Lisboa Tem Poesia em Bancos de Jardim

Lisboa Tem Poesia em Bancos de Jardim

Actualizado em 18/3/2025
Artigo original publicado em 15/07/2020

Sabia que Lisboa tem poesia em bancos de jardim? É verdade, estes equipamentos urbanos destinam-se não só a permitir um momento de descanso como também a ser lidos. 

Talvez lhe tenham passado despercebidos já que estes bancos não são particularmente vistosos.

Contudo, uma coisa os torna especiais, nos seus assentos estão inscritos poemas inspirados no mar, no Tejo e em Lisboa, da autoria de nomes consagrados da literatura de expressão portuguesa. 

Esta peculiar iniciativa partiu da Fundação Paço D’Arcos que os ofereceu à cidade de Lisboa em diferentes alturas.

No entanto, mais iniciativas desta natureza surgiram através da Câmara Municipal de Lisboa e da Junta de Freguesia de Santo António.

Faça uma visita guiada às zonas históricas de Lisboa e conheça locais imperdíveis desta magnífica cidade.

Fundação Paço D’Arcos

A Fundação Paço D’Arcos surgiu da vontade do filho de Henrique Belford Correia da Silva (1906-1993), 2.º conde de Paço de Arcos, escritor e poeta que assinava Anrique Paço d’Arcos.

Esta fundação criada em 1991 tem como objectivo principal a difusão cultural e artística entre cidadãos de países de expressão portuguesa e a salvaguarda do seu património constituído por uma biblioteca de 7 mil exemplares e manuscritos, hoje à guarda da Câmara Municipal de Cascais.

Possui ainda uma vasta colecção de obras de artistas portugueses e estrangeiros, da qual fazem parte nomes incontornáveis como Graça Morais, Vieira da Silva, Paula Rego, Júlio Pomar, João Cutileiro… 

Poesia em Bancos de Jardim da Iniciativa da Fundação Paço D’Arcos

Vamos, então, revelar-lhe os locais onde pode encontrar poesia em bancos de jardim.

Jardim da Estrela

O banco mais antigo encontra-se no Jardim da Estrela
Jardim da Estrela

O banco mais antigo encontra-se no Jardim da Estrela e tem inscrita a data de 13 de Maio de 1995, dia que coincide com o 2º aniversário da morte de Anrique Paço d’Arcos.

Ali podemos ler um dos seus poemas:

Evasão
Não fui ao jardim, / Mas voltei do jardim com uma rosa na mão; / Não fui ao mar, mas regressei das ondas / Com todo o sal do mar nas minhas lágrimas; / Não fui à guerra, mas voltei da guerra / Sem coração… / Um dia está para chegar / Em que hei-de ir e não hei-de voltar…
Anrique Paço D’Arcos



Jardim das Amoreiras

O banco do Jardim das Amoreiras tem um poema de Antero de Quental
Jardim das Amoreiras

Três anos depois, a 13 de Maio de 1998, surge mais um banco, desta vez no Jardim das Amoreiras agora com um poema de Antero de Quental:

Quantas vezes, de súbito, emudeces! / Não sei que luz em teu olhar flutua, / Sinto tremer-te a mão e empalideces. / O vento e o mar murmuram orações / E a poesia das coisas se insinua / Lenta e amorosa em nossos corações.
Antero de Quental

Jardim da Torre de Belém

Os nove bancos, localizados junto à Torre de Belém, datam de 31 de Dezembro de 1999
Jardim da Torre de Belém

Os nove bancos, localizados junto à Torre de Belém, datam de 31 de Dezembro de 1999.

Nesta intervenção mais expressiva encontram-se registados poemas de: Teixeira de Pascoaes; Alexandre O’Neil; Fernando Pessoa; Sophia de Mello Breyner Andresen; Eugénio de Andrade; Paço D’Arcos; António Nobre;  David Mourão Ferreira e Manuel Alegre.

Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo / Em choros que se espalham sobre o mundo! / Ó anjo imenso que, na mão, sustentas / O cálix da amargura e das tormentas!
Teixeira de Pascoaes

Congresso de gaivotas neste céu / Como uma tampa azul cobrindo o Tejo / Querela de aves, pios, escarcéu / Ainda palpitante voa um beijo / Donde teria vindo? (não é meu…) / De algum quarto perdido no desejo? / De algum jovem amor que recebeu / mandato de captura ou de despejo?
Alexandre O’Neil

Onda que, enrolada, tornas / pequena, ao mar que te trouxe / e ao recuar te transtornas / como se o mar nada fosse. / Por que é que levas contigo / só a tua cessação, / e, ao voltar ao mar antigo, / não levas meu coração?
Fernando Pessoa

Vi as águas os cabos, vi as ilhas / E o longo baloiçar dos coqueirais / Vi lagunas azuis como safiras / Rápidas aves furtivos animais / Vi prodígios espantos maravilhas / Vi homens nus bailando nos areais / Vi o frescor das coisas naturais / Só do Preste João não vi sinais
Sophia de Mello Breyner Andresen

