Novembro 7, 2018 getLISBON 0Comment

Sabemos que o bairro mais antigo de Lisboa é Alfama, mas o coração da cidade é indiscutivelmente a Baixa Pombalina. Esta e a sua envolvente são o local de eleição dos visitantes, centro comercial a céu aberto dos alfacinhas e ponto de encontro de todos.

Mas estas ruas rigorosamente desenhadas a régua e esquadro são o resultado de uma enorme catástrofe. Não fosse a devastação causada pelo violento terramoto de 1755, seguramente este local seria bem distinto.

Dizer Lisboa antes e depois do terramoto é o mesmo que dizer Lisboa antes e depois de Pombal. O terramoto trouxe consigo de forma violenta e implacável a destruição da cidade. Em seguida Pombal com o mesmo carácter deu lugar à sua reconstrução.

É sobre a reconstrução da cidade que hoje lhe falamos.

Baixa Pombalina

A designação de Baixa Pombalina decorre por um lado, do terramoto ter sido particularmente devastador na zona baixa da cidade e por outro, pelo facto de a sua reconstrução ter sido sonhada, promovida e orientada pelo ministro do reino, Marquês de Pombal.

Antes do fatídico terramoto já existiam duas importantes praças na parte baixa da cidade: O Rossio e o Terreiro do Paço. Atentemos em cada uma delas.

O Rossio

 Rossio, Praça D. Pedro IV, Lisboa. Ao fundo o Teatro Nacional D. Maria II, o Palácio da Independência e recuada a Igreja de São Domingos
Rossio, Praça D. Pedro IV

O Rossio correspondia a um grande terreno onde outrora confluíam as ribeiras de Valverde e de Arroios, que daí corriam para o rio. Com o tempo as ribeiras acabaram por ser aterradas correndo agora no subsolo.

Era esta a sala de visitas da cidade antes do terramoto. Ali se situavam três notáveis edifícios: o Convento e Igreja de São Domingos, do séc. XIII; o Hospital Real de Todos os Santos construído entre 1492 e 1504; e o Palácio dos Estaus, um paço do séc. XV destinado a albergar as visitas de estado e ilustres estrangeiros, que em 1584 se viu transformado em Tribunal da Inquisição.

Com o terramoto, o Rossio viu cair por terra o convento e a igreja da qual só restou a sacristia e o altar-mor. A igreja foi reaberta apenas em 1834 após reconstrução dirigida pelo arquitecto Carlos Mardel.

O hospital que, pouco tempo antes, tinha recebido obras de renovação provocadas por um terrível incêndio, ruiu quase na totalidade, ficando apenas uma pequena ala em funcionamento por desesperada necessidade.  O seu serviço passou depois para o Colégio de Santo Antão, casa de jesuítas, dando origem ao actual hospital de São José na Colina de Santana.

O palácio dos Estaus também não sobreviveu. Em 1773 foi erguido um novo palácio, ainda para a Inquisição que viria a ser extinta em 1820, igualmente plano de Carlos Mardel. Em 1836 o então Palácio do Tesouro sofre um terrível incêndio, vindo a ser totalmente demolido para dar lugar a um novo projecto, o Teatro Nacional D. Maria II.

Com a demolição do hospital e o novo alinhamento da opção urbanística adoptada,  a Baixa Pombalina legou-nos um Rossio com uma forma rectangular mais regular e uma nova praça contígua, a Praça da Figueira.  

O Terreiro do Paço

Bilhete postal que ilustra a  Praça do Comércio, lugar do antigo Terreiro do Paço, Lisboa
Bilhete postal que ilustra a Praça do Comércio, lugar do antigo Terreiro do Paço.
Imagem gentilmente cedida pelo coleccionador Luís Bayó Veiga

Este foi o centro de poder a partir de 1511, ano em que o rei D. Manuel I transferiu o Paço Real do Castelo de São Jorge  para a zona ribeirinha. Desde então, a grande praça passou-se a chamar Terreiro do Paço e o palácio, Paço da Ribeira.

Tendo começado a ser construído em 1498 em pleno centro da actividade económica em forte ascensão, este palácio contribuiu para o processo de centralização do poder. Na Ribeira o rei podia controlar a actividade marítima e comercial de forma efectiva.

Durante o reinado de Filipe I o Paço foi renovado, tomando uma imponência clássica maneirista. Ganhou pisos, grandiosidade e o famoso torreão do arquitecto bolonhês Filipe Terzi (1520-1597).

Ruiu aquando do terramoto de 1755, perdendo-se com o edifício todo o seu recheio: valiosas obras de arte, documentos, parte da história de Portugal e da história de Lisboa

O plano de reconstrução da Baixa manteve esta larga e simbólica praça. Da autoria de Eugénio dos Santos (1711-1760), a tipologia dos edifícios não difere muito da sobriedade do paço maneirista, apostando agora na simetria com a introdução de mais um torreão a oriente e a abertura da frente norte com a ligação directa ao Rossio.

Os edifícios destinaram-se à Bolsa do Comércio, Alfândega, Tribunais, Ministérios e serviços relacionados com a administração do Estado e o Terreiro do Paço passou a chamar-se Praça do Comércio.

A reconstrução da praça não previu a edificação de um novo paço real. Esse foi provisoriamente instalado numa construção de madeira, a Real Barraca,  vindo mais tarde a dar lugar ao Real Palácio da Ajuda na zona da Lisboa Ocidental.

A figura do rei continuou presente, exaltado de forma simbólica através da estátua equestre de D. José, cuidadosamente alinhada com a Rua Augusta, da autoria do escultor Machado de Castro (1731-1822).

Entre o Rossio e a Praça do Comércio

Planta da Baixa Pombalina, c. 1786
Planta da Baixa Pombalina, c. 1786

Este espaço é composto por uma rede de ruas paralelas e perpendiculares com diferentes categorias de importância.

O eixo central é a solene e majestosa Rua Augusta que se inicia no arco triunfal da Praça do Comércio e nos conduz ao Rossio. As suas paralelas mais importantes são:

  • A Ocidente, a Rua Áurea ou do Ouro que remete para os artífices mais importantes, os que trabalhavam o  precioso metal e os relojoeiros, faz igualmente a ligação da Praça do Comércio ao Rossio;
  • A Oriente, a Rua Bela da Rainha, hoje da Prata, que liga a Praça do Comércio à Praça da Figueira;
  • Ainda a Oriente, a Rua Nova da Princesa, hoje dos Fanqueiros, liga a Rua da Alfândega à Praça da Figueira.

Entre estas artérias, outras três menos importantes dedicadas aos artífices que não atingem a Praça do Comércio, são elas: Rua dos Sapateiros a Ocidente e Correeiros e Douradores a Oriente.

Esta hierarquia está presente na sua largura e na tipologia das cantarias das janelas mais simples. A opção pelas linhas simples e a uniformidade permitiu construir de forma rápida e económica.

Baixa Pombalina, esquina da Rua dos Correeiros (esq.) com a Rua da Vitória (dir.). Um olhar mais atento verifica que as cantarias das janelas diferem em função da importância das ruas
Baixa Pombalina, esquina da Rua dos Correeiros (esq.) com a Rua da Vitória (dir.). Um olhar mais atento verifica que as cantarias das janelas diferem em função da importância das ruas

As transversais receberam nomes de cariz religioso, relacionados com antigas igrejas e paróquias. A saber no sentido descendente: Santa Justa; Vitória; São Nicolau; Assunção; Conceição; São Julião e por fim a excepção, a Rua Nova d’El Rei, hoje do Comércio.

Medidas Preventivas

Baixa Pombalina, Rossio. Os edifícios são separados por paredes corta-fogo que podem ser observadas ao nível dos telhados
Baixa Pombalina, Rossio. Os edifícios são separados por paredes corta-fogo que podem ser observadas ao nível dos telhados

A reconstrução da Baixa Pombalina contou com uma equipa, liderada pelo Engenheiro-Mor Manuel da Maia, de que faziam parte os arquitectos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel.

Numa perspectiva pragmática e inovadora, os construtores da nova cidade implementaram medidas que procuravam minorar os danos em caso de uma nova catástrofe e introduziram novidades a nível das infra-estruturas.

  • Adoptaram sistematicamente a famosa estrutura em gaiola, processo com características anti-sísmicas já experimentado;
  • Utilização de paredes corta-fogo entre os edifícios;
  • Aplicação funcional dos azulejos nos interiores, revestimento que permite uma melhor higiene e constitui uma protecção anti-fogo;
  • Ruas largas;
  • Construção de passeios alteados dedicados exclusivamente a peões;
  • Criação de sistema doméstico de esgotos que reflectia a preocupação com a salubridade.

