Maio 8, 2019 getLISBON 0Comment

No rescaldo da tragédia que recentemente destruiu parte da emblemática Catedral de Notre Dame de Paris, impõe-se fazer uma reflexão sobre restauro e reconstrução do património artístico.

Levantam-se ainda outras questões, desde logo o apuramento da origem do acidente que decorreu durante as obras de restauro da cobertura, essencialmente para que possam ser prevenidas idênticas situações futuras. Perante uma situação que nos parece numa primeira reacção inadmissível, perguntamo-nos até que ponto estará a segurança do nosso património devidamente acautelada.

Parece-nos óbvio que por melhores que sejam as medidas preventivas sempre pode acontecer o impensável.

Depois de inventariados os danos, interroga-se o que fazer a um monumento desta importância após a sua parcial destruição.

Como abordar o emblemático edifício, símbolo da nossa cultura milenar, pode ser a questão maior e menos unânime que animará nos próximos tempos historiadores de arte, arquitectos e decisores em geral.

Restauro e Reconstrução, Conceitos em Construção

Peças de cerâmicas, Museu da GNR. Hoje as intervenções de restauro são por norma passíveis de ser removidas o que garante a integridade do objecto restaurado
Hoje as intervenções de restauro são por norma passíveis de ser removidas o que garante a integridade do objecto restaurado

A produção de arte é inerente à condição humana e por isso constante ao longo de toda a sua existência. Contudo, o seu entendimento sobre a produção de artefactos funcionais ou artísticos e a sua linguagem estética varia, reflexo dos contextos formais e ideológicos de que depende.

Os conceitos de monumento, património, restauro são relativamente recentes, têm vindo a sofrer mudanças e adaptações ao longo do tempo e apesar das normas internacionais em vigor não implicam necessariamente consenso.  

Restaurar significa repor o que está em falta, o que se perdeu ao longo do tempo, por mau trato, acidente ou simplesmente pelo passar do tempo que envelhece os materiais que constituem as obras de arte. Ou seja, é um acto que visa prolongar a vida de uma peça repondo as qualidades originais perdidas, mas mantendo sempre a sua autenticidade.

As teorias de restauro têm-se vindo a aperfeiçoar, sendo que a intervenção que hoje se faz sobre uma peça é radicalmente oposta à que se faria há um século atrás e provavelmente diversa da que se fará no futuro. Por isso hoje as intervenções de restauro e reconstrução do património artístico são por norma passíveis de ser removidas o que garante a integridade do objecto restaurado.

Contudo, não são apenas as metodologias de restauro que são postas em causa. Também a relevância da conservação do património enquanto manutenção de memória e símbolos que nos definem enquanto cultura ou nação e os recursos para tal empregues, são motivos de discussão.

Alterações, Acrescentos, Reutilizações

Igreja de Santa Maria de Belém, onde se verifica evidente diferença estilística entre o corpo da igreja e a capela-mor.
Igreja de Santa Maria de Belém, onde se verifica evidente diferença estilística entre o corpo da igreja e a capela-mor.

Na civilização ocidental e até ao séc. XVIII as obras de arte fossem edifícios ou peças móveis, eram livremente alteradas sem se pensar que se estaria a destruir uma vontade primeira, uma memória, um testemunho geracional…

Se um edifício levava muitos anos a ser construído o seu desenho ia sendo alterado consoante o gosto. Mesmo muito tempo depois de ter sido terminado eram feitos acrescentos decorativos, transformações radicais de fachadas ou de interiores que lhe mudavam o carácter.

As alterações não se destinavam apenas a colmatar perdas causadas por catástrofes ou passagem do tempo mas eram realizadas com intenção de deixar marca, acrescentando valor a uma peça a que se reconhecia importância.

Dos inúmeros exemplos que podíamos referir destacamos o caso da Igreja de Santa Maria de Belém, onde se verifica evidente diferença estilística entre o corpo da igreja e a capela-mor.

