesas
Loja do Museu de Artes Decorativas Portuguesas

Razões não faltam para um destes dias se embrenhar neste magnífico espaço museológico.

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