Vêm morrer à praia e são jovens / as sereias, / jovens como andar à chuva, / a brusca melancolia, / o lume aceso da cal, / jovens como as baladas escocesas / ou as molhadas sílabas de Junho, / e com a lua nova / vêm morrer no areal.
Eugénio de Andrade

Noite Negra, negra noite / Ai dos que vão pelo mar! / Menina dos olhos tristes / Acenda as velas no altar / Que Deus vele pelas velas / Que andam perdidas no mar! / Menina dos olhos tristes / A quem o noivo deixou / Reze por ele… (quem sabe / Se nas ondas naufragou?!)
Paço D’Arcos

As algas negro cerrado / que eu trouxe da beira-mar / guardo-as num missal doirado / onde costumo cismar. / Às vezes, triste e cansado / quando o vou a folhear, / dentro do livro encantado /eu oiço as algas chorar…
António Nobre

Por mim não quero já missão nenhuma / senão tal jogo de onda e mais onda / a surpresa da espuma / e a profunda / tentação de morrer em cada onda!
David Mourão Ferreira

Eu vivo lá longe, longe / onde passam os navios / mas um dia hei-de voltar / às águas dos nossos rios.
Manuel Alegre

Castelo de São Jorge

Lisboa Tem Poesia em Bancos de Jardim: Em 2003 a Fundação e a Câmara Municipal de Lisboa promovem nova homenagem desta vez no Castelo de São Jorge
Castelo de São Jorge

Em 2003, dez anos passados sobre a morte de Anrique Paço D’Arcos, a Fundação e a Câmara Municipal de Lisboa promovem nova homenagem desta vez no Castelo de São Jorge.

Trata-se de três bancos onde um poema de Sophia de Mello Breyner se pode ler em três línguas:

Português
Digo: “Lisboa” / Quando atravesso-vinda do sul – o rio / e a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse / abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna / em seu longo luzir de azul e rio / em seu corpo amontoado de colinas / … / Lisboa com seu nome de ser e de não-ser / com seus meandros de espanto insónia e lata / e seu secreto rebrilhar de coisa de teatro / seu conivente sorrir de intriga e máscara / enquanto o largo mar a ocidente se dilata / Lisboa oscilando como uma grande barca / Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência

Inglês
I say: “Lisbon” / when I arrive from the south and cross the river / and the city opens up as if born from its name / it opens and rises in its nocturnal vastness / in its long shimmering of blue and of river / in its rugged body of hills / … / Lisbon with its name of being and nonbeing / with its meanders of astonishment insomnia and shacks / and its secret theatre sparkle / its masklike smile of intrigue and complicity / while the wide sea stretches westward / Lisbon swaying like a sailing ship / Lisbon cruelly built next to its own absence

Francês
Je dis: “Lisbonne” / Quand j’arrive du sud et traverse le fleuve / et la ville s’ouvre comme si elle naissait de son propre nom / elle s’ouvre et se dresse dans son étendue nocturne / dans son long scintillement d’azur et de fleuve / dans son corps amoncélé de collines / … / Lisbonne avec son nom d’étre et de non-étre / avec ses méandres de merveille insomnie et ferraille / et son éclat secret de chose theatrale / son sourire complice de masque et d’intrigue / tandis qu’à l’óccident la vaste mer s’élarge / Lisbonne oscilante comme une grande barque / Lisbonne cruellement batie autour de sa propre absence
Sophia de Mello Breyner

Rua Arnaldo Ferreira, Lumiar

Lisboa Tem Poesia em Bancos de Jardim: No exterior do Parque das Quintas das Conchas e dos Lilases, mais precisamente na Rua Arnaldo Ferreira foram instalados oito bancos de jardim com poesia
Rua Arnaldo Ferreira, Lumiar

Nas imediações do Parque das Quintas das Conchas e dos Lilases, mais precisamente na Rua Arnaldo Ferreira foram instalados oito bancos de jardim com poesia. Datam de 2 de Setembro de 2005, um ano antes de se completar o centenário do nascimento de Anrique Paço D’Arcos.

Sob o tema Amar o Mar aqui encontramos a poesia de oito escritores lusófonos: Fernando Pessoa representante de Portugal; Corsino Fortes de Cabo Verde; Xanana Gusmão de Timor; Arlindo Barbeitos de Angola; Pascoal D’Artagnan Aurigemma da Guiné Bissau; Francisco José Tenreiro de São Tomé e Príncipe; Mia Couto de Moçambique e Manuel Bandeira do Brasil.

