Brotéria: uma casa aberta à cidade no coração do Bairro Alto

Brotéria: Uma Casa Aberta à Cidade no Coração do Bairro Alto

É com enorme satisfação que partilhamos com os nossos leitores este artigo realizado pela equipa técnica da Brotéria para a nossa rubrica getLISBON convida. Através dele ficaremos a conhecer esta casa aberta à cidade, que muitos se lembram como Hemeroteca Municipal, e que hoje reúne no mesmo espaço: pensamento, cultura e espiritualidade.

No Bairro Alto, entre ruas marcadas por séculos de história e vivências, existe um lugar onde o pensamento, a cultura e a espiritualidade se encontram de forma discreta, mas profunda. A Brotéria é hoje uma casa aberta à cidade, mas a sua história começa muito antes de ocupar o Palácio dos Condes de Tomar.

Com mais de 120 anos, a Brotéria não é apenas uma revista ou um centro cultural: é um projeto que atravessa diferentes épocas, acompanhando as transformações da sociedade e afirmando-se como espaço de reflexão e diálogo.

De Revista Científica a Referência Cultural

A Brotéria nasceu em 1902, fundada por três professores jesuítas no Colégio de São Fiel, em Louriçal do Campo: Joaquim da Silva Tavares, Cândido de Azevedo Mendes e Carlos Zimmermann. Inicialmente intitulada Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes, tinha como objetivo principal a divulgação e investigação científicas desenvolvidas no seio da Companhia de Jesus. O gesto não foi apenas académico. Num contexto em que a Igreja era frequentemente criticada pelo pensamento positivista, os jesuítas procuravam demonstrar que ciência e fé podiam coexistir. Estudar a natureza era, para estes padres jesuítas, também uma forma de compreender o divino.

Durante décadas, a secção científica revista destacou-se na investigação científica, publicando centenas de artigos e contribuindo para a identificação de novas espécies. O seu reconhecimento ultrapassou fronteiras, integrando redes internacionais de divulgação científica. Ao longo do século XX, a revista publicou um número significativo de trabalhos científicos. Entre 1902 e 2002, foram editados mais de mil artigos, com destaque para áreas como botânica, zoologia, bioquímica e genética. Nesse período, foram descritas centenas de novas espécies, contribuindo para o avanço da ciência em Portugal e para o reconhecimento internacional dos seus autores.

Paralelamente, entre 1907 e 1924, surgiu uma série dedicada à divulgação científica, escrita em português e destinada a um público mais amplo. Esta iniciativa tinha também uma função prática: garantir sustentabilidade financeira às publicações mais especializadas.

Mas a Brotéria não ficou confinada ao laboratório.

Em 1925, iniciou-se uma nova fase com a criação da Brotéria Cultural. A partir de então a revista alargou o seu âmbito às humanidades – literatura, filosofia, história, teologia – tornando-se um espaço privilegiado de pensamento crítico em Portugal. Foi neste sentido que, ao longo do século XX, a crítica literária assumiu particular relevância. Muitos destes textos não se limitavam a analisar obras: ajudavam a formar leitores, a lançar autores e a estimular o debate cultural em âmbito nacional. Nomes centrais da literatura portuguesa passaram pelas páginas da Brotéria, num diálogo que marcou gerações. Escritores como Vergílio Ferreira, Sophia de Mello Breyner Andresen ou Alves Redol mantiveram relações próximas com a revista.

Uma Nova Vida no Bairro Alto

Em 2020, a Brotéria ganhou uma nova dimensão ao instalar-se no Bairro Alto, integrando o projeto multicultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa neste espaço da cidade. A revista mantém-se, mas surge agora acompanhada por um centro cultural que prolonga a sua missão.

Aqui, a reflexão escrita convive com exposições, debates, encontros e momentos informais. A programação nasce do diálogo com a cidade e procura responder às questões do presente, sem perder a profundidade que caracteriza o projeto desde a sua origem.

Mais do que um espaço institucional, a Brotéria – Associação Cultural e Científica apresenta-se como uma casