Setembro 25, 2019 getLISBON 0Comment

Hoje falamos-lhe das caravelas de pedra que encontramos esculpidas nas fachadas de velhas casas ou em chafarizes, situados principalmente nas zonas mais antigas da cidade de Lisboa.

Na capital portuguesa somos frequentemente confrontados com imagens de barcos sobre diversos suportes. Fundidos em ferro nos candeeiros da iluminação pública e nas tampas do saneamento, ou desenhados na calçada portuguesa, nos azulejos, nas imagens de marca de estabelecimentos…

Não é de estranhar! Como já lhe revelámos no artigo O Símbolo da Cidade de Lisboa, a barca com os corvos faz parte da representação heráldica da cidade.

Mas qual o significado e qual a explicação para a existência de diferentes barcos esculpidos em pedra nas fachadas de edifícios antigos?

Espalhadas pela cidade observam-se representações, por vezes fantasiosas, que nos remetem para embarcações de diversas tipologias e épocas e que são vulgarmente apelidadas de caravelas.

Talvez esta designação se justifique pela ligação afectiva à caravela portuguesa, tendo em conta a contribuição desta original embarcação na conquista do mundo desconhecido, levada a cabo pelos portugueses no séc. XV.

Qual o Significado das Caravelas de Pedra?

Representação de um galeão, Beato
Representação de um galeão, Beato

Um certo mistério em volta de um assunto é geralmente difundido e adensado pelo gosto pelo insólito. Contudo, a explicação para este tipo de enigma costuma ser bem mais simples.

Por terem diferentes tipologias e por vezes não apresentarem corvos, as caravelas de pedra têm sido interpretadas de diversas maneiras.

A variedade de formas das embarcações poderiam, num primeiro olhar, fazer crer que se tratariam de representações com diferentes significados.

Alguns justificam estes barcos esculpidos como sinal de estarmos na presença da casa de um antigo navegador ou de alguém cuja profissão estaria de alguma forma ligada à navegação, assim como outras interpretações mais ou menos criativas.

Na verdade, tratam-se de marcos foreiros, neste caso pedras de armas do concelho de Lisboa, onde está representada a simbólica barca de São Vicente. Estes marcos assinalavam a entrada no território e na jurisdição da cidade, e ainda a posse de determinado bem, móvel ou imóvel, por parte do município.

Caravelas de Pedra dos Chafarizes de Lisboa

As caravelas de pedra esculpidas nos chafarizes de Lisboa são indiscutivelmente símbolos de propriedade da Câmara Municipal, mas, curiosamente, também aqui os barcos têm tipologias diversas em função da época a que pertencem.

Ou seja, ao longo dos tempos a representação da barca de São Vicente foi sofrendo variações consoante o gosto e a moda. Como vimos quando lhe falámos do símbolo da cidade, um modelo fixo só se veio a instituir no final dos anos 30 do séc. XX.

Caravelas de Pedra dos chafarizes do Andaluz, Campo de Ourique e Rua da Boavista
Caravelas de Pedra dos chafarizes do Andaluz, Campo de Ourique e Rua da Boavista

Se as mais antigas são efectivamente barcas como as que podemos observar no Chafariz do Andaluz  ou na pedra do Chafariz de Arroios que se conserva no Museu de Lisboa – Palácio Pimenta, ao longo dos tempos estas embarcações foram substituídas por modelos mais recentes como naus e caravelas. 

São os casos das representações que se observam no Chafariz da Fonte Santa em Campo de Ourique e na Bica dos Olhos na Rua da Boavista.

Mais tarde surgem representações de galeões, talvez reflexo do clima de conflito com a vizinha Espanha. 

A Lisboa do séc. XIX deixa-nos por vezes como símbolo, imponentes veleiros que nos remetem para a Fragata D. Fernando II e Glória que se conserva em Cacilhas, na margem sul do Tejo.

É o caso do chafariz Nº 10 da Praça da Armada em Alcântara datado de 1845, que nos apresenta um, à data moderno, navio-escola onde não faltam os corvos. A opção pela tipologia da embarcação talvez não seja alheia à proximidade do Quartel da Marinha.

Representação de um navio-escola no chafariz da Praça da Armada, Alcântara
Representação de um navio-escola no chafariz da Praça da Armada, Alcântara

O Chafariz D’ El Rei em Alfama constitui um exemplo curioso. Erigido no séc. XIII foi alvo de diversas remodelações ao longo dos tempos, sendo a última do séc. XIX.

Hoje, na fachada apresentam-se duas caravelas de pedra idênticas. Podem ainda ser observadas duas mais antigas e com diferentes tipologias, na Travessa de São João da Praça, provavelmente cada uma substituição sucessiva da anterior.

Caravelas de Pedra na Travessa de São João da Praça e na fachada do Chafariz D’El Rei, Alfama
Caravelas de Pedra na Travessa de São João da Praça e na fachada do Chafariz D’El Rei, Alfama

A localização de algumas das caravelas de pedra pode já não ser a original. O seu significado foi-se perdendo com o passar do tempo, mas estas embarcações continuam a encantar quem as observa pelo testemunho de antiguidade que revelam.

Agora que já conhece o significado das caravelas de pedra, procure-as por toda a cidade mas se for propositadamente ao seu encontro descubra-as, na zona ocidental de Lisboa, entre a Pampulha e Alcântara onde estão em maior número. Não vai com certeza dar o seu tempo por perdido!

Curiosidade

Na rua da Galé, em Alfama, observámos uma caravela de pedra, provavelmente executada na 1ª metade do séc. XX, que constitui uma cópia de outra inquestionavelmente muito antiga presente na Travessa de São João da Praça, junto ao Chafariz D’El Rei.Possivelmente uma proposta para a criação do símbolo da cidade que perdeu para o modelo do chafariz do Andaluz… Alguém sabe?  😉
Caravelas de Pedra na Travessa de São João da Praça e na Rua da Galé, Alfama
Caravelas de Pedra na Travessa de São João da Praça e na Rua da Galé, Alfama

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