Julho 10, 2019 getLISBON 2Comment

Visitar a arte urbana do Bairro Padre Cruz, o maior bairro municipal da Península Ibérica é a nossa proposta de hoje.

Desde 2009 que Lisboa tem uma estratégia para a promoção da arte urbana e, em simultâneo, para a salvaguarda do património e prevenção de intervenções vandálicas. Esta responsabilidade cabe à GAU – Galeria de Arte Urbana do Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal.

Nos últimos anos, Lisboa tornou-se uma das capitais mundiais desta expressão artística. É uma das cidades mais procurada pelos artistas de todo o mundo, que nos deixam inúmeras e reconhecidas obras. 

Já tivemos oportunidade de lhe falar da galeria de arte urbana da Quinta do Mocho, localizada no vizinho Concelho de Loures. Desta vez vamos conhecer uma outra exposição a céu aberto em Lisboa, a arte urbana do Bairro Padre Cruz. 

Começamos pela imagem da capa deste post, trabalho de BIGOD que ilustra a convivência entre gerações. Na acepção do artista, isso faz parte da vivência de um bairro, tal como acontece aqui no Bairro Padre Cruz. Para além disso, podemos observar o paralelismo da existência de duas zonas distintas neste território: o bairro novo, representado pelo jovem sentado à esquerda e o antigo pela idosa à direita.

O Bairro Padre Cruz

Este bairro fica em Carnide, uma das maiores freguesias localizada na zona norte de Lisboa. Tem mais de 8.000 habitantes e é o maior projecto municipal de habitação social da Península Ibérica e um dos maiores da Europa.

Conheça melhor Carnide através do nosso artigo: As Festas da Senhora da Luz e o seu Surpreendente Património.

O núcleo histórico, onde se encontra um dos Coretos de Lisboa, também merece uma visita.

“Bairro antigo” – moradias em banda. Arte urbana da autoria de Mário Belém
“Bairro antigo” – moradias em banda. Arte urbana da autoria de Mário Belém

A construção de habitações para o alojamento de migrantes rurais numa fase de grande expansão da cidade de Lisboa, nos anos 60 do séc. XX, foi o início da urbanização desta área, até então ocupada por antigas quintas e terrenos de cultivo.

Nasce, assim, o que veio a ser o “bairro antigo”, constituído por exíguas moradias de alvenaria em banda contínua. Estas casas municipais foram-se degradando e muitas delas encontram-se em bastante mau estado. Neste momento, são alvo de um projecto municipal de demolição e de realojamento dos seus habitantes.

Nos anos 80/90, em Lisboa previa-se um crescimento com novos planos de desenvolvimento que envolviam nomeadamente a erradicação de barracas da cidade e a transformação radical da zona oriental com vista à realização da Exposição Mundial de 98.

Neste contexto o Bairro Padre Cruz foi um dos locais escolhidos para a construção de alojamentos sociais. Foi, então, construído o “bairro novo”, onde cresceram prédios que albergaram famílias de origens completamente diferentes, quer entre os novos moradores, quer entre estes e os do “bairro antigo”.

“Bairro novo” – blocos de prédios com intervenções de arte urbana
“Bairro novo” – blocos de prédios com intervenções de arte urbana

Este facto provocou conflitos entre os seus habitantes e os anos seguintes revelaram-se complicados na vivência do bairro que, isolado do resto da cidade, ficou fechado nos seus problemas.

Eram necessárias medidas para a integração da nova população, criar melhores condições de habitação para os moradores do “bairro antigo” e ainda iniciativas para combater o isolamento, qualificar os espaços públicos, promover a coesão entre os habitantes…

Os vários eventos de arte urbana do Bairro Padre Cruz que aqui aconteceram tiveram o seu papel nesse âmbito.

Festivais de Arte Urbana do Bairro Padre Cruz

Os primeiros festivais ocorreram em 1996 e 1997. Estas intervenções ainda podem ser vistas no muro do campo de jogos do Clube de Futebol Os Unidos, do lado do “bairro antigo”.

