Abril 17, 2019 getLISBON 0Comment

Faz já algum tempo que a região de Lisboa se encontra no roteiro mundial de arte urbana. As mais de uma centena de obras de arte urbana da Quinta do Mocho são sem dúvida responsáveis por isso, e constituem uma das grandes atracções neste âmbito.

A Quinta do Mocho situa-se às portas de Lisboa no vizinho Concelho de Loures e a getLISBON não pode deixar de a apresentar aos seus leitores porque lá se encontra a maior galeria de arte urbana da Europa e a 2ª maior do mundo.

Aqui pode apreciar obras de artistas nacionais e estrangeiros. Mas o mais importante é poder sentir como a arte permitiu transformar um bairro estigmatizado num espaço de orgulho para os seus habitantes.

Quinta do Mocho e o Festival O Bairro i o Mundo

A Quinta do Mocho começou por ser um bairro de condições de habitação muito precárias, ocupado por famílias oriundas de países africanos, ex-colónias portuguesas, nos anos 70 do século passado.

Só na década de 90 é que grande parte destas famílias foi realojada na urbanização municipal de Terraços da Ponte, construída no terreno anexo, melhorando um pouco a vida destes moradores.

Devido a múltiplos problemas sociais existentes, este bairro esteve durante um longo período associado a um ambiente problemático. Ligado à criminalidade, violência e ao tráfico de drogas, raras eram as pessoas do exterior que ali se atreviam a entrar.

Uma das primeiras obras de arte urbana da Quinta do Mocho, do artista brasileiro Utopia
Uma das primeiras obras de arte urbana da Quinta do Mocho, do artista brasileiro Utopia

Mas tudo começou a mudar a partir de 2014, com a ajuda da iniciativa O Bairro i o Mundo e a vontade dos próprios moradores.

O Bairro i o Mundo foi um projecto integrado no programa C4i – Communication For Integration do Conselho da Europa, que teve como missão o combate aos preconceitos e rumores racistas e xenófobos junto das comunidades migrantes.

A sua  intervenção visava a desmitificação da imagem negativa de territórios marcados pelo estigma, como são os bairros sociais. Para isso contou com a coprodução da Câmara Municipal de Loures e a Associação Teatro IBISCO (Teatro Inter Bairros para a Inclusão Social e Cultura do Otimismo).

A fim de realizar um grande festival foram promovidas acções que envolveram e motivaram os moradores. Fizeram-se apelos à participação de várias entidades, realizaram-se assembleias comunitárias, recolhas de ideias e sugestões, organização de debates, participação voluntária em diversas actividades, limpeza e requalificação dos espaços verdes e reabilitação dos equipamentos urbanos.

Em Outubro de 2014 foi, então, concretizado o festival O Bairro i o Mundo que trouxe muitos visitantes. Este evento, ao longo de 3 dias, proporcionou animação cultural, como: dança, concertos, teatro, gastronomia, programas infantis e arte urbana.

A Arte Urbana da Quinta do Mocho

Para o festival O Bairro i o Mundo, foram realizadas várias pinturas por artistas nacionais e estrangeiros que embelezaram as fachadas e as empenas dos prédios. Estes participaram de forma gratuita, sendo os materiais e tintas fornecidos pela organização.

Após o festival o número de obras de arte continuou a aumentar. Muitos mais artistas foram convidados ou tiveram iniciativas próprias, contactando a organização com o desejo de contribuir para este projecto. Foi ainda promovida uma Residência Artística, onde os artistas permaneciam durante o tempo da realização das obras.

A partir do festival começaram as visitas guiadas à galeria de arte urbana da Quinta do Mocho, efectuadas por jovens moradores, que têm sido um sucesso na promoção da nova imagem deste bairro.

Em 2016 a Galeria de Arte Pública da Quinta do Mocho passou a fazer parte do projecto Loures Arte Pública da Câmara Municipal de Loures, promovendo a arte urbana em várias localidades deste concelho e fazendo desta uma das suas imagens de marca.

Actualmente o número total de pinturas na Quinta do Mocho ascende a 108. Muitas delas contendo mensagens relativas a questões sociais, algumas alusivas à vida e cultura desta comunidade e ainda várias representações de mochos referindo-se à própria designação da Quinta do Mocho.

MGomes

MGomes

MGomes

Odeith

Odeith

Odeith

Eva Bracamontes

Eva Bracamontes

Eva Bracamontes

Jo Di Bona

Jo Di Bona

Jo Di Bona

Astro Odv

Astro Odv

Astro Odv

Vinie

Vinie

Vinie

Oze Arv
Guido Palmadessa

Oze Arv
Guido Palmadessa

Oze Arv
Guido Palmadessa

Miguel Brum

Miguel Brum

Miguel Brum

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Destacamos alguns dos artistas que têm contribuído para esta causa social e para a construção desta grande galeria de arte urbana da Quinta do Mocho. Entre artistas nacionais podemos encontrar obras de Adres, Bordalo II, Edis One, MGomes, Miguel Brum, Odeith, Oze Arv, RAF, Styler, Tamara Alves, Vhils, entre outros. Quanto aos artistas estrangeiros temos: Astro Odv, Eva Bracamontes, Guido Palmadessa, Jo Di Bona, Vinie, Zag & Sia…

Quinta do Mocho Despida de Preconceito

Hoje, passear na Quinta do Mocho é como visitar um museu de arte a céu aberto onde o preconceito e a desconfiança foram postos de lado. A sua imagem foi renovada e tornou-se um espaço público requalificado, contudo, continua a necessitar de melhoramentos significativos.

Apesar de tudo o que já foi feito, falta ainda muito para que a vida desta comunidade possa de facto viver com a qualidade que se deseja para todos.

António Guterres actual secretário-geral da ONU, homenageado pela START.SOCIAL (Cooperativa Sócio-Educativa para Desenvolvimento Comunitário) numa das fachadas, por ter ajudado voluntariamente jovens moradores com explicações de matemática. Obra do artista português Odeith.
António Guterres actual secretário-geral da ONU, homenageado pela START.SOCIAL (Cooperativa Sócio-Educativa para Desenvolvimento Comunitário) numa das fachadas, por ter ajudado voluntariamente jovens moradores com explicações de matemática. Obra do artista português Odeith.

O visitante pode circular livremente mas o nosso conselho é que participe numa das visitas guiadas, realizadas pelos jovens moradores. Deles ouvimos na 1ª pessoa a transformação que este bairro sofreu, o que a galeria de arte urbana da Quinta do Mocho fez mudar nas suas vidas e claro, a apresentação das pinturas, com a explicação das mensagens e histórias a elas inerentes, assim como, a revelação de algumas curiosidades.

Curiosidades como a que aconteceu ao artista francês Maye que, por não se ter dado bem com grandes alturas, não realizou a sua obra numa das fachadas e acabou por espalhar pequenos mas encantadores e surpreendentes apontamentos pelo bairro. A não perder!

Um dos surpreendentes apontamentos do artista francês Maye
Um dos surpreendentes apontamentos do artista Maye

Para terminar a visita não deixe de participar numa experiência gastronómica num dos restaurantes de ambiente simples, com pratos típicos africanos, muito bem confeccionados, como a muamba ou a cachupa.

O objectivo da iniciativa O Bairro i o Mundo de “MOSTRAR O BAIRRO AO MUNDO E TRAZER O MUNDO AO BAIRRO” foi, sem dúvida, conseguido! Mas, na verdade, o mais importante foi a mudança da percepção dos habitantes sobre a capacidade de transformação que é possível fazer no seu bairro e nas suas vidas.

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