Fontes de Ferro da Lisboa Oitocentista

Fontes de Ferro da Lisboa Oitocentista: pormenor da pequena fonte-repuxo da Travessa do Patrocínio
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As fontes de ferro da Lisboa oitocentista são um assunto fascinante não só pela beleza do seu objecto de estudo, como pelo facto de as informações sobre a sua origem e autoria não se encontrarem facilmente disponíveis.

Esta abordagem obriga-nos, por isso, a um olhar particularmente atento, procurando descortinar semelhanças entre outros exemplares idênticos, espalhados um pouco por todo o mundo.  

Fontes de Lisboa

São inúmeras as fontes-repuxo que podemos observar em Lisboa. Por muitos jardins da cidade encontramos fontes com tanques em pedra de diversos tamanhos e épocas, alguns com elementos escultóricos associados que merecem destaque.

São os casos, entre outras, das exuberantes fontes setecentistas do Jardim Botânico da Ajuda ou do Jardim das Necessidades, assim como das representações dos rios Tejo e Douro, herdeiras do Passeio Público, presentes nas cascatas da Avenida da Liberdade, de que já lhe falámos.

Do séc. XX, são incontornáveis as monumentais fontes luminosas da Alameda Afonso Henriques ou da Praça do Império; o monumento ao 25 de Abril do escultor João Cutileiro, situado no topo do Parque Eduardo VII; ou as múltiplas intervenções em que a água é protagonista no Parque das Nações.

Todas, estas e muitas outras, merecem atenção e reflexão, mas este artigo dedica-se em particular às fontes de ferro da Lisboa oitocentista, de estética francesa, que vieram refrescar esta cidade, então em expansão.

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Funcionalidade e Origem das Fontes

Fontes de Ferro da Lisboa Oitocentista: Fonte monumental do Rossio
Fonte monumental do Rossio

As fontes-repuxo existem há milénios e encerram desde sempre duas funções. Podemos dizer que a principal será refrescar o ambiente não só pela presença da água pulverizada e contida no seu tanque como pelo som cristalino que emite.

Não menos importante, é o seu carácter decorativo, patente desde os simples repuxos dos pátios das villae romanas, até às fontes monumentais, de todas as épocas, que podemos admirar em inúmeras praças das grandes cidades e que constituem, não raras vezes, o seu ex-libris.

A estas estão, frequentemente, associadas não só os magníficos efeitos ilusionísticos, mais ou menos complexos, produzidos pela água, mas também elementos escultóricos de diversos materiais. São incontornáveis os exemplares barrocos com cascatas de encosto ou independentes, que tão bem servem esta estética, monumental e cenográfica por excelência.

Tradicionalmente construídas em pedra, as fontes-repuxo ganharam uma nova dinâmica com o fabrico em série de peças em ferro fundido. Destas, destacam-se as produzidas pelas fundições francesas, disponibilizadas por catálogo, que se espalharam, primeiro por todas as capitais europeias e rapidamente pelo mundo.

Novas Necessidades, Novos Equipamentos Urbanos

Escultura em ferro fundido do Jardim da Graça
Escultura do Jardim da Graça

O séc. XIX ficou marcado pela 2ª revolução industrial e a consequente expansão e desenvolvimento das cidades. Novas necessidades, como a iluminação das ruas, a fruição dos espaços verdes e o embelezamento dos espaços públicos, exigiram a criação de equipamentos e mobiliário urbano.

Esta nova organização urbanística, pioneira em Paris, tornou-se então rapidamente o modelo adoptado pelos municípios das cidades em desenvolvimento e pelos nobres e burgueses endinheirados que enriqueciam os seus palacetes com peças importadas.

A utilização de objectos em ferro fundido fabricados em série era a novidade. Esta, unida ao gosto pela arte, permitiu produzir trabalhos de grande beleza e criatividade. Assim, os escultores foram convidados a criar peças que eram depois reproduzidas em série, levando a todos os cantos do mundo a beleza e a estética das suas obras.

