Outubro 14, 2020 getLISBON 0Comment

Os eléctricos de Lisboa que percorrem esta cidade das sete colinas são um dos seus elementos mais representados e expressivos.

Estes veículos constituem sem dúvida um património inestimável e um ex-libris do imaginário colectivo dos lisboetas e de quem nos visita, a par dos elevadores e funiculares.

A linha emblemática do eléctrico 28, com início na Praça Martim Moniz e término em Campo de Ourique percorrendo os bairros históricos da Graça e Alfama, é sem dúvida imperdível e a mais procurada.

Se pretende experienciar este memorável percurso e ainda conhecer o bairro típico de Alfama, berço do fado, o Lisboa: Passeio de Elétrico No. 28 & Excursão a pé é uma excelente opção. 

Em Primeiros Transportes de Lisboa, revelámos as origens dos eléctricos e o seu papel revolucionário na expansão da cidade. Hoje contamos-lhe como se desenvolveram, como quase desapareceram e qual o seu papel nos nossos dias.

Ascensão dos Eléctricos de Lisboa

Eléctricos de Lisboa, carreira 18, Cais do Sodré
Carreira 18, Cais do Sodré

Críticas e Resistências 

Pelas 6:00h da manhã do dia 31 de Agosto de 1901, saiu do Cais do Sodré com destino a Ribamar-Algés o primeiro carro eléctrico de Lisboa.

Mas as obras de electrificação das vias, que decorreram sem incidentes e a grande velocidade ao longo do ano de 1900, foram sucessivamente criticadas.

A imprensa acusava a Carris – Companhia Carris de Ferro de Lisboa de criar um transporte que constituiria um perigo para a população de Lisboa.

Chamadas de atenção para a perda de vidas relacionadas com electrocussão de transeuntes, acidentes por atropelamentos ou provocados por trovoadas e mesmo razões estéticas, foram evocadas numa acesa resistência à mudança.

Porém, após a sua inauguração todos os receios foram afastados. A população, muito rapidamente se rendeu a este eficaz transporte que em tudo a surpreendia.

Os Primeiros Eléctricos de Lisboa

Os primeiros eléctricos de Lisboa apresentavam carroçaria aberta com cobertura apoiada em pilares entre os quais corriam estores de lona às riscas. Constituía motivo de espanto o facto de estes veículos serem bidireccionais.
Postal ilustrado de eléctrico com destino a Ribamar, frente ao Mosteiro dos Jerónimos.
Imagem gentilmente cedida pelo coleccionador Luís Bayó Veiga

Os primeiros eléctricos de Lisboa apresentavam carroçaria aberta com cobertura apoiada em pilares entre os quais corriam estores de lona às riscas. Constituía motivo de espanto o facto de estes veículos serem bidireccionais. A frente e a traseira eram idênticas apresentando cada uma, motor e painel de comandos independentes e os bancos rebatíveis tinham capacidade para 32 passageiros.

No final do mesmo ano em que foi inaugurada, a rede de eléctricos de Lisboa contava já com 24km de extensão, número que em apenas um ano passou para 90.

Em 1902 foram introduzidos carros maiores com o dobro dos lugares destinados a percursos lineares mais longos, chegando mesmo a haver atrelados que percorriam a grande velocidade a zona ribeirinha do Tejo.

Os carros mais pequenos continuavam a calcorrear as colinas e os bairros antigos de mais difícil acesso.

Em 1907 a Carris contava já com 240 veículos que de forma rápida, económica e regular servia os interesses de lisboetas de todos os extractos sociais.

Sugerimos uma visita ao Museu da Carris onde é possível apreciar, entre outros, o único exemplar sobrevivente dos carros elétricos abertos.

A Carris e os Ascensores

A linha emblemática do eléctrico 28, com início na Praça Martim Moniz e término em Campo de Ourique percorrendo os bairros históricos da Graça e Alfama, é sem dúvida imperdível e a mais procurada.
Carreira 28, Calhariz

Graças a uma parceria entre a Carris e a concessionária dos ascensores foi possível substituir os funiculares que percorriam grandes e difíceis distâncias, por carros eléctricos.

Foi o caso do ascensor da Graça que ligava a Rua da Palma a São Tomé (desmantelado em 1909) e do ascensor Camões/Estrela (desmantelado em 1913). Percursos que sistematicamente apresentavam problemas e onde se chegou a assistir a descarrilamentos.

Também o elevador vertical de São Julião perdeu o seu préstimo e não passou o ano de 1915. 

Estes percursos estão hoje integrados na popular carreira do eléctrico 28.

Quando em 1926 a Carris adquiriu a Companhia dos Ascensores todos os veículos passaram a fazer parte integrante da sua rede de transportes e foram uniformizados com a pintura amarela dos carros eléctricos, cor que mantêm até hoje.