A Marca do Marquês de Pombal

Baixa Pombalina, Rua Augusta, Lisboa
Baixa Pombalina, Rua Augusta

Associada à reconstrução da Baixa Pombalina, ficará para sempre ligada a imagem de um homem Sebastião José de Carvalho e Melo, a partir de Julho de 1759 Marquês de Pombal. A mão de ferro que tomou as rédeas do poder, que teve a ousadia de sonhar e construir uma nova cidade. Personalidade ainda hoje controversa, mas que marcou não só a cidade de Lisboa como todo o país, obrigando toda a sociedade a dar um salto rumo à modernidade segundo a visão do Iluminismo Reformista.

Alguns autores defendem a ligação do Marquês de Pombal à Maçonaria e fazem uma leitura simbólica do novo urbanismo. Segundo estes, a concepção da Baixa Pombalina baseou-se em conceitos esotéricos clássicos, visando atrair energia e protecção divinas. Entre outras características interpretam a Rua Augusta como o eixo de encontro e fusão de duas forças primordiais. Do lado Ocidental a Rua do Ouro, a energia masculina, solar, quente e activa e do lado Oriental, as ruas Bela Rainha e Nova da Princesa, a energia feminina, lunar, fria e passiva…

A antiga toponímia está ainda presente em algumas artérias da Baixa Pombalina. A Rua da Prata foi outrora a Rua Bela da Rainha
A antiga toponímia está ainda presente em algumas artérias da Baixa Pombalina. A Rua da Prata foi outrora a Rua Bela da Rainha

A Baixa Pombalina, Reflexo do Iluminismo Reformado

Menos polémica será a relação entre este novo urbanismo e a ideologia iluminista, caracterizado pelo abandono de uma estética barroca e a adopção de linhas clássicas, austeras e racionais, condicionadas pelas necessidades de rapidez de construção e economia de recursos.

O novo urbanismo reflecte ainda a reforma social das Luzes defendida e levada à prática pelo ministro de D. José.  A Baixa é então um espaço de comércio, onde as igrejas se encontram “arrumadas” na nova organização e onde não existem palácios. Reflexo da submissão do clero e o afastamento da nobreza do poder dando lugar a uma maior influência da burguesia.

A Igreja de Nossa Senhora da Oliveira é o exemplo extremo de inserção de um espaço de culto num edifício comum da Baixa Pombalina.

Ocupação e Transformação do Espaço

Ao longo do tempo alguns edifícios da Baixa Pombalina receberam novas decorações
Ao longo do tempo alguns edifícios da Baixa Pombalina receberam novas decorações

Talvez as memórias de tempos tão duros tenham levado a que a Baixa Pombalina nunca tivesse sido efectivamente ocupada pela população para habitação. Afinal as modernas casas equipadas com cozinhas, escadas e áreas comuns azulejadas que para além de evitar a propagação de fogos permitiam manter a higiene, não cativaram as camadas mais favorecidas do povo de Lisboa. Talvez por um lado o local ainda estivesse muito conotado com a tragédia e por outro a uniformização e despojamento dos edifícios não terá ido ao encontro do gosto das classes mais favorecidas.

Os pisos térreos eram destinados a lojas, sendo os primeiros e segundos andares ocupados por armazéns e oficinas de indústrias limpas com estas relacionadas.

Uma das principais características dos edifícios da Baixa era a sua uniformidade que se tem vindo a perder ao longo do tempo.

Numa primeira fase foi acrescentado mais um andar aos edifícios que assim passaram, em geral, de 3 para 4 pisos.

Fachadas pombalinas, posteriormente, revestidas a azulejo, Lisboa
Fachadas pombalinas, posteriormente, revestidas a azulejo

No final do séc. XIX, início do séc. XX, o gosto e a vontade de se diferenciar levou alguns proprietários a revestir as fachadas com azulejos e a decorar as molduras das janelas com elementos ornamentais.

São também deste período alguns edifícios construídos de raiz, que exibem fachadas de gosto eclético em geral muito elaboradas, que apesar de contrariarem a estética pombalina não destroem o conjunto passando muitas vezes, injustamente, despercebidos.

Apesar das alterações inerentes à passagem do tempo, a Baixa Pombalina mantém o seu carácter original, e a sua peculiar monumentalidade.

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