Setembro 4, 2019 getLISBON 0Comment

Sabia que no séc. XVIII existiam em Lisboa cafés onde se servia Neve? Vamos contar-lhe esta curiosa história e a sua ligação com a Real Fábrica do Gelo.

Foi durante a pesquisa que realizámos aquando da elaboração do artigo 5 Geladarias Clássicas das Avenidas Novas que tivemos conhecimento que há trezentos anos as classes mais abastadas de  lisboetas recorriam ao consumo da Neve para tornar o Verão mais agradável.

Decidimos partilhar com os nossos leitores a história deste importante património material e imaterial, após a nossa recente visita à Real Fábrica do Gelo. Um curioso complexo industrial inserido na Paisagem Protegida da Serra de Montejunto, magnífico lugar, refúgio de espécies de fauna e flora que importa conhecer e proteger.

História da Neve

Sabia que o consumo dos gelados não é uma conquista do séc. XX e apesar de nos causar a maior admiração, o seu consumo vem de tempos muito recuados?

Já em meados do séc. XVIII existia em Lisboa uma casa onde se podia comer Neve, a Casa da Neve. Sabe onde ficava? Mas neve em Lisboa? De onde vinha o gelo? Os neveiros do Coentral e a Real Fábrica do Gelo dizem-lhe alguma coisa? Passamos a explicar:

Pelo menos desde o séc. XVII que chegava a Lisboa gelo proveniente da Serra da Estrela. É conhecido um contrato estabelecido entre a Câmara Municipal de Lisboa e o neveiro Paulo Domingues que data de 1619, mas antes disso já existiria comercialização de gelo.Esse ano é coincidente com a estada em Lisboa de Filipe II de Portugal e sabe-se que não faltaram à sua mesa bebidas frescas e Neve.

Desembarque de Filipe II de Portugal em Lisboa em 1619. Juan Bautista Lavanha, Gravura de 1622
Desembarque de Filipe II de Portugal em Lisboa em 1619. Juan Bautista Lavanha, Gravura de 1622

Desde então o consumo de neve e gelo veio sempre a aumentar, generalizando-se às camadas mais populares da população de Lisboa. Mas de onde vinha, concretamente, esse gelo?

Os Neveiros do Coentral na Serra da Lousã

Na Serra da Lousã, concretamente na aldeia do Coentral, existia uma rudimentar indústria de recolha de neve. Consistia em poços profundos para onde os habitantes locais transportavam neve que era calcada com grandes maços por calceteiros. 

Assim se formavam grandes acumulações de gelo que era depois cortado e transportado em carroças de bois através da serra até Vila Nova da Barquinha. Aqui era passado para barcos que pelo rio Tejo alcançavam o lugar de destino, o Terreiro do Paço.

Este trabalho árduo era em Lisboa bem pago aos contratadores e aos neveiros, mas mal pago aos trabalhadores locais. Só no séc. XIX famílias do Coentral tomaram conta do negócio, pouco antes de a actividade se ter tornado obsoleta e consequentemente ter desaparecido.

Barcos tradicionais do Tejo no Cais das Colunas, Praça do Comércio, Lisboa Imagem gentilmente cedida pelo coleccionador Luís Bayó Veiga.
Barcos tradicionais do Tejo no Cais das Colunas, Praça do Comércio, Lisboa
Imagem gentilmente cedida pelo coleccionador Luís Bayó Veiga.

Real Fábrica do Gelo da Serra de Montejunto

Quando falamos do desenvolvimento industrial português do séc. XVIII pensamos logo na designação de Real Fábrica. 

São famosas a Real Fábrica das Sedas, das Louças ou dos Panos mas já ouviu falar na Real Fábrica do Gelo? 

Ao longo do séc. XVIII o consumo de gelo aumentou de tal modo que terá sido necessário encontrar uma solução complementar ao habitual fornecedor.

Foi então que cerca de 1741 foi construída a Real Fábrica do Gelo, um dos raros exemplares do género existentes na Europa e um dos tecnologicamente mais avançados, que produziu gelo diariamente entre os meses de Setembro e Abril, ao longo de cerca de 120 anos.

A Fábrica foi edificada orientada a norte na vertente mais fria e húmida, 600m acima do nível do mar, na Serra de Montejunto, a elevação mais alta da Estremadura. Situada a 65km da capital, no norte do distrito de Lisboa, no Concelho do Cadaval, esta serra reunia durante o Inverno, as condições necessárias à formação de gelo.

O Processo Industrial da Produção do Gelo

A Real Fábrica do Gelo consistia num complexo formado por dois núcleos, um dedicado à produção e outro destinado à conservação e expedição do gelo.

O processo de produção baseava-se num sistema de captação de água através de uma nora e do seu armazenamento em reservatórios de grande dimensões que, por sua vez, permitiam encher tanques ou geleiras onde a água não excedia os 10 a 12 cm de altura para que, sujeita às baixas temperaturas nocturnas, pudesse gelar com facilidade.

