Setembro 26, 2018 getLISBON 0Comment

Neste post encontrará reveladas as origens da Calçada Portuguesa e uma breve abordagem aos primeiros exemplares que surgiram na cidade das Sete Colinas.

Esta arte constitui uma das mais relevantes imagens de marca da cultura portuguesa. Hoje, a par dos emblemáticos azulejos, os magníficos motivos decorativos deste elemento artístico e funcional da arquitectura urbana, estão presentes não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo.

Enquanto a utilização dos azulejos conta já com vários séculos de tradição, a calçada como hoje a conhecemos, teve o seu surgimento há muito menos tempo, sendo por isso, um estrondoso e rápido caso de sucesso.

Sugerimos a leitura do artigo Azulejaria Portuguesa: Uma Arte Única no Mundo.

Calçada Portuguesa - Rua da Prata - Lisboa


Um  Pouco da História do Pavimento de Lisboa

A prática de pavimentar as vias é antiga.

São famosas e ainda existentes, as estradas calcetadas com pedra que facilitavam a circulação e comunicação entre pontos remotos do vasto império romano. Também romanos são os mosaicos constituídos por tesselas, pequenos elementos coloridos de pedra, vidros e terracota, que habilmente organizadas constituem magníficos revestimentos decorativos.

Lisboa foi, como sabemos, uma importante cidade do extenso império romano e, como tal, viu as suas principais artérias pavimentadas com pedras ou argilas da região.

Posteriormente, a ocupação muçulmana introduziu novas técnicas e formatos, deixando também a sua marca.

No século XV, o período de expansão económica do reinado de D. João II teve consequências no desenvolvimento urbano das cidades de Lisboa e Porto. Foram então abertas e pavimentadas as chamadas Ruas Novas, onde tinham lugar os mais importantes entrepostos comerciais.

O monarca seguinte, D. Manuel concluiu este processo que tornou a Rua Nova de Lisboa uma das mais famosas e apreciadas ruas do mundo quinhentista.

Mais tarde, o próspero reinado de D. João V (1689-1750) foi também pródigo na realização de obras públicas. Data deste período o alargamento e calcetamento de inúmeras artérias centrais e vias periféricas que visava para além de facilitar a circulação do tráfego tornar a cidade mais “fermosa”.

Porém o terrível terramoto que arrasou a cidade em 1755 não permitiu que viéssemos a ser testemunhas destas e de outras grandiosas obras.

A reconstrução da cidade apesar de bem planeada demorou muitos anos a concretizar, e assim, a calçada decorativa com as características que hoje conhecemos é muito recente e data apenas de meados do século XIX.

Em História de Lisboa: Um Breve Olhar Através dos Tempos pode obter uma ideia do percurso histórico de Lisboa.


Um Episódio Curioso

Sobre o reinado de D. Manuel conta-se, ainda hoje, um curioso episódio sobre um rinoceronte oferecido pelo rei Modofar, do reino de Cambaia e da cidade de Diu, a Afonso de Albuquerque, vice-rei da Índia portuguesa. Este possante e desconhecido animal foi trazido para Lisboa e aqui terá causado grande impacto.
Associa-se a pavimentação das ruas da cidade, realizada neste período, como justificação à passagem de um desfile por ocasião do aniversário do rei. Ali uma das atracções seria o rinoceronte e para evitar que este estragasse a festa com lama, o rei teria mandado empedrar as ruas mais notáveis.
Na verdade quando o rinoceronte chegou a Lisboa já as principais ruas estavam pavimentadas havia alguns anos, mas com o passar do tempo a memória colectiva acabou por associar os dois acontecimentos o que demonstra bem a importância e o impacto de ambos à época.

Vamos, então, conhecer melhor as origens da Calçada Portuguesa.

As Origens da Calçada Portuguesa e Um General

Já referimos que a Calçada Portuguesa nasceu em Lisboa. Situemo-nos por isso nesta cidade no ano de 1842.

Nessa altura o Castelo de São Jorge abrigava o Quartel do Batalhão de Caçadores N.º 5, comandado pelo Tenente-General Eusébio Cândido Pinheiro Furtado, um engenheiro apreciador e conhecedor das técnicas de construção romanas.

Sob a sua orientação a parada do quartel foi calcetada, aproveitando a mão-de-obra dos presos da cadeia do Limoeiro, os então apelidados “grilhetas”.

Utilizando pedras de calcário branco e basalto negro da região de Lisboa, foi criado o primeiro tapete decorativo que exibia um vibrante ziguezague.

Arquivo Municipal de Lisboa; Pavimento Calcetado na Parada do Castelo São Jorge; 19–; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000530

Esta impressionante obra, que empolgou a população da cidade, está documentada em fotografias mas dela nada restou. As profundas intervenções de restauro, realizadas nos anos 40 do século XX no Castelo de São Jorge destruíram este valioso testemunho das origens da Calçada Portuguesa. Não ficaram quaisquer vestígios do quartel nem de anteriores ocupações que, segundo a visão de então, eram totalmente irrelevantes, não merecendo por isso ser preservadas.

Contudo, o impacto desta primeira calçada decorativa teve imediata repercussão na Lisboa oitocentista e 6 anos mais tarde, em 1848, a mais importante praça da cidade, o Rossio, é calcetada sob a orientação e segundo projecto do mesmo engenheiro-militar. Em 323 dias, uma área de 8712m2 foi revestida com calcário preto e branco.

Mar Largo, um Impressionante Desenho da Calçada Portuguesa

O desenho adoptado simulava um enorme tapete constituído por campo e barra. O campo ou centro, que exibia uma sequência alternada de ondas pretas e brancas, foi apelidado de Mar Largo em homenagem aos descobrimentos portugueses.