Os dois festivais mais expressivos foram realizados em 2016: o primeiro, MURO Lx 2016, promovido pela GAU, e o segundo, “Criar Mudança através de Arte Urbana”, um projecto idealizado pela associação cultural Boutique da Cultura em colaboração com a Crescer a Cores, associação de solidariedade social.

Festival de Arte Urbana – MURO Lx 2016

Neste festival produziram-se obras de arte urbana dentro do bairro, assim como, fora deste.

Em paralelo havia exposições de fotografia, mostra de cinema, conferência internacional, entre outras iniciativas, como espectáculos, teatro de rua que envolviam directamente a comunidade local.

Artistas nacionais e estrangeiros foram convidados pelo grupo de curadores do festival e também pela própria GAU e ainda artistas que por iniciativa própria se juntaram ao evento.

Executaram mais de 60 trabalhos, sendo a maioria dos murais realizados nas empenas das moradias do “bairro antigo”. Encontramos obras com assinatura de: The Empty Belly, Oze Arv, Nomen, J. Aracê, Mário Belém, entre outros.

Obra de Leonor Brilha onde figuram nomes de rios portugueses. Os rios maiores representam artérias e os menores vasos sanguíneos mais estreitos, tal como a organização das 38 ruas, com nomes de rios portugueses, deste lado do Bairro Padre Cruz.
Obra de Leonor Brilha onde figuram nomes de rios portugueses

Destacamos o coração de Leonor Brilha, onde figuram nomes de rios. Os rios maiores representam artérias e os menores vasos sanguíneos mais estreitos, tal como a organização das 38 ruas, com nomes de rios portugueses, deste lado do Bairro Padre Cruz.

No “bairro novo” temos, por exemplo, intervenções de conhecidos artistas, como: Pariz One & Telmo e Miel, Mr. Dheo, Borondo, Styler…

A par das pinturas havia obras tridimensionais, como o PiG de Bordalo II e a instalação escultural de Robert Panda, no âmbito do seu projecto “Stupid – Because All People Are”.

Instalação escultural de Robert Panda. Esta peça que se encontra no local foi uma segunda intervenção do artista após a primeira ter sido vandalizada. Apresenta-se actualmente de amarelo, em vez de dourado, e foi adoptada pela população como a mascote do bairro, tendo sido baptizada de Nelson.
Instalação escultural de Robert Panda

Esta peça que se encontra no local foi uma segunda intervenção do artista após a primeira ter sido vandalizada. Apresenta-se actualmente de amarelo, em vez de dourado, e foi adoptada pela população como a mascote do bairro, tendo sido baptizada de Nelson.

Projecto “Criar Mudança através de Arte Urbana” 2016

Este projecto resultou da candidatura da Boutique da Cultura e da Crescer a Cores ao programa BIP-ZIP – Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária de Lisboa da Câmara Municipal, que visa dinamizar parcerias e pequenas intervenções locais de melhoria dos “habitats”.

Os moradores e parceiros locais foram chamados para participarem e contribuírem neste projecto que pretendia abrir as portas do bairro à cidade, assim como, criar novos horizontes e desafios aos próprios habitantes. 

Para a realização das cerca de 30 intervenções foram convidados artistas conhecidos no âmbito da arte urbana mas também foram dadas oportunidades aos que ainda não tinham experimentado expressar-se na empena de um prédio.

A maioria das pinturas encontra-se no “bairro novo” e é possível contemplar obras de artistas nacionais como: RAPS, Styler, Nomen, Smile, Observ, Skran, Nada, entre outros. E estrangeiros: Marcio Bahia, Utopia, Rocio Matosas…

Pintura mural de Utopia
Pintura mural de Utopia

A Boutique da Cultura disponibiliza visitas guiadas, em português e inglês, para quem quiser apreciar estas intervenções e conhecer as muitas histórias e curiosidades a elas inerentes.

Veja o nosso vídeo no IGTV – Instagram e vai ficar com vontade de conhecer estas obras ao vivo!

Programe a sua visita para as apreciar antes do seu desaparecimento com a demolição do “bairro antigo”!

2 thoughts on “Arte Urbana do Bairro Padre Cruz em Lisboa

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