Um Património em Risco

A reactivação da carreira 24 que hoje liga o Largo do Camões a Campolide,  emocionou muitos lisboetas que outrora diariamente a utilizavam.
Carreira 24, Amoreiras

Até aos anos 30 o eléctrico foi um fenómeno em ascensão tendo a sua rede atingido os 150km, estendendo-se a zonas desocupadas que assim foi possível desenvolver através da construção de novos bairros.

Em 1940 Lisboa assistiu à realização de um grande evento que transformou radicalmente a frente ribeirinha de Belém, a Exposição do Mundo Português.

Prevendo que este evento iria atrair milhares de pessoas e que os carros eléctricos não teriam capacidade de corresponder a tal solicitação, foram introduzidos modernos autocarros para complementar a oferta de transporte.

A partir de então passam a existir novas carreiras de autocarros que tinham maior mobilidade e que sem os investimentos de infra-estruturas a que o eléctrico obriga, permitiam chegar mais longe.

O autocarro, então de cor verde, passa assim primeiro a complementar e em seguida a concorrer com o carro eléctrico. Curiosamente estes veículos chegaram a ser cor de laranja mas em 1997 quando se comemoravam os 125 anos da Carris adoptaram o amarelo dos eléctricos. 

A introdução do metropolitano em 1959 e o crescimento do parque automóvel privado nos anos 60 remeteram o eléctrico de Lisboa para segundo plano e muitas carreiras foram eliminadas. Este outrora revolucionário transporte será até acusado de empatar o trânsito quando não raras vezes ficava imobilizado devido a carros mal estacionados por condutores sem civismo.

Os automóveis não tomaram apenas o lugar dos eléctricos mas também das pessoas, das calçadas e das praças mais emblemáticas de Lisboa como a Praça do Comércio, o Rossio e os Restauradores que se transformaram em inestéticos parques de estacionamento.

Novos e Velhos Eléctricos de Lisboa

Nenhuma mudança foi tão radical quanto a introdução, nos anos 90, dos modernos eléctricos articulados que percorrem a marginal.
Carreira 15, Praça do Município

Ao longo do séc. XX os eléctricos de Lisboa foram sofrendo alterações no seu aspecto: as carroçarias passaram a ser fechadas e com um formato mais arredondado; o emblemático farol central passou a dois; foram adoptadas portas automáticas…

Mas nenhuma mudança foi tão radical quanto a introdução, nos anos 90, dos modernos eléctricos articulados que percorrem a marginal. O seu aspecto moderno equipado com ar condicionado e vidros foscos que afastam o passageiro do ambiente da rua não será o mais apelativo. A sua mais-valia reside na eficiência com que percorre longos percursos num curto espaço de tempo. Na verdade parece-se mais com um metro de superfície do que com um tradicional eléctrico.

Os sucessivos modelos foram sendo substituídos mas os actuais carros em circulação têm o mais elegante modelo dos anos 30.

Contudo já não se puxa o cabo de cabedal para accionar a campainha do stop (presente ainda nos turísticos), a cabine do condutor já não se encontra separada dos passageiros por duas elegantes portas de correr, os bancos há muito que não são de palhinha…

O “pica” desapareceu! A emblemática figura com uma mala de cabedal a tiracolo que empunhando o alicate metálico com que obliterava os bilhetes, o batia nos varões para dar sinal ao guarda-freio que estavam reunidas as condições de segurança para reiniciar a marcha.

Uma série de sons que faziam parte integrante de uma viagem de eléctrico e que se foram perdendo. 

Um Ícone de Lisboa

Lisboa conta com carros especialmente destinados a percursos turísticos, distingue-os com facilidade pois em vez de amarelos são vermelhos
Carreira turística, Cais do Sodré

A gestão da Carris é desde 2017 assegurada pela Câmara Municipal de Lisboa que felizmente está a apostar de novo nos eléctricos, um transporte menos poluente, carregado de charme e tradição, sem problemas de circulação numa cidade mais organizada.

Esta política encontra-se patente na reactivação da carreira 24 que hoje liga o Largo do Camões a Campolide e que emocionou muitos lisboetas que outrora diariamente a utilizavam. Assim como no prolongamento a Santa Apolónia, previsto para breve, da linha do 15.

Para além das carreiras funcionais Lisboa conta com carros especialmente destinados a percursos turísticos. Distingue-os com facilidade pois em vez de amarelos são vermelhos, encontrando-se também a circular um verde que tem como particularidade o facto de ser revestido a cortiça.

Os eléctricos de Lisboa são sem dúvida um ícone, parte integrante do património e do imaginário desta cidade, constituindo-se não só como atracção turística mas também como objecto com verdadeira importância afectiva para a sua população.

Curiosidade

A expressão popular “Ir a Nove” significa deslocar-se muito depressa, até nove pontos de marcha, ou seja o equivalente à velocidade máxima de um eléctrico.
A expressão popular “Ir a Nove” significa deslocar-se muito depressa, até nove pontos de marcha, ou seja o equivalente à velocidade máxima de um eléctrico.
Carreira 28, Largo do Chiado

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