Setembro 12, 2018 getLISBON 3Comment

Uma das mais belas ruas de Lisboa leva-nos ao surpreendente Jardim do Torel. Data do século XIX, é pequena, discreta e tem de seu nome Júlio de Andrade.

Mas quem foi Júlio de Andrade? Para além de lhe dar nome, qual a sua ligação com esta artéria considerada uma das mais belas ruas de Lisboa?

Vamos indagar!

Júlio de Andrade, um rico banqueiro da alta burguesia da Lisboa do século XIX, deixou a sua marca tanto pela opção estética dos palacetes que aqui construiu, como pela implementação de um curioso equipamento urbano que lhe vamos revelar.

 

Uma das Mais Belas Ruas de Lisboa

Rua de Júlio de Andrade
Rua de Júlio de Andrade

A Rua de Júlio de Andrade situa-se na Colina de Santana e liga o Jardim do Torel ao Campo dos Mártires da Pátria.

O lado ímpar da rua conta apenas com três palacetes, os mais antigos, mais bem situados e mais grandiosos. Todos eles pertencentes à família de Júlio de Andrade, os primeiros a ocupar estes terrenos.

Mas o lado par não é menos impressionante, com as suas moradias de gosto ecléctico, rodeadas por elegantes e harmoniosos jardins.

A rua é muito arborizada com árvores de folha caduca que no Inverno nos permitem apreciar melhor a arquitectura e no Verão constituem uma espécie de corredor fresco até chegarmos ao Jardim do Torel.

Conhecida como a Riviera de Lisboa, é uma artéria que vale a pena conhecer com detalhe e sem dúvida uma das mais belas ruas de Lisboa.

 

O nº 7 e a Casa dos Espíritos

O nº 7 da Rua de Júlio de Andrade

Ao entrarmos na rua pelo lado do Campo dos Mártires da Pátria encontramos no nº 7 o primeiro palacete que tem uma história muito particular.

Aqui foi gravado, em 1993, parte do filme de grande sucesso, A Casa dos Espíritos baseado na obra literária do mesmo nome, de Isabel Allende, e protagonizado por Meryl Streep e Jeremy Irons. O pavimento foi nessa altura coberto com terra para simular tempos mais remotos, mas a rua é perfeitamente reconhecível, assim como a casa senhorial da infância da protagonista.

Reveja o filme e identifique este e muitos outros locais de Lisboa.

Projectado pelo arquitecto italiano Sebastião Locati, era a residência do irmão de Júlio de Andrade, Alfredo de Andrade, pintor e arquitecto de escola italiana, responsável pela organização paisagística desta rua.

 

O Palacete Virtus no nº 5

O Palacete Virtus no nº 5, Rua de Júlio de Andrade

Também de risco italiano, desta vez do arquitecto César Janz, posteriormente alterada por Norte Júnior, esta bela moradia foi residência do próprio Júlio de Andrade.

Na sua fachada pode observar um dos raros exemplares de composições de mosaico italiano existentes em Lisboa. Atente no brilho e na vivacidade das cores deste magnífico painel.

Este palacete teve já diversas utilizações. Por aqui passaram a sede da agência noticiosa ANOP, mais tarde da LUSA e o CENJOR, um centro de formação de jornalistas.

Foi recentemente restaurado e é hoje um espaço requintado destinado à realização de todo o tipo de eventos, estando o catering assegurado pela conceituada Casa da Comida.

 

O Nº 3 e a Xuventude da Galiza

Palacete no Nº 3 da Rua de Júlio de Andrade

Este magnífico palacete pertenceu à irmã de Júlio de Andrade, Guilhermina Bastos. Foi, como o primeiro, projectado pelo arquitecto Sebastião Locati e constitui mais um belo exemplar do gosto ecléctico do século XIX.

Nos anos 70, após muitos anos de abandono, foi ocupado pelo Infantário Popular Ribeiro dos Santos. Esta instituição, mais tarde detentora do estatuto de utilidade pública, propunha-se pagar renda ao proprietário Manuel Bulhosa. Contudo, este obrigou o infantário a sair, doando o edifício para sede da Xuventude da Galiza, instituição que ainda hoje ocupa esta moradia.

Nas antigas garagens, transformadas em refeitório no tempo do infantário, funciona hoje um restaurante. Para além da magnífica vista que oferece tem outra particularidade, é um dos últimos espaços de restauração de Lisboa que ainda conserva privados. Ou seja, espaços de refeição divididos por separadores de madeira que permitem isolamento e privacidade em relação à mais ampla sala de refeições. Sem dúvida um espaço a visitar.

 

Nº 1, Jardim do Torel

Vista dos palacetes a partir do Jardim do Torel

O nº 1 da Rua de Júlio de Andrade corresponde à entrada do Jardim do Torel. Entre e desfrute das espreguiçadeiras, da magnífica vista sobre Lisboa e do terraço com esplanada. Dali se avistam ainda as impressionantes traseiras dos magníficos palacetes de que lhe falámos, vale a pena olhar!