Ao longo do tempo os edifícios também vão sofrendo adaptações em função de novas utilizações. São os casos de mesquitas que se converteram em igrejas após a conquista cristã ou, já no séc. XIX com a extinção das ordens religiosas, dos conventos desocupados transformados em quartéis ou hospitais.

Os edifícios em ruínas por abandono ou catástrofes, como o terramoto de 1755, serviam como pedreiras onde se buscava materiais para novas construções. A reutilização e a poupança de recursos eram a prática comum.

Este conjunto de práticas foi vulgar até à noção de património e de testemunho histórico ou cultural começar a ter forma. É nesta altura que por arrastamento surge a necessidade e a ideia de restauro e reconstrução do património artístico.

A Ideia de Património Histórico e Cultural

A reconstrução abandonada da igreja do Convento do Carmo, memorial do Terramoto de 1755
A reconstrução abandonada da igreja do Convento do Carmo, memorial do Terramoto de 1755

O período do Renascimento olhou para a produção artística do passado clássico, estudou-a, recriou-a mas a sua intervenção não foi protectora. A escultura outrora pintada foi lavada e apresentada na pureza branca da pedra, as lacunas foram preenchidas, os edifícios foram despojados das suas esculturas para integrarem construções modernas ou constituir espólio das primeiras colecções de arte então em voga.

Mais tarde o Neoclassicismo volta a interessar-se pela arte antiga mas desta vez a abordagem será diferente. O interesse científico motivará as primeiras escavações arqueológicas. As atenções viram-se para o classicismo da Grécia, também para a então descoberta Pompeia e ainda para o Egipto.

Será no séc. XVIII com Winckelmann (1717-1768) que nasce a História da Arte. Teorizou-se, definiram-se estilos, criaram-se museus.

A esta gradual consciência de património somou-se em 1789 um acontecimento que marcou o mundo, a revolução francesa. O fim do Antigo Regime e o dealbar de uma nova Era trouxeram à sociedade valores universais fundamentais, mas também, num primeiro momento, a destruição violenta de património histórico que não era então entendido como bem comum.

Foi necessária a pronta intervenção do Estado no sentido de esclarecer as camadas populares para a importância cultural e universal das produções artísticas e documentais. A necessidade de proteger e recuperar este património permitiu a discussão e o desenvolvimento de teorias sobre conservação, restauro e reconstrução.

Os Primeiros Restauros e a “Pureza” dos Estilos

O Castelo de São Jorge hoje, resultado de profunda intervenção da DGEMN entre 1938 e 1940
O Castelo de São Jorge hoje, resultado de profunda intervenção da DGEMN entre 1938 e 1940

Uma das teorias de restauro mais radicais foi desenvolvida em Itália e defendia a eliminação de todas as intervenções realizadas num edifício ao longo dos tempos. Visava preservar apenas as estruturas e estilos originais, o que se encontrava no seu estado mais “puro” e primitivo.

Esta perigosa teoria foi a responsável pela destruição de inúmeras produções artísticas de diversas épocas. Os monumentos foram, tal como a sua envolvente urbana, despojados das suas camadas e vivências. Passaram a apresentar-se, artificialmente, como testemunhos de um projecto inicial que resistiu, aparentemente, imaculados à passagem do tempo.

Estas teorias eram similares à do famoso arquitecto, crítico e teórico francês Viollet-de-Luc (1814-1879). Contudo este apreciador da arte medieval levava os seus projectos de restauro mais longe, reproduzindo ou reinventando o que ele entendia estar na ideia do primeiro projectista. Sempre na procura do ideal de um estilo, Viollet acrescentou e fantasiou com tamanha qualidade que hoje apenas os especialistas conseguem distinguir o original e o que resultou da sua imensa criatividade.

Os monumentos portugueses foram vítimas destas teorias tardiamente, com particular incidência durante a ditadura do Estado Novo. Nos anos 40 foi criada a Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) que interveio em inúmeros edifícios despojando-os das suas vivências com o intuito ideológico de valorizar dois períodos concretos da história de Portugal: a formação da nacionalidade e a expansão marítima. Em Lisboa a radical transformação do Castelo de São Jorge é disso exemplo, tendo-se perdido, entre outro património, o primeiro exemplar de calçada portuguesa.

