Maio 15, 2019 getLISBON 0Comment

Hoje convidamo-lo a vir à mais antiga feira de velharias de Lisboa, a Feira da Ladra que se realiza todas as terças e sábados, logo de manhã e até ao início da tarde, no Campo de Santa Clara.

Talvez já seja raro encontrar grandes tesouros na Feira da Ladra mas há sempre um motivo para lá voltar. À procura de uma peça que falta a um objecto antigo que se quer recuperar, na esperança vã de encontrar uma pechincha interessante que alguém deixou passar, ou simplesmente por nostalgia, deambular por entre memórias da infância que nos lembram vivências ou pessoas que nos marcaram.

Velharias, objectos kitsch, vintage, retro, ou qualquer outra designação mais ou menos na moda que lhe queiram dar, a verdade é que ali encontramos de tudo um pouco entre artigos novos e usados.

Com tanta oferta podemos passar largas horas observando os mais estranhos e improváveis artefactos, artesanato, roupa, objectos de colecção…

Artigos curiosos apreciados por portugueses e estrangeiros podem ser encontrados num evento que constitui um destino pitoresco que os turistas já não dispensam.

Sem dúvida uma antiga tradição que está para durar, porque aquilo que uns rejeitam corresponde sempre aos interesses de outros. Uma eterna reciclagem de emoções, ilusões e contradições.

Origem do Nome “Feira da Ladra”

 Feira da Ladra: Alfarrabista. A Feira da Ladra existe desde o séc. XIII mas a sua designação aparece pela primeira vez num documento oficial de 1610.
Alfarrabista no Mercado de Santa Clara

A origem do nome Ladra constitui um mistério e é uma discussão que se faz desde o séc. XIX.

A Feira da Ladra existe desde o séc. XIII mas a sua designação aparece pela primeira vez num documento oficial de 1610.

Alguns autores defendem que a feira em tempos remotos teria tido lugar na Ribeira Velha junto ao Tejo, e que por isso o nome ladra poderia ter origem no português antigo lada que significa margem de um rio. Mas como vimos a sua designação parece ser mais recente e não parece haver provas desta sua primitiva localização.

Também se defende que o termo ladra se relaciona com o facto de aí se venderem objectos roubados.

Talvez seja mais persuasiva a teoria que defende que ladra será não o feminino de ladrão, mas derivará de ladro, porque era comum haver piolhos nestes locais, ou lázaro, que tem a ver com lazarento, imundo, pobre, miserável. O que vai mais ao encontro do conceito de feira de velharias.

Na verdade a Feira da Ladra é o local onde se transaccionam todo o tipo de artefactos usados, aparentemente sem préstimo, por baixo preço.

A Feira da Ladra já Passou por Muitos Locais

Feira da Ladra. Podemos encontrar um pouco de tudo: velharias, objectos kitsch, vintage, retro
Podemos encontrar um pouco de tudo: velharias, objectos kitsch, vintage, retro

No séc. XIII a Feira da Ladra realizava-se no Chão da Feira à entrada do Castelo de São Jorge.

Ao longo do tempo foi mudando de sítio acompanhando o desenvolvimento de Lisboa. Desceu por isso à zona baixa da cidade e apesar de geralmente ser considerada a Estatística Manuscrita de Lisboa com data de 1552 como a primeira referência à realização da feira no Rossio, o olisipógrafo Norberto de Araújo refere que em 1430 já se realizaria neste local.

Ali se manteve séculos e durante o reinado de Filipe II de Portugal ao que parece era muito apreciada e frequentada por senhoras ilustres.

A feira desenvolvia-se por todo o Rossio até ao palácio dos Duques de Cadaval, edifício que se situava onde hoje se encontra a Estação do Rossio e que foi demolido em 1880.

Após o terramoto de 1755 deslocou-se para a Praça da Alegria estendendo-se abusivamente até à actual Praça dos Restauradores.

No início de 1823 a Câmara Municipal de Lisboa determina que a feira se passe a fazer no Campo Santana mas dado o descontentamento da população, em Julho do mesmo ano volta para a parte baixa da cidade, desta vez limitada entre a Calçada da Glória (onde hoje se encontra o emblemático Ascensor da Glória), e a Praça da Alegria.

Ali permaneceu até 1835 quando foi novamente transferida para a Colina de Santana, fixando-se aí alguns anos.

Em 1882 a feira foi dividida e foi ocupar dois mercados há pouco edificados: o de Santa Clara e o de São Bento. Talvez seja devido a este facto que hoje a Rua de São Bento, desde o Largo do Rato até à Rua do Poço dos Negros tenha uma tão grande concentração de estabelecimentos dedicados às antiguidades e velharias.

O Campo de Santa Clara, Actual Local da Feira da Ladra

Feira da Ladra. Foi a existência de um convento de freiras clarissas, desde 1294, que determinou a designação do local da realização da feira de Campo de Santa Clara.
Campo de Santa Clara, o actual local da Feira da Ladra

Outrora esta área que ficava para lá do limite da cidade era apenas um campo aberto em encosta até ao rio.

Foi a existência de um convento de freiras clarissas, desde 1294, que determinou a designação deste local de Campo de Santa Clara.

Mais tarde a parte baixa desta zona ficou conhecida por Campo da Forca, pois aqui eram executados os condenados.

Até 1755 a sua urbanização foi escassa, mas após o terramoto assistiu-se a um grande desenvolvimento.

Para saber mais leia sobre a zona da Graça.

Hoje, o Campo de Santa Clara é um local particularmente bonito. Destaca-se um edificado rico constituído por palacetes e monumentos importantes como a Igreja de Santa Engrácia onde se encontra o Panteão Nacional e o Convento de São Vicente de Fora, Panteão Régio da 4ª dinastia.

Também o agradável Jardim Botto Machado que dispõe de uma magnífica vista sobre o rio e o Mercado de Santa Clara merecem atenção.

A Feira da Ladra estende-se à volta do Mercado de Santa Clara. Este edifício constitui um interessante exemplar de arquitectura do ferro, data de 1877 e é da autoria do arquitecto Emiliano Augusto de Bettencourt. Foi construído pela Companhia de Mercados e Edificações Urbanas que o explorou até 1927, tendo então sido municipalizado.

Funcionou como mercado de produtos alimentares frescos mas actualmente as suas instalações são usadas para a realização de eventos. No seu exterior encontramos pequenas lojas de velharias, objectos de colecção, móveis e artigos de decoração, alfarrabistas e restaurantes.

A feira teve sempre lugar à terça-feira mas desde Novembro de 1903 passou a realizar-se também ao sábado. Nestes dois dias as ruas enchem-se de vendedores que pelo chão ou em bancas improvisadas oferecem aos visitantes uma variedade indescritível de objectos e de emoções.

Venha senti-las!

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