Depois de conhecermos um pouco melhor uma das mais belas ruas de Lisboa, vamos falar-lhe de outra faceta da personalidade que lhe deu nome.

 

Júlio de Andrade e a Sociedade Protectora dos Animais

Júlio de Andrade não foi só um ilustre membro da abastada burguesia lisboeta do final do século XIX. A sua acção é ainda destacada pelo seu papel enquanto membro fundador da Sociedade Protectora dos Animais em 1875.

Instituição que ainda hoje tem um papel fundamental na protecção e promoção de adopção de animais abandonados, assim como na oferta de cuidados veterinários a preços mais acessíveis aos seus sócios.

Os Fontanários-Bebedouro

Em 1882 Júlio de Andrade teve a ideia de oferecer à cidade de Lisboa em nome da Sociedade Protectora dos Animais, fontanários-bebedouro para animais. Não será demais recordar que nessa época o transporte de pessoas e bens se fazia em carros ou carroças puxadas por cavalos, sendo que a necessidade destes bebedouros era evidente.

Num primeiro momento foram oferecidos três, importados de Paris, que se situavam no Largo do Corpo Santo, na Praça do Comércio e em Santa Apolónia.

Fontanário-bebedouro em Santa Apolónia
Fontanário-bebedouro em Santa Apolónia “Sociedade Protectora dos Animais fundada em 1875. Doado à sociedade por Júlio D’Andrade” “O Homem dever ser piedoso e humano para com os animais”

Todos os fontanários apresentavam a mesma tipologia, uma coluna de ferro fundido com três bacias em forma de concha. A rematar uma moldura com um letreiro que apelava ao cuidado a ter com os animais e a referência à Sociedade Protectora dos Animais e ao benemérito Júlio de Andrade.

Em 1889 foram doados mais quatro fontanários-bebedouro idênticos, desta vez fabricados pela Empreza Industrial Portugueza, colocados na Rua de São Bento, no Largo da Igreja de São Roque, no Pátio do Regedor próximo do Rossio e no Arco do Cego.

Com o tempo foram instalados mais sete completando o número total de catorze. Destes temos notícia de um no Largo da Anunciada, outro na Rua Gomes Freire, na Avenida António Augusto de Aguiar  e por fim no Jardim do Príncipe Real.

Fontanário-bebedouro no Príncipe Real
Fontanário-bebedouro no Príncipe Real “Sociedade Protectora dos Animais fundada em 1875. Doado à sociedade por Júlio D’Andrade”. “Sede compassivo com os pobres animais que vos ajudam a viver”

Hoje restam apenas dois, o de Santa Apolónia, ligeiramente deslocado do seu local original e o do Jardim do Príncipe Real. Funcionam mas o seu estado de conservação não é o melhor.

Queremos acreditar que a autarquia não deixará que desapareçam estes curiosos e belos exemplares de equipamento urbano oitocentistas. Quem sabe até talvez pudesse repor algum que ainda sobreviva, abandonado num dos depósitos da Câmara Municipal.

Lançamos a ideia e o apelo a que se valorize e não deixe morrer este interessante património da cidade de Lisboa.

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Praça do Comércio; 1912; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000657

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Praça do Comércio; 1912; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000657

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Praça do Comércio; 1912; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/000657

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro em Santa Apolónia; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000606

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro em Santa Apolónia; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000606

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro em Santa Apolónia; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000606

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Trindade; 19--; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000102

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Trindade; 19--; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000102

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Trindade; 19--; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000102

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Anunciada; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000601

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Anunciada; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000601

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro no Largo da Anunciada; 1953; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/POZ/000601

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Rua Gomes Freire; 1947; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000123

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Rua Gomes Freire; 1947; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000123

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Rua Gomes Freire; 1947; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000123

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Avenida António Augusto Aguiar; 1948; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000124

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Avenida António Augusto Aguiar; 1948; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000124

Arquivo Municipal de Lisboa; Fontanário-Bebedouro na Avenida António Augusto Aguiar; 1948; Fernando Martinez Pozal (1899-1971); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/003/ALB/002/000124

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Esperamos que tenham gostado deste passeio por uma das mais belas ruas de Lisboa, assim como, ter ficado a saber mais sobre a figura de Júlio de Andrade e do seu pioneiro contributo para o respeito pelos animais e o seu bem-estar.

 

3 thoughts on “Uma das Mais Belas Ruas de Lisboa e Júlio de Andrade

  1. No nº 6, funcionou o Centro de Estudos Filológicos, dependente do IAC = Instituto para a Alta Cultura, que está na base da actual FCT = Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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