O Sítio do Cais do Sodré, Origem e Vivências

Area of Cais do Sodré: bird’s-eye view of the riverside and the Roque Gameiro Garden
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getLISBON convida… inicia as suas publicações com uma das crónicas dedicadas à Lisboa Ribeirinha, da autoria de um amigo e colaborador desde o primeiro momento.
Em Lisboa em Nós de Luís Bayó Veiga, este coleccionador revelou-nos a sua paixão por esta cidade. Agora partilha connosco a sua faceta de investigador através de uma descrição do sítio do Cais do Sodré, as suas origens e vivências, devidamente ilustrada com bilhetes postais do seu rico espólio.
Com este conhecimento ficamos a compreender como a Praça Duque da Terceira, conhecida por Cais do Sodré, juntamente com a sua envolvente, se desenvolveu como ponto de encontro, passagem e cruzamento de diferentes gentes, lugar que une a cidade e o Tejo, referência da noite e boémia lisboeta…

Não deverá certamente haver ninguém (lisboeta ou não), que viva ou trabalhe na Capital ou já a tenha visitado, que não tenha ouvido falar do sítio do Cais do Sodré e do seu Largo.

Situado à beira-rio, o Cais do Sodré compreende uma vasta área limitada a nascente, pela extrema que une o Largo do Corpo Santo, até onde há poucos anos se localizava a estação fluvial dos ferryboats, e a poente pela extrema que vai da Praça de S. Paulo à estação do caminho-de-ferro, vulgarmente conhecida por Estação do Cais do Sodré. A norte este largo é limitado pelas ruas de Corpo Santo, Bernardino Costa e de S. Paulo e a sul pelo rio Tejo, no troço compreendido entre a extinta estação fluvial e o local então designado pela Ribeira Nova.

Porém e em rigor, o topónimo “Cais do Sodré” não corresponde de facto, ao espaço acima descrito, antes sim e por edital camarário, respeita ao troço público ribeirinho que vai da Praça Duque da Terceira (o verdadeiro nome desta vasta área circundante), e termina na extremidade do Largo de Corpo Santo.

No âmbito desta pequena crónica, em consonância com a tradição oral e a gíria comum, utilizaremos para o descrever, a designação de Largo do Cais do Sodré.

Para quem não saiba, a designação de Cais do Sodré apenas surge a partir do terramoto de 1755, quando, sob o comando do Marquês de Pombal, se iniciaram as obras de reconstrução da cidade, em particular nesta zona ribeirinha.

Mas qual a Origem do Nome “Cais do Sodré”? 

Segundo Júlio Castilho (1840-1919), distinto olisipógrafo, o topónimo “Sodré” era já conhecido desde o séc. XV e provinha de uma família de origem inglesa ali residente, da qual António e Duarte Sodré Pereira Tibau, herdeiros de Frederico Sodré (1432-1481), eram proprietários de diversos imóveis localizados no sítio e nas redondezas.

Uma outra origem daquele nome foi defendida pelo escritor e historiador Silva Túlio (1818-1884), que escreveu a propósito, ser o nome “Sodré” proveniente de Vicente Sodré, descendente de Fradique Sodré (séc. XVI), homem que na época possuía elevado poder financeiro e que no local mandou edificar vários prédios.

Seja como for, as designações do sítio e do Largo do Cais do Sodré enraizaram-se na voz do povo e resistiram até aos dias de hoje.

O Sítio dos Remolares

Antes do terramoto, neste local ribeirinho e marítimo, as águas do rio penetravam terra adentro formando uma enseada com areal.

Era então conhecido pelo Sítio dos Remolares, talvez porque por ali existiam vários artífices que se dedicavam a fabricar remos para as embarcações.

Com a urbanização prevista no plano de reconstrução de Lisboa, a cidade foi dividida em Bairros, tendo este local ficado incluído no bairro dos Remolares.

Mercê dos aterros feitos, alargaram-se os chãos formando-se um vasto espaço em forma de largo ao qual foi dado o nome de Praça dos Remolares.

Todavia, como esta zona era já anteriormente chamada de Cais do Sodré, passou aquele largo durante alguns anos mais, a ter simultaneamente as duas designações. O topónimo Remolares foi gradualmente ficando esquecido da memória popular mas mantém-se presente nas Travessa e Rua dos Remolares, artérias localizadas nas proximidades.

Primeiros Arranjos Urbanísticos

Em 1849 esta praça depois de devidamente terraplanada, foi empedrada com desenhos a preto e branco e arborizada à sua volta, sendo colocado ao seu centro, um pedestal feito em pedra-lioz, servido por escadaria circular, e sobre o qual foi colocado um quadrante horizontal, designado pela “Meridiana dos Remolares ou do Cais do Sodré” que não era mais do que um relógio de Sol e que ali esteve até 1874.

Em 1907, foi inaugurada a sede da Administração Geral do Porto de Lisboa, (AGPL), que se localizava num edifício construído sobre estacaria à beira Tejo, situado na esquina entre o Largo do Cais do Sodré e o início da Rua da Ribeira das Naus. Na periferia, foi construída em alvenaria, em 1914, uma guarita onde se instalou um relógio mecânico para serviço público.

No ano seguinte, o relógio passou a estar ligado directamente por cabo eléctrico ao Observatório Astronómico de Lisboa, situado na Tapada da Ajuda, passando a informar a “Hora Legal”, que foi instituída por DL nº 1469 de 30 Março 1915.

Esteve em funcionamento até 2001, embora deixando de servir como “Padrão da Hora Legal” sendo substituído por relógio análogo de quartzo com elevada exactidão de leitura das horas para informação pública, o qual continua a funcionar até ao presente.

Cais do Sodré: Relógio

Em 1877, ao centro da praça, foi inaugurado o monumento com a estátua em bronze do Duque da Terceira, da autoria de José Simões de Almeida (Tio), em homenagem a um dos heróis das Guerras Liberais que se verificaram entre 1828 e 1834.

Nos terrenos conquistados ao rio após as obras do aterro, e em frente àquele monumento, criou-se um jardim chamado de Jardim do Cais do Sodré e no qual em 1915, foi colocada uma estatuária, baptizada “Ao Leme”, da autoria do escultor Francisco Santos.

Com o findar da Primeira Grande Guerra, este jardim passou a denominar-se Jardim dos Aliados.

A partir de 1934, mudou novamente de nome para Jardim Roque Gameiro, em homenagem ao grande aguarelista que dedicou grande parte da sua obra a pintar cenas e locais de Lisboa e que viria a falecer em 1935.

O Crescente Dinamismo

Paredes meias com a então designada Ribeira Nova e o mercado da “Praça da Ribeira”, (1892), e a meio caminho do Chiado pela Rua do Alecrim (aberta após 1755) e da Baixa pela Rua do Arsenal e Praça do Município, o Largo do Cais do Sodré veio a ganhar crescente dinamismo e importância local sobretudo a partir do último quartel do séc. XIX, mercê do seu grande movimento marítimo de chegadas e partidas que ocorriam nos cais de acostagem ali bem próximos, começando a aparecer quer no Largo quer nas ruas circundantes, diversas agências de navegação e estabelecimentos de aprestos marítimos.

No limiar de oitocentos, era já intensa a vivência diária partilhada entre o deambular e os pregões das ovarinas que se abasteciam ou mercavam peixe na Ribeira Nova, e o misturar de gente em passagem ou trabalhadora na faina da pesca ou nos armazéns ribeirinhos e ainda pela marinhagem estrangeira proveniente dos navios e veleiros que por ali atracavam.

Foram assim surgindo como cogumelos, os botequins, bilhares, casas de pasto e os lupanares, locais de tertúlias, diversão mas também de estúrdia e de vício a que se juntava uma efervescente vida nocturna repartida pelos bares, “cafés das lepes” e bordéis onde proliferavam o vício, a batota, a prostituição e muitas vezes o crime…

Sugerimos a leitura do artigo A Arte e o Design nos Quiosques WC de Lisboa sobre o curioso equipamento urbano que se encontra no Jardim Roque Gameiro.

Cafés, Hotéis e Tertúlias

Antigos postais que ilustram bares que existiam na zona de Cais do Sodré

Ficaram para sempre registados nos jornais da época e livros de memórias, referências de algumas casas que acabaram por fazer parte da história local de Lisboa, referindo-se entre as mais antigas, o “Botequim dos Macacos” (1780), o “Café do Grego” (1809), o “Café da Marinha” (1816) entre outros mais, sobretudo porque foram objecto de testemunhos, de vivências, ocorrências, e recordações de algumas personagens que viveram na Lisboa daquele tempo.

Ao longo do séc. XIX, foram surgindo várias dezenas de hotéis e hospedarias, destacando-se entre outros que então existiram, o Wellington Hotel (1816), Hospedaria Estrela Branca (1835), Hotel de France (1838), Hospedaria Madame Júlia (1842), Hotel Braganza (1870), Hotel Giovetti (1871), Hotel Atlântico (1880), Hotel Veneza (1882), Grande Hotel Central (1890) e já em 1900, o Hotel Viana, que terá sido dos últimos a instalar-se na zona local.

De todos eles, o mais famoso foi sem dúvida o “Grand Hotel Central”, que se localizava em pleno Largo do Cais do Sodré, ocupando um enorme prédio com nº 27.

Neste hotel hospedaram-se reis, príncipes e personalidades relevantes, ligadas à vida comercial, social e mundana na época.

O seu “restaurant” foi palco de muitas reuniões de homens de negócio e de tertúlias literárias e das artes.

Era hábito ali se reunirem no final de oitocentos, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Conde de Ficalho, Lima Mayer, que entre outros, fizeram parte do famoso Grupo “Os Vencidos da Vida”.

Mas seria na crónica e no romance de Lisboa, que o Grand Hotel Central se tornou célebre, ficando o seu nome gravado em páginas de ouro em alguns dos romances de Eça, sendo disso exemplo, “O Primo Basílio” e “Os Maias”.

Fechou portas em 1919, (quando muitos dos outros hotéis já tinham desaparecido) e no mesmo edifício nos dias de hoje, funcionam, escritórios e uma agência de viagens.

Entre muitos cafés que existiram por todo o Cais do Sodré, refere-se como curiosidade, o Café Royal, inaugurado em 1906 e que se situava no Largo do Cais do Sodré, mesmo na esquina direita donde começa a subida da Rua do Alecrim, e no qual o pintor Columbano (1857-1929), costumava ir almoçar nos últimos anos da sua vida com a sua esposa. 

Cais do Sodré, Local de Chegadas e Partidas

No decorrer dos anos, o Cais do Sodré e suas envolventes, foram palco de múltiplos eventos, inaugurações e melhoramentos.

Alguns desses momentos foram já objecto de referência nesta crónica, mas outros mais, pela sua importância na época, têm cabimento aqui referenciar.

Em 1896, é inaugurado o trajecto do caminho-de-ferro entre o Cais do Sodré e Pedrouços, mas só em 1926 é que surge o edifício da estação do Cais do Sodré, como hoje o conhecemos, com o risco da autoria do arquitecto Pardal Monteiro.

Em 1899 instala-se o “Chalet da Parceria”, localizado a meio caminho da Ribeira das Naus, local de chegadas e partidas dos “vapores” entre Lisboa e Cacilhas.

Alguns anos depois, em 1904, o “Chalet” foi substituído pela “Estação da Parceria dos Vapores Lisbonenses”, esta já localizada quase em frente ao Jardim Roque Gameiro.

Cais do Sodré: Praça Duque da Terceira e Rua Nova do Carvalho (conhecida como Rua Cor de Rosa)

Local de intenso movimento pendular dos que vão e regressam do trabalho, eixo importante do vaivém dos mais diversos meios de transportes, manutenção da sua referência marítima costeira dos seus cais e ainda pólo de atracção nocturna pelos seus bares, da boémia e diversão, mantendo ainda a sua traça secular e a sua graça peculiar, o Cais do Sodré continuará a ser assim conhecido e referenciado, desde que há 250 anos pela primeira vez se lhe deu o nome que define este espaço incontornável na história e na vida de Lisboa…

Leia também outros artigos deste autor:
Os 100 Anos do Parque Mayer – Histórias, Vivências e Memórias
Breve História das Embarcações do Estuário do Tejo

Fontes:
ARAÚJO, Norberto, Peregrinações em Lisboa, Livro XIII, Editora Vega, Lisboa 1993.
CARVALHO, Pinto (TINOP), Lisboa de Outros Tempos – Os Cafés, Fenda, Edições Lda, Lisboa 1991. 
CONSIGLIERI, Carlos e ABEL, Marília, O Cais do Sodré em Bilhete Postal antigo, Livros Horizonte, Lisboa 2004.
FRANÇA, José-Augusto, Lisboa – História Física e Moral, Livros Horizonte, Lisboa 2008.
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo, Dicionário da História de Lisboa, Ed. Carlos Quintas & Assoc., Lisboa 1994.
TAVARES, Marina, Lisboa Desaparecida, vol.III, Quimera, Lisboa 2001.
VEIGA, Luis Filipe Bayó – Arquivo pessoal.

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