Novembro 13, 2019 getLISBON 0Comment

As colunas que o terramoto deslocou, de que lhe falamos, são casos curiosos de aplicações de salvados de ruínas e demolições decorrentes da catástrofe que desta forma chegaram aos nossos dias. 

Em meados do séc. XVIII Lisboa era uma cidade de contrastes. Um fervilhante multicultural entreposto comercial marcado pela abundância proporcionada pelo ouro do Brasil. Uma urbe que tinha tanto de antiga, com traços do mediterrâneo muçulmano e do cristão medieval, quanto de novidade monumental barroca. 

De um momento para o outro a brutalidade do terramoto de 1755, ocorrido no sinistro dia 1 de Novembro, e o tsunami e incêndios que se seguiram arrasaram toda a baixa da cidade.

Mas no meio das ruínas dos edifícios que colapsaram ou das inevitáveis demolições havia materiais que importava aproveitar. Não só pelas óbvias dificuldades financeiras que o reino e os particulares atravessavam, mas também porque a reutilização era uma prática comum. De peças escultóricas intactas ao entulho que serviu para consolidar terrenos, tudo foi engenhosamente reaplicado.

Por isso, a atenção com que olhamos as construções e reconstruções pós-terramoto deve ser redobrada. Só assim podemos identificar elementos estranhos ao lugar que hoje ocupam. A dificuldade aumenta se pensarmos que na sua maioria estes salvados não se encontram registados, constituindo muitas vezes enigmas sem solução. 

Dos quatro exemplos que seleccionámos, apenas um continua a ser um enigma. Os restantes casos de colunas que o terramoto deslocou que lhe trazemos estão documentados.

Vamos revelar-lhe onde estão e de onde vieram.

Quatro Casos de Colunas que o Terramoto Deslocou

Do Paço da Ribeira para a Igreja de São Domingos

As colunas que o terramoto deslocou da Igreja de S. Domingos são provenientes da colapsada capela real do Paço da Ribeira.
Igreja de São Domingos

O Paço da Ribeira, mandado edificar por D. Manuel em 1498, situava-se no então centro nevrálgico do comércio marítimo, junto ao rio Tejo, no lugar que hoje coincide com o edifício e torreão poentes da Praça do Comércio.

Este paço de estilo manuelino sofreu grandes alterações durante a dinastia filipina, adquirindo então um carácter maneirista. 

Com o terramoto o edifício ficou totalmente destruído, assim como todas as riquezas artísticas ali acumuladas ao longo de 250 anos.

A capela real deste palácio também não resistiu à catástrofe, mas alguns dos seus elementos arquitectónicos foram reutilizados…

Quanto à Igreja de São Domingos, era um dos mais importantes edifícios existentes no Rossio antes do terramoto.

Foi construída no séc. XIII, mas um outro violento terramoto ocorrido em 1531 destruiu por completo o edifício que foi reedificado uns anos mais tarde.

No reinado de D. João V recebeu obras de fundo, tendo a Sacristia e o Altar-Mor, de mármore negro, sido totalmente refeitos em estilo barroco. Foram estes os elementos que se mantiveram de pé após 1755.

Foi mais uma vez reconstruída, desta vez pelos arquitectos Carlos Mardel e Manuel Caetano de Sousa, que integraram na fachada as colunas, o portal e a sacada provenientes da colapsada capela real do Paço da Ribeira.

A 13 de Agosto de 1959 a Igreja de São Domingos sofreu um devastador incêndio, tendo apenas voltado a abrir em 1994, após se ter optado por deixar visíveis as marcas desse brutal acontecimento. Trata-se de uma resolução brilhante de restauro e reconstrução de património artístico após uma calamidade, que vale a pena conhecer.

Do Colégio de Santo Antão-o-Novo para a Igreja de São José da Anunciada

As colunas salomónicas de brecha que ladeiam o altar-mor da Igreja de São José da Anunciada são provenientes da demolição da igreja do colégio de Santo Antão-o-Novo.
Igreja de São José da Anunciada

Neste caso para além da deslocação de colunas existe outra curiosidade. Entre o séc. XVI e o séc. XIX os conventos da Anunciada e de Santo Antão cruzaram diversas vezes as suas histórias, através de moradas, nomes e salvados… Vamos saber como.

O Convento de Nossa Senhora da Anunciada foi fundado por D. Manuel, no lugar da mesquita da Mouraria, e entregue em 1519 a freiras Dominicanas.

Em 1539 estas trocaram de instalações com os frades Agostinhos do Convento de Santo Antão. Assim, os frades levaram para a Anunciada o nome de Santo Antão e as freiras levaram para Santo Antão o nome da Anunciada.

