Junho 3, 2020 getLISBON 0Comment

A Procissão da Senhora da Saúde é uma secular tradição em agradecimento pelo fim de uma terrível peste que assolou esta cidade no séc. XVI.

Neste ano de 2020 comemora-se 450 anos da sua existência, mas curiosamente não se pôde realizar devido a um surto pandémico mundial.

É no mês de Maio que a Mouraria se anima com a Procissão da Senhora da Saúde que tem lugar no 1º ou 2º domingo, em função da data da Páscoa.

O bairro mais multicultural da cidade enfeita as janelas com colchas e ao cheiro dos kebab juntam-se o incenso e o rosmaninho. Ouvem-se orações e preces em uníssono com a música das bandas das forças armadas entre as quais a Charanga a Cavalo da Guarda Nacional Republicana. 

O culto a Nossa Senhora da Saúde é anterior mas  foi apenas em 1570 que se iniciou esta procissão, também conhecida por Procissão dos Artilheiros, a mais antiga de Lisboa.

Enquadramento Histórico

A história de Lisboa revela-nos um séc. XVI particularmente trágico.

Foi o terrível tempo decorrente do massacre e perseguição aos cristãos-novos, dos inúmeros autos-de-fé promovidos pelo Tribunal do Santo Ofício, da perda da independência do reino…

Mas também pestes, fomes e sucessivos tremores de terra, fizeram com que viver com medo e em sobressalto fossem uma constante. As catástrofes naturais eram entendidas como castigos divinos justificados pelo declínio dos valores morais da sociedade.

O povo enfrentava os seus medos com exacerbações religiosas e manifestações públicas de fé, procurando assim resposta e alívio para os seus males.

Origens da Procissão da Senhora da Saúde

Imagem de São Sebastião protector da peste e padroeiro dos militares
Imagem de São Sebastião

Foi neste difícil ambiente que durante a Primavera e o Verão de 1569 um violento surto de peste atingiu a cidade, provocando milhares de mortos.

No mês de Outubro o jovem rei D. Sebastião pediu ao Senado da Câmara de Lisboa para construir um templo em louvor a São Sebastião, protector da peste. Contudo, a obra não se chegaria a realizar devido à morte prematura do monarca.

O seu desejo era que este se situasse na Mouraria, às portas da cidade, junto à Ermida de São Sebastião, construída em 1505 pelos Artilheiros do Castelo de São Jorge em louvor do seu padroeiro.

Em Abril de 1570 teve lugar a primeira celebração solene da Procissão da Senhora da Saúde promovida pelos Artilheiros, por graças do grande milagre que restituíra a salubridade à cidade. 

No mesmo ano a nobreza de Lisboa vai constituir uma confraria que se apelidou de Irmandade de Nossa Senhora da Saúde cuja imagem se guardava num oratório do Colégio dos Meninos Órfãos que juntamente com a imagem de São Sebastião saía anualmente em procissão.

Dois anos depois o Senado deliberou que a Procissão da Senhora da Saúde se realizaria anualmente, no terceiro domingo do mês de Abril.

Em 1661 desentendimentos entre a administração do Colégio e a Irmandade levaram à intervenção dos Artilheiros. As irmandades uniram-se formando a Associação da Senhora da Saúde e de São Sebastião e desde então a imagem da Virgem passou a residir na Ermida de São Sebastião que mudou de nome para Ermida de Nossa Senhora da Saúde.

A procissão só foi interrompida por dois períodos já no séc. XX. Primeiro no contexto da República, entre os anos de 1908 e 1940, e mais tarde no período pós-revolução entre 1974 e 1981.

E agora inesperadamente em 2020… 

Percurso e Participantes

Nos primeiros tempos o trajecto iniciava-se na Ermida de São Sebastião, passava pela Igreja da Madalena, pela Sé e pelo Convento de São Domingos voltando ao ponto de partida.

Hoje o percurso da Procissão da Senhora da Saúde é mais pequeno, com início e término na Praça Martim Moniz, frente à Capela de Nossa Senhora da Saúde, atravessando diversas artérias da baixa da Mouraria.

Outros santos abrem caminho ao andor da Senhora da Saúde. É particularmente curiosa a imagem em tamanho real de São Jorge que abre o cortejo montado num cavalo real entre os militares da Guarda Nacional Republicana.

Imagem de São Jorge padroeiro dos soldados e dos cavaleiros
Imagem de São Jorge

Seguem-se as imagens de Sant’Ana, Santo António, Santa Bárbara, São Sebastião e por último Nossa Senhora da Saúde que enverga os trajes nupciais da rainha D. Maria Ana de Áustria, mulher de D. João V. Os andores são transportados por elementos das forças armadas e protecção civil.

A presença de todos os ramos das forças militares e de segurança são uma característica muito particular desta procissão, herança dos Artilheiro que estiveram na sua origem.

Participam o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Vereadores e outras individualidades do Município, por vezes o Presidente da República ou seu representante.

E ainda membros de inúmeras confrarias, elementos de diversas ordens religiosas e claro, uma multidão de crentes, curiosos e turistas que enchem a Mouraria de cor e emoção.

'Retratos do fado – um tributo à Mouraria', um projecto de Camilla Watson

Raminhos de rosmaninho

Mural do Fado, Freguesia da Misericórdia

Janelas enfeitadas com colchas

Tributo escultórico ao Fado, Estação do Rossio

Sant’Ana

Intervenção escultórica , Largo da Severa, Mouraria

Santo António

Rua de São João da Praça, Alfama

Santa Bárbara

Amália Rodrigues, Trv. Santo Antão, Restauradores

São Sebastião

Amália Rodrigues, Trv. Santo Antão, Restauradores

Nossa Senhora da Saúde

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Curiosidades sobre a Capela de Nossa Senhora da Saúde

Este edifício passou por várias vicissitudes: sobreviveu à destruição de diversos tremores de terra entre eles o terramoto de 1755 e à devastadora demolição da zona baixa da Mouraria empreendida durante os anos 40/50 do séc. XX. Esta salvaguarda deveu-se à população deste bairro que resistiu, não permitindo o desaparecimento de tão importante referência cultural. A capela, construída em 1505, foi alvo de diversas campanhas de obras ao longo do tempo até ter adquirido a sua actual feição barroca. Do seu interior devemos destacar o programa azulejar atribuído a António de Oliveira Bernardes.
Relevo ainda para a calçada portuguesa envolvente que apresenta as projecções das fachadas da capela, uma interessante intervenção de 1991, do artista plástico Eduardo Nery.
Capela de Nossa Senhora da Saúde
Capela de Nossa Senhora da Saúde

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