As Novas Teorias de Restauro e Reconstrução do Património Artístico

Interior da Igreja de São Domingos, após violento incêndio em 1959 foi restaurada nos anos 90 do séc. XX
Interior da Igreja de São Domingos, após violento incêndio em 1959 foi restaurada nos anos 90 do séc. XX

Enquanto a França assistiu ao “restabelecimento” dos estilos, em Inglaterra, apesar de algumas intervenções similares, surge uma teoria oposta, protagonizada por John Ruskin (1819 -1900) e William Morris (1834 -1896), que defende que simplesmente não se intervenha nos edifícios. Argumenta-se que praticando uma constante manutenção se pode evitar um restauro e nesse caso importa utilizar apenas as técnicas do saber fazer artesanal, rejeitando novas técnicas construtivas ou novos materiais.

Surge então em Itália uma nova teoria que vai amenizar estas posições mais radicais. Pela mão do arquitecto e historiador Camillo Boito (1836-1914) vamos encontrar o respeito pela história do edifício e a defesa da preservação de todas as suas partes.

Boito defendia que os restauros deveriam ser executados apenas quando necessários, devendo ficar perceptíveis de modo a não enganar o observador, opondo-se assim radicalmente aos restauros estilísticos que no seu entender não preservavam, mas falsificavam. Toda a obra deveria ser minuciosamente documentada e a data e referência da intervenção dadas a conhecer no próprio edifício.

Esta será a base das metodologias a partir de então implementadas internacionalmente. Adaptações, reformulações e melhoramentos foram sendo introduzidos até à grande conferência de 1931 que reuniu 21 países e da qual resultou a Carta de Atenas.

Restauro e Reconstrução no Pós-Guerra

Campo das Cebolas: núcleo histórico reabilitado que inclui a Casa dos Bicos do séc. XVI
Núcleo histórico reabilitado que inclui a Casa dos Bicos do séc. XVI

A destruição de importantes monumentos e edificado em geral na Europa, provocada pela implacável II Guerra Mundial, levantou outras questões.

Dado o estado da total ou parcial ruína de inúmeros edifícios com valor artístico e cultural como fazer face à sua recuperação? Não seria possível, neste caso, intervir de forma mínima como defendia a Carta de Atenas.

Cesari Brandi (1906-1988) propõe o Restauro Crítico, cada peça deve ser analisada individualmente. Se a perda não tiver valor artístico pode ser reconstruída, devendo a reconstrução respeitar a espacialidade do monumento mas não os seus aspectos formais. Se tiver valor artístico, não se deve cair na tentação de produzir uma cópia.

Várias foram as opções dos Estados no que diz respeito ao restauro e reconstrução do património artístico no pós-guerra. Muito do esforço consistiu em reproduzir o mais fielmente possível o que tinha desaparecido. A necessidade de referências visando o aparente restabelecimento da normalidade assim o deve ter determinado. Contudo, alguns dos monumentos foram mantidos como ruínas muitas vezes associados a novas construções como memoriais de um período que não se deseja repetir.

Ao longo do tempo discussões multidisciplinares em congressos internacionais têm estabelecido regras impostas através de documentos como a Carta de Haia em 1954, a Carta de Veneza em 1964, a Carta de Amsterdão em 1975, a Carta de Cracóvia em 2000… Contributos fundamentais para o alargamento da definição de conceitos como monumento, património arquitectónico urbano ou rural, paisagens naturais, centros históricos entre outros, assim como as regras para o seu reconhecimento e salvaguarda.

De então para cá são inúmeros os documentos que pretendem estabelecer normas sobre casos específicos como são os casos da conservação e restauro de pinturas murais ou a salvaguarda de profissões artesanais e ainda sobre a definição de formação e competências dos profissionais do sector.

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