As geleiras da Real Fábrica do Gelo onde se formava o gelo ou caramelo
As geleiras da Real Fábrica do Gelo onde se formava o gelo ou caramelo

Antes de nascer o dia era necessário recolher o gelo formado e transportá-lo para a zona de armazenamento. Um corneteiro dava o alarme e os populares das aldeias vizinhas acorriam na ânsia de conseguirem ser os 30 primeiros a chegar. Estes tinham a garantia de um trabalho pesado e mal pago mas que, ainda assim, era uma mais-valia nos seus parcos rendimentos familiares.

É violento imaginar o que seria percorrer diariamente a íngreme serra, no Inverno durante a noite, sem garantia de conseguir a jorna. O penoso trabalho consistia em partir e recolher o gelo ou caramelo das geleiras e transportá-lo em pesadas caixas para, mais acima nos frios silos de conservação, calcar o gelo garantindo as melhores condições para a sua conservação e posterior expedição.

Nessa altura os blocos de gelo eram protegidos com palha e serapilheira e carregados em burros e carros de bois, que faziam o seu transporte até à Vala do Carregado. Dali eram transportados até Lisboa nos chamados barcos da neve.

O gelo era cortado em blocos e envolto em palha e serapilheira para ser transportado
O gelo era cortado em blocos e envolto em palha e serapilheira para ser transportado

O Património da Real Fábrica do Gelo

As condições de higiene eram uma preocupação constante. Os silos de 10m de profundidade contavam com um fundo de madeira elevado sobre pedras para não haver acumulação de águas e eram frequentemente caiados. A Real Fábrica do Gelo contava por isso, com um grande forno de cal que continuou a laborar depois do seu encerramento e do qual ainda se podem ver vestígios.

Vestígios do forno de cal da Real Fábrica do Gelo
Vestígios do forno de cal

Podemos ainda observar a Casa da Nora, um grande reservatório e 44 geleiras mas sabemos que existiriam outras tantas e um segundo reservatório que terão sido destruídos ou que se encontram soterrados, sob as construções vizinhas do quartel da Força Aérea Portuguesa que ali foi edificado nos anos 50 do século passado.

Muito bem conservada está a Casa dos Silos que exibe uma sóbria mas imponente fachada. Sobre a porta principal, encontra-se uma imagem de Santo António das Neves e uma inscrição que nos revela a compra e reedificação da fábrica pelo neveiro da Casa Real, Julião Pereira de Castro, o mesmo que explorava os neveiros do Coentral e que assim detinha o monopólio da produção de neve e gelo do reino.

Apesar da designação de Real Fábrica do Gelo esta nunca foi propriedade do Estado, pertenceu sempre a privados e manteve-se na mesma família até à sua expropriação em 1930. 

A fábrica já tinha encerrado em 1885 e esteve abandonada e esquecida até ser classificada como Monumento Nacional em 1997. Depois de intervenções de conservação e revalorização foi aberta ao público em 2011.

A Neve em Lisboa

Chegado ao Terreiro do Paço o gelo tinha vários destinos.

Em primeiro lugar a Casa Real mas também o Hospital, silos de armazenamento e cafés.

O gelo tinha muitas aplicações inclusive terapêuticas e um dos seus principais consumidores era o Hospital Real de Todos os Santos que existiu no Rossio até ao terramoto de 1755.

Sabe-se que existiram depósitos de conservação de gelo em Lisboa nas proximidades do Teatro São Carlos e na zona da Graça.

No que respeita aos cafés, o mais famoso e talvez o primeiro, inaugurado em 1778 foi a Casa da Neve, nada mais nada menos que o actualmente conhecido Café-Restaurante Martinho da Arcada. Aqui se transformava o gelo na apetecível Neve.

Ao longo do séc. XIX muitos outros cafés famosos ofereciam aos seus clientes os tão apreciados gelados… perdão, Neve.

Era assim anunciado à porta da Conservaria Pomona, casa especializada em frutas em calda e neve, mas também cervejaria e mais tarde pastelaria. A Pomona entretanto já desapareceu, mas conserva-se na esquina da Rua da Prata com a Rua de São Nicolau a pedra gravada que anunciava as especialidades.

Também o Café Gelo no Rossio, que data de 1890, deve o seu nome à comercialização da desejada Neve.

Antiga Conservaria Pomona: conserva-se na esquina da Rua da Prata com a Rua de São Nicolau a pedra gravada que anunciava as especialidades.
Antiga Conservaria Pomona

Prepare a sua Visita à Real Fábrica do Gelo

Hoje o complexo da Real Fábrica do Gelo pode ser conhecida através de visitas guiadas que se realizam todos os dias. O espaço é vedado e não se encontra aberto fora do horário das visitas, por isso não se atrase!

A viagem vale a pena não só pelo evidente interesse que constitui o complexo da Real Fábrica do Gelo mas também pelas magníficas paisagens pontuadas por moinhos, vinhas e pela apelativa gastronomia da região.

Pode ainda optar por fazer um piquenique no frondoso parque de merendas que tem à disposição.

E porque não saboreando um gelado na simpática cafetaria existente no local, reflectir sobre esta fascinante mas dura história da Neve.

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