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça Dom Pedro IV; 1977; Estúdio Mário Novais; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/001832
Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça Dom Pedro IV; 1977; Estúdio Mário Novais; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/MNV/001832

Este é um dos mais conhecidos motivos decorativos da calçada portuguesa, tendo sido reproduzido no famoso Calçadão em Copacabana na cidade do Rio de Janeiro, logo no início do século XX.

O Rossio sofreu várias transformações ao longo do tempo e por volta de 1925 as ondas ficaram reduzidas a uma pequena área em volta da estátua de D. Pedro IV.

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça Dom Pedro IV; ant. 1919; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000295
Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça Dom Pedro IV; ant. 1919; Paulo Guedes (1886-1947); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/PAG/000295

Assim, ficou todo o século XX até 2003, quando o grandioso tapete foi reposto. Devemos contudo, lamentar o desaparecimento da barra que apresentava motivos decorativos mais clássicos e que servia de remate do conjunto.

Surpreendentemente moderno para a época em que foi concebido, este desenho mantém a intemporalidade nos dias de hoje. O padrão das ondas cria diversas ilusões de óptica que dependem do ponto de vista do observador.

Calçada Portuguesa - Mar Largo, Rossio, Lisboa, 2018
Calçada Portuguesa – Mar Largo, Vista Longitudinal

Ora criando sensações de côncavo e convexo, ora serpenteando numa alternância de preto e branco infinita, estes efeitos conferem à Praça uma dinâmica estonteante.

Calçada Portuguesa - Mar Largo, Rossio, Lisboa, 2018
Calçada Portuguesa – Mar Largo, Vista Transversal

Primeiros Exemplares da Calçada Portuguesa em Lisboa

Após a realização desta grandiosa obra, rapidamente se desenvolveram novos projectos de calçada noutros locais da cidade. Entre 1848 e 1910 as zonas mais nobres foram calcetadas com magníficos motivos decorativos. São os casos do Cais do Sodré, Largo do Carmo, Praça de Camões, Príncipe Real, Praça do Município, Chiado, Praça do Comércio e Avenida da Liberdade.

Contudo, devemos ter em atenção que muitos dos padrões originais foram ao longo dos tempos substituídos por outros, ou dado lugar a outras opções estéticas. Importa observar alguns destes casos:

Calçada Portuguesa; Praça de Camões; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Praça de Camões; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Praça de Camões; Lisboa; 2018

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça de Camões; s.d.; António Passaporte (1901-1983); PT/AMLSB/PAS/002025

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça de Camões; s.d.; António Passaporte (1901-1983); PT/AMLSB/PAS/002025

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça de Camões; s.d.; António Passaporte (1901-1983); PT/AMLSB/PAS/002025

Calçada Portuguesa; Praça do Município; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Praça do Município; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Praça do Município; Lisboa; 2018

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Município; 189-?; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000377

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Município; 189-?; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000377

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Município; 189-?; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000377

Calçada Portuguesa; Chiado - Rua Garrett; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Chiado - Rua Garrett; Lisboa; 2018

Calçada Portuguesa; Chiado - Rua Garrett; Lisboa; 2018

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Rua Garrett; 1912-08; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001109

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Rua Garrett; 1912-08; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001109

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Rua Garrett; 1912-08; Joshua Benoliel (1873-1932); PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/JBN/001109

Praça do Comércio requalificada em 2010; Lisboa; 2018

Praça do Comércio requalificada em 2010; Lisboa; 2018

Praça do Comércio requalificada em 2010; Lisboa; 2018

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Comércio; 19--; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000172

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Comércio; 19--; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000172

Arquivo Municipal de Lisboa; Calçada Portuguesa da Praça do Comércio; 19--; s.a.; PT/AMLSB/CMLSBAH/PCSP/004/SEX/000172

previous arrow
next arrow
PlayPause
Shadow
Slider

Ao contrário dos casos mencionados, existem alguns dos primeiros exemplares de calçada portuguesa que hoje ainda podem ser observados. Temos sem dúvida de destacar uma das mais belas e emblemáticas sequências de tapetes de Lisboa na Avenida da Liberdade. Esta sequência resultou de uma verdadeira revolução urbanística iniciada em 1879, com a necessidade de expansão da cidade.

O seu primeiro troço foi realizado no final da década de 80 e compreende o espaço entre a Praça dos Restauradores e a Rua das Pretas que coincide com o antigo jardim gradeado, o Passeio Público. Exibe um desenho de gosto clássico com molduras rectilíneas.

Calçada Portuguesa: primeiro troço da Avenida da Liberdade, c. 1889
Calçada Portuguesa – Avenida da Liberdade – Gosto Clássico

A segunda fase de construção da Avenida da Liberdade até à Praça do Marquês de Pombal data dos primeiros 8 anos do século XX. Aqui os motivos vegetalistas ganham movimento numa estética Arte Nova, acompanhando a evolução do gosto da época.

Calçada Portuguesa: segundo troço da Avenida da Liberdade, 1900/08
Calçada Portuguesa – Avenida da Liberdade – Padrão Vegetalista Arte Nova

Apesar desta diferença de estilo mantêm-se as proporções, e assim, a harmonia e unidade do espaço ao longo de toda a Avenida. A repetição dos padrões ao mesmo ritmo marca e facilita a marcha de quem caminha e se deslumbra com esta espantosa arte.


Depois de dar a conhecer as origens da Calçada Portuguesa, a getLISBON irá desenvolver em artigos futuros, outros aspectos igualmente interessantes. Esta original arte constitui um tema muito rico que promete surpreender.

Esteja atento! 🙂

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

13 − eleven =