Junho 5, 2019 getLISBON 2Comment

Neste artigo trazemos-lhe a Procissão de Santo António de Lisboa, uma manifestação de fé popular com uma característica muito peculiar. Diz-se que o Santo alfacinha sai só e volta acompanhado. Fique a saber porquê!

É crescente o número de participantes e curiosos que na tarde do dia 13 de Junho se deslocam ao largo da Igreja de Santo António, junto à Sé, para assistir a este evento.

A tradição está viva mas devemos salientar o magnífico trabalho de divulgação e promoção desta singular personalidade e das crenças e práticas a ela associadas, que tem sido realizado nos últimos anos, pela dedicada equipa do Museu de Lisboa – Santo António.

No mês de Junho, as Festas de Lisboa estão ao rubro com programação variada para todos os gostos, mas não podemos esquecer que Santo António é a razão de ser este o mês que Lisboa celebra.

O dia 12 é o ponto alto das festividades mais tradicionais com os Casamentos de Santo António, o desfile de marchas populares na Av. da Liberdade e arraiais que duram até de madrugada. É por isso surpreendente, na tarde do dia 13, ver o Largo de Santo António da Sé encher-se de gente que se reúne para ver ou participar numa curiosa procissão dedicada ao mais popular santo nascido em Lisboa.

Nesse dia, as ruas de Alfama tornam-se ainda mais estreitas e sinuosas. Observar as típicas ruas enfeitadas para os arraiais, apinhadas de gente, imagens de santos, flores, colchas nas janelas e o inebriante cheiro a rosmaninho, torna-se uma experiência intensa e emocionante mesmo para um não crente.

As janelas enfeitam-se com colchas à passagem da Procissão de Santo António
As janelas enfeitam-se com colchas à passagem do cortejo

Por esta razão aproveite o feriado em Lisboa e atreva-se a embrenhar-se pelas ruas de Alfama nesta peculiar companhia.

Conhecer mais um pouco desta Procissão de Santo António de Lisboa é o que lhe propomos agora.

A Procissão de Santo António de Lisboa

A procissão sai da Igreja de Santo António e percorre um longo caminho durante o qual se vão juntando outros santos, até voltar ao ponto de partida. Inicia-se com um andor e acaba com seis. Por isso se diz que o Santo António sai só mas volta acompanhado.

Em primeiro lugar junta-se à imagem do santo franciscano a sua relíquia oferecida pelo Santuário de Pádua em 1968 e que se guarda na Sé de Lisboa.

Após passar pela Sé a procissão segue pelo Bairro de Alfama, rapidamente chega à Igreja de São João da Praça e São João Baptista é o primeiro santo a vir ao seu encontro.

As ruas tornam-se então mais estreitas e logo à frente é a vez do arcanjo São Miguel se juntar ao desfile. Mais ruas estreitas apinhadas de gente que se deslocam de forma ritmada, entoando cânticos e orações.

As ruas estreitas de Alfama, enfeitadas para os arraiais, ficam apinhadas de gente que se desloca de forma ritmada, entoando cânticos e orações.
As ruas de Alfama tornam-se ainda mais estreitas e sinuosas

Após subir a famosa Rua dos Remédios a procissão dirige-se às proximidades da Igreja de Santo Estêvão, santo que a aguarda e a encabeça até encontrar novo grupo vindo da Igreja de São Vicente de Fora. A imagem de São Vicente acorre pela Rua das Escolas Gerais e por sua vez toma a dianteira.

Depois das Portas do Sol é a vez de Santiago se juntar à procissão. A partir daí será sempre a descer, passando pelo Largo do Limoeiro em direcção ao Largo da Sé. Ali terá lugar o encerramento com a bênção aos fiéis e o agradecimento com a entoação de Te Deum Laudamus.

São João, São Miguel e Santo Estêvão regressam às suas moradas em direcção a Alfama. Santiago e São Vicente recolhem aos seus locais de origem voltando para trás.

São João Baptista

São João Baptista

São João Baptista

São Miguel Arcanjo

São Miguel Arcanjo

São Miguel Arcanjo

Santo Estêvão

Santo Estêvão

Santo Estêvão

São Vicente

São Vicente

São Vicente

Santiago

Santiago

Santiago

Santo António

Santo António

Santo António

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Mas nem sempre foi assim!

Origens da Procissão de Santo António de Lisboa

O Ferrolho

A data em que se iniciou a Procissão de Santo António de Lisboa é incerta, contudo existiu uma procissão que saía da Igreja de Santo António e que se dirigia à ermida da Penha de França, localizada na actual Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, atravessando as sinuosas ruas da Mouraria.

Esta procissão realizou-se entre 1599 e 1856 no dia 5 de Agosto e teve como origem um voto de agradecimento do presidente da Câmara de Lisboa à Senhora da Penha por a cidade ter sido poupada a uma peste que assolou os arredores. Tinha a particularidade de se realizar de noite, dos vereadores a fazerem descalços e de os jovens que a integravam irem batendo a todas as portas das casas por onde passavam, fazendo grande alarido. Foi por isso apelidada de Procissão do Ferrolho.

Os populares lançam pétalas de flores à passagem da Procissão de Santo António de Lisboa
Os populares lançam pétalas de flores à passagem dos andores

Do Convento de São Francisco a 1834

No dia 13 de Junho tinha lugar uma outra procissão com menor participação da nobreza mas mais concorrida pelo povo. Contava com treze andores entre eles a imagem de Santo António e no final do cortejo dois santos negros, São Benedito e Santo António Noto. Começava no antigo Convento de São Francisco (séc. XIII), local onde hoje se encontra a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, no Chiado.

O séc. XVIII foi devastador para este complexo religioso. Uma sucessão de incêndios e o terramoto de 1755 deixaram o convento reduzido a pouco mais que escombros.

Encontrava-se em reconstrução lenta quando em 1834 a extinção das ordens religiosas ditou o fim da sua ocupação religiosa assim como o fim da procissão.

Um relato presente no Diário de William Beckford em Portugal e Espanha dá testemunho da passagem da procissão pela Rua Augusta no ano em que o autor esteve pela primeira vez em Portugal, 1787.

Este escritor de viagens não poupa de críticas o desfile que considerou o mais mal amanhado cortejo que já presenciara. Refere ainda que se terá mesmo sentido vexado “…ao ver o venerável e majestático Santo António reduzido às proporções de um empertigado fantoche, que não chega a ter três pés de altura, com um fato de tafetá indiano salpicado de ouro…”.

A simplicidade do desfile não terá impressionado positivamente o aristocrata inglês, mas o seu relato fornece-nos elementos preciosos que de outra forma possivelmente não teriam chegado aos nossos dias. Um testemunho que vale a pena ler.

Intermitências e Curiosidades

A imagem de Santo António que hoje sai na procissão é transportada por um jipe dos bombeiros
A imagem de Santo António que hoje sai na procissão é transportada por um jipe dos bombeiros

A tradição da Procissão de Santo António de Lisboa foi retomada em 1895 mas nessa altura passou a iniciar-se no Mosteiro de São Vicente de Fora, local onde Santo António estudou quando era ainda muito jovem.

Foi já na década de 50 do séc. XX que foi instituído o dia 13 de Junho como feriado municipal de Lisboa e que a procissão se passou a realizar, partindo da Igreja de Santo António mas num percurso reduzido. Esta igreja, localizada no sítio onde o santo terá nascido (c. 1191), é actualmente uma reconstrução pós terramoto. A primitiva igreja terá então ficado reduzida a escombros, tendo-se dela apenas salvo a imagem de Santo António, uma grande escultura em pedra, policromada que pesa cerca de 300kg.

Dada a evidente dificuldade e risco de a retirar do altar-mor da igreja, local onde hoje se encontra e para que esta se preserve foi executada uma imagem idêntica, a que hoje sai na procissão transportada por um jipe dos bombeiros.

A imagem de Santo António participa ainda em outros cortejos como é o caso da Procissão de Nossa Senhora da Saúde que se realiza no primeiro domingo de Maio.

Após nova interrupção a realização da Procissão de Santo António de Lisboa foi reiniciada em 1981, tendo vindo desde então a ganhar relevo.

Constitui uma curiosidade o facto da maioria dos andores que integram esta procissão serem exclusivamente carregados por mulheres.

Existe a crença que no final do cortejo alguns fiéis são abençoados com o milagre do sol. Um fenómeno que muitos descrevem como uma imensidão de cores com mensagens simbólicas que se observam ao fixar o sol.

Não aconselhamos a fixar o olhar no sol mas sem dúvida que dar um salto a Alfama no dia de Santo António é uma experiência que vale a pena ter.

2 thoughts on “Procissão de Santo António de Lisboa

  1. Bom dia 🙂
    Foi com muito gosto que li pois desconhecia a história completa. Continuem o vosso excelente trabalho. Obrigada

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