Mais tarde, a ordem dos frades extinguiu-se e em 1543 o Convento de Santo Antão foi entregue por D. João III aos jesuítas, sendo esta a sua primeira casa própria no mundo e o primeiro colégio externo em Portugal, conhecido por Coleginho.

O rápido crescimento de alunos obrigou à construção de Santo Antão-o-Novo na Colina de Santana, tendo esta ficado concluída em meados do séc. XVII.

O terramoto de 1755 danificou a igreja mas o edifício manteve a sua integridade, ficando devoluto após a expulsão dos jesuítas em 1759.

Dez anos depois o Marquês de Pombal determinou que ali fosse instalado o Hospital Real de São José, substituto do Hospital Real de Todos os Santos que tinha ruído quase na totalidade.

O edifício foi então alvo de diversas adaptações à nova função, incluindo a demolição da igreja já no séc. XIX. Os salvados desta conheceram novas moradas, entre elas a Igreja de São José da Anunciada.

Esta nova igreja paroquial, construída ao longo do séc. XIX, ocupa o espaço do Convento da Anunciada que como referimos, tinha pertencido primeiro aos Agostinhos e depois às Dominicanas.

O projecto inicial sofreu várias alterações até à sua conclusão mas o que interessa aqui salientar é que as colunas que o terramoto descolou são as salomónicas de brecha que ladeiam o altar-mor, provenientes da demolição da igreja do colégio de Santo Antão-o-Novo.

Do Convento de São Francisco da Cidade para o Teatro Nacional D. Maria II

As monumentais colunas jónicas que hoje fazem parte do nártex do Teatro Nacional D. Maria II são provenientes do Convento de São Francisco da Cidade
Teatro Nacional D. Maria II

O Convento de São Francisco da Cidade foi fundado no séc. XIII no Monte Fragoso, um local ermo, próximo do actual Chiado.

Sucessivas destruições, reconstruções e utilizações contribuíram para que hoje não restem senão vestígios deste convento franciscano, de onde partia a antiga Procissão de Santo António.

Tratava-se de um importante complexo religioso, cultural e social da cidade de Lisboa. Ali existiam, para além da parte conventual, um hospital e um albergue.

Após ter sofrido dois grandes incêndios na primeira metade de setecentos, estava a terminar de ser reconstruído quando o terramoto de 1755 o voltou a arruinar.

Mais uma vez foi erigido mas ainda não estaria terminado quando a extinção das ordens religiosas, em 1834, o encerraram.

Foi então Biblioteca Nacional de Portugal e depois Academia de Belas-Artes.

Hoje resta-nos uma grande área edificada, classificada como imóvel de interesse público, ocupada por diferentes entidades, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a Academia Nacional de Belas Artes e o Comando Metropolitano de Lisboa da Polícia de Segurança Pública.

Em 1839 uma parte do edifício foi demolido e alguns elementos foram reaproveitados. Foi o caso das monumentais colunas jónicas deslocadas para a Baixa Pombalina que hoje fazem parte do nártex do Teatro Nacional D. Maria II.

Este teatro foi edificado entre 1842 e 1846 no lugar do antigo Palácio dos Estaus, um paço medieval, morada de visitas de estado que foi depois de 1584 Tribunal do Santo Ofício. Ruiu no terramoto, tendo sido reedificado ainda para a Inquisição até à sua extinção em 1820.

Após ter sofrido um grande incêndio foi demolido, dando então lugar ao teatro. Em 1964 este também ardeu, tendo ficado destruído todo o seu interior e cobertura. Só reabriu em 1978 e está hoje classificado como Monumento Nacional.

De Lugar Incerto para a Casa das Colunas em Alfama

As colunas que o terramoto deslocou da Casa das Colunas têm proveniência.
Casa das Colunas em Alfama

Por último revelamos-lhe o caso talvez mais insólito e obscuro deste conjunto que seleccionámos de colunas que o terramoto deslocou.

Em Alfama, no Largo do Chafariz de Dentro, muito perto do Museu do Fado encontra-se um edifício de vários andares com ressalto sustentado por duas grandes colunas.

É muito evidente que estas imponentes colunas lisas de bases simples e capitéis de estilo Jónico não foram talhadas para tão modesta edificação. Desconhecemos a sua proveniência mas são, certamente, mais um dos casos de salvados do terramoto engenhosamente aproveitados.

Curiosidade

No Largo do Chafariz de Dentro, mesmo em frente à casa das colunas encontra um outro curioso elemento escultórico em pedra, igualmente deslocado.
Desta feita trata-se de uma coroa dos reis de Portugal cuja proveniência é também desconhecida mas que terá com certeza pertencido a um paço já desaparecido.
Hoje, iluminada, coroa a entrada de uma das típicas casas de fados de Alfama.
Coroa dos reis de Portugal cuja proveniência é desconhecida
Largo do Chafariz de Dentro

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