A estética romântica, intrinsecamente eclética, encontrou inspiração em elementos decorativos egípcios, clássicos, góticos, barrocos … Uma diversidade iconográfica que se reproduziu em bancos, candeeiros, bebedouros, fontes, coretos, quiosques, suportes publicitários, urinóis, portões, vedações, etc.

Um Toque Parisiense com as Fontes de Ferro da Lisboa Oitocentista

Lisboa não poderia ter ficado alheia à moda francesa.

Nas últimas décadas de oitocentos foi demolido o Passeio Público para abrir a Avenida da Liberdade, construída à semelhança dos grandes boulevards parisienses, possibilitando a expansão da cidade para norte, as Avenidas Novas.

Na transição do século,  arquitectos de referência como José Luís Monteiro (1848-1942) ou Miguel Ventura Terra (1866-1919), marcaram a cidade com a estética elegante adquirida na sua formação em Paris.

Nesse mesmo período a CML – Câmara Municipal de Lisboa e alguns particulares, adquiriram por catálogo, peças que hoje fazem parte integrante do imaginário lisboeta.

Foi o caso das duas fontes monumentais do Rossio, fruto da iniciativa de um vereador do Município e o de Júlio Andrade, presidente da Sociedade Protectora dos Animais, que importou os primeiros fontanários-bebedouro para pessoas e animais e os ofereceu à cidade de Lisboa.

É também da 2ª metade do séc. XIX o magnífico bebedouro de ferro fundido, que os lisboetas muito estimam, conhecido por “Fonte dos Anjinhos”.

A “Fonte dos Anjinhos” Parente da Famosa Fonte Wallace

“Fonte dos Anjinhos” no Rossio: em boa verdade, não se encontram ali representadas anjinhos, mas sim quatro crianças, duas meninas e dois meninos, porém o termo generalizou-se e é assim que ficou por todos conhecida.
“Fonte dos Anjinhos” no Rossio

Esta peça, igualmente de origem francesa, foi produzida pela fundição Durenne/Sommevoire, principal concorrente que adquiriu a de Val d’Osne em 1931.

A “Fonte dos Anjinhos” tem semelhanças formais com a famosa Fonte Wallace, ex-libris da cidade de Paris e da qual se conhecem inúmeras réplicas espalhadas por todo o mundo. Até no longínquo oriente, mais precisamente no Jardim de São Francisco em Macau, é possível constatar a sua presença.

Fonte Wallace em Macau; o ex-libris de Paris que se espalhou pelo mundo
Fonte Wallace em Macau; o ex-libris de Paris que se espalhou pelo mundo

O modelo Wallace foi concebido e patrocinado pelo coleccionador de arte e filantropo inglês Sir Richard Wallace (1818–1890), que a ofereceu à população de Paris e a outras cidades, entre as quais o Rio de Janeiro.

Foi esculpida por Charles-Auguste Lebourg (1829-1906), reproduzida na Fundição Val d’Osne e nela estão representadas quatro Cariátides que representam a Simplicidade, a Bondade, a Caridade e a Sobriedade.

No que respeita à nossa popular “Fonte dos Anjinhos”, em boa verdade, não se encontram ali representadas nem cariátides nem anjinhos, mas sim quatro crianças, duas meninas e dois meninos, porém o termo generalizou-se e é assim que ficou por todos conhecida.

O apreço da população por este equipamento foi notório há bem pouco tempo, quando a peça foi retirada para ser sujeita a uma intervenção de restauro, levada a cabo pela CML. Vozes preocupadas levantaram-se, só sossegando quando os anjinhos voltaram de cara lavada ao seu lugar de sempre, o Rossio.

A Pequena Fonte de Ferro do Jardim de São Pedro de Alcântara

O mesmo não terá acontecido quando nos anos 40 o segundo patamar do Jardim de São Pedro de Alcântara foi intervencionado.

Nessa altura o conceito deste espaço ajardinado foi radicalmente alterado e o mobiliário urbano em ferro fundido que ali existia foi substituído. Desapareceram então os bancos e também uma bonita fonte de ferro que parece ter caído no esquecimento dos lisboetas.

Dos decorativos bancos desconhecemos o paradeiro mas a fonte encontrámo-la a embelezar a discreta Travessa do Patrocínio em Campo de Ourique. Falta-lhe a taça de remate mas não há dúvidas de que se trata do mesmo equipamento, é só comparar as imagens.

A fonte que se encontra a embelezar a discreta Travessa do Patrocínio em Campo de Ourique veio do segundo patamar do Jardim de São Pedro de Alcântara (1835).
Do segundo patamar do Jardim de São Pedro de Alcântara (1835) à Travessa do Patrocínio

Como curiosidade, incluímos ainda o desenho do catálogo onde é possível ver o conjunto escultórico dos três meninos, aqui associado a uma taça de modelo diferente.

A compra por catálogo permitia conjugar diferentes partes constituintes de uma peça, ao gosto e bolsa do cliente, o que gerou uma grande variedade de aplicações. Assim, somos frequentemente surpreendidos por peças idênticas que integram contextos diversos. A observação atenta destes elementos fornece-nos pistas sobre a sua proveniência e autoria.

A Fonte com Leões da Praça da Alegria

Fonte-repuxo do Jardim Alfredo Keil, na Praça da Alegria. Trata-se de uma fonte simples de duas taças onde se observam quatro carrancas de leão das quais brota água.
Fonte-repuxo do Jardim Alfredo Keil, na Praça da Alegria

É o caso da fonte-repuxo do Jardim Alfredo Keil, na Praça da Alegria, que foi instalada aquando da sua construção, em 1882. Trata-se de uma fonte simples de duas taças onde se observam quatro carrancas de leão das quais brota água.

Curiosamente, durante a pesquisa, percebemos que estes elementos são iguais a outros existentes numa fonte do mesmo tipo, mas escultoricamente mais rica, existente no Canadá, a fonte Lord Strathconna. Essa, de 1909, está identificada como sendo da autoria do escultor Mathurin Moreau (1822-1912) e de Val d’Osne. Este facto permite-nos deduzir que a nossa fonte terá, igualmente, a mesma origem.

Os Leões da Avenida

O mesmo se passa no caso dos Leões Alados de que já lhe falámos no nosso artigo A Escultura da Av. da Liberdade – Poente.

Para além de termos observado que estes leões são iguais aos que constituem a famosa fonte-repuxo da Praça dos Leões no Porto, devemos acrescentar que, como revela uma fotografia de c. de 1912 da entrada da fundição de Val d’Osne, ali se encontrava um destes exemplares.

Fundição de de Val d'Osne c.1912; Avenida da Liberdade em Lisboa e Fonte da Praça dos Leões no Porto. Os leões da Avenida da Liberdade são iguais aos que constituem a famosa fonte-repuxo da Praça dos Leões no Porto, devemos acrescentar que, como revela uma fotografia de c. de 1912 da entrada da fundição de Val d'Osne, ali se encontrava um destes exemplares.
Fundição de de Val d’Osne c.1912; Avenida da Liberdade em Lisboa e Fonte da Praça dos Leões no Porto

Estes são surpreendentemente parecidos com as famosas quimeras que ladeiam a Fonte de Saint Michel em Paris, da autoria do escultor francês Henri Alfred Jacquemart (1924-1896). Poderão ser do mesmo artista? Não sabemos, mas quanto à proveniência não parecem restar dúvidas.

Da mesma fundição são ainda os dois vasos com carrancas que ladeiam o lago dos Leões Alados pois são iguais a exemplares assim identificados, existentes na cidade de Santiago do Chile.

Para além destas fontes de ferro da Lisboa oitocentista, como vimos todas de origem francesa, existem mais duas, maiores e mais singulares, de que não falámos. Referimo-nos  às duas fontes monumentais do Rossio e à enigmática Egípcia do Jardim do Torel mas essas obrigam a artigos independentes que estão quase, quase aí… !

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