Mar Meu
Estou em guerra / o céu não é meu / estou em guerra / o mar não é meu / estou em guerra / e a vida só se conquista / com a morte… / na esperança de recuperar / o meu mar!
Xanana Gusmão – Timor

Corpo Moreno
… / como a minha ilha é o teu corpo mulato / tronco forte que dá / amorosamente ramos, folhas, flores e frutos / e há frutos na geografia de teu corpo / … / és tu minha ilha e minha África / forte e desdenhosa dos que te falam à volta.
Francisco José Tenreiro – São Tomé e Príncipe

Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.
Fernando Pessoa – Portugal

Ilha
Tenho a sede das ilhas / e esquece-me ser terra / meu amor, aconchega-me / meu amor, mareja-me / depois, não / me ensines a estrada. / A intenção da água é o mar / a intenção de mim és tu.
Mia Couto – Moçambique

O Cantar Miserável da Noite no Cais
… / barco veio: de onde? / Não interessa saber irmão / não interessa. / Se cais não houvesse / gente anónima não tinha no cais / nunca / nunca gente poderia ouvir / a história que mar salgado deveria contar.
Pascoal D’Artagnan Aurigemma – Guiné Bissau

Poemeto Erótico
… / a todo o momento o vejo… / teu corpo… a única ilha / no oceano do meu desejo… / teu corpo é tudo o que brilha, / teu corpo é tudo o que cheira…  / rosa, flor de laranjeira…
Manuel Bandeira – Brasil

Na Leveza do Luar Crescente
A nossa terra / é um imenso oceano tropical / que do Índico ao Atlântico / a gente devagar / vai contornando em jangada / de vento e saudade / pelo tamanho do mar
Arlindo Barbeitos – Angola

Ilha
De manhã! As crianças da minha pátria / nascem / com oásis na palma da mão / e plantam ilhas / na boca do sol
Corsino Fortes – Cabo Verde

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Mais Poesia em Bancos de Jardim

Promovidos pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Junta de Freguesia de Santo António encontramos dois outros locais onde se encontra poesia em bancos de jardim. 

Largo do Corpo Santo

No Largo do Corpo Santo, entre o Cais do Sodré e a Ribeira das Naus, existem mais 5 bancos com poesia.
Largo do Corpo Santo

No Largo do Corpo Santo, entre o Cais do Sodré e a Ribeira das Naus, existem 5 bancos com poesia. Foram instalados por iniciativa da CML em 2017 e as frases pertencem a diversos poemas da Mensagem de Fernando Pessoa.

“Hoje a vigília é nossa”
in Mensagem – D. Afonso Henriques

“Busca o oceano por achar”
“É a voz da terra ansiando pelo mar”
in Mensagem – D. Dinis

“As nações todas são mistérios”
in Mensagem – D. Tareja

 “Aqui ao leme sou mais do que eu”
in Mensagem – O Monstrengo

Jardim do Torel

Jardim do Torel com vista para a Praça do Comércio. Lá existem mais 18 bancos com poesia.
Jardim do Torel

Da iniciativa da Junta de Freguesia de Santo António encontramos, desde 2020, gravados em 18 tradicionais bancos de jardim, poemas de autores de língua portuguesa.

Ali estão presentes os nomes de escritores consagrados e autores teatrais, poemas mais e menos conhecidos, estrofes que nos fazem cantar temas que evocam Lisboa.

Camões; Fernando Pessoa; Florbela Espanca; Eduardo Damas; Ary dos Santos; Carlos Dias; Aníbal Nazaré; João Monge e os brasileiros Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade têm poesia em bancos de jardim.

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Camões

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!
Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas
Fernando Pessoa

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar, Aqui…além…
Mais Este, Aquele o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Florbela Espanca

João de Deus, o A, E, I, O, U
São Nicolau que era escola antiga
Em ti cresci e só em ti estou bem
Minha Lisboa, Lisboa velha amiga
Eduardo Damas

Lisboa sim…
Lisboa velha amiga
Tu é que embalas meu sonho, minha esperança
Tu és cidade, a eterna menina
Eu sou em ti a eterna criança
Eduardo Damas

Lisboa sim…
Lisboa velha amiga
da Brasileira que havia no Rossio
e onde o Botto dizia p’ros amigos
os belos versos que alguém jamais ouviu
Eduardo Damas

Brinquei contigo no Largo dos Trigueiros
primeiros passos eu dei p’la tua mão
com a tarde p’lo Terreiro do Paço
Li na cartilha a primeira lição
Eduardo Damas

Banco de jardim com poesia de Aníbal Nazaré, noJardim do Torel

Minha laranja amarga e doce
Meu poema
feito de gomos de saudade
Minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura
Ary dos Santos

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar
Ary dos Santos

Sei meu amor inventado que um dia
teu corpo pode acender
uma fogueira de sol e de fúria
que nos verá nascer
Ary dos Santos

Lisboa andou de lado em lado
Foi ver uma toirada, depois bailou, bebeu
Lisboa ouviu cantar o fado
rompia a madrugada quando ela adormeceu
Carlos Dias

Nesta Lisboa que eu amo
sinto o mar em cada esquina
Esta Lisboa tem ondas
no andar de uma varina
Aníbal Nazaré

Cidade tão antiga, cidade amiga,
modesta e bela,
varia com as marés
e tem o Tejo a seus pés a chorar de amor por ela
Aníbal Nazaré

São os loucos de Lisboa
que nos fazem duvidar
a terra gira ao contrário
e as ondas nascem no mar
João Monge

De tudo ao meu amor serei atento
antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento
Vinicius de Moraes

E nosso amor que brotou
do tempo não tem idade
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade
Carlos Drummond de Andrade

Ela viu, pensou, gostou
Ele fez
Ela sorriu e chorou
Autor desconhecido (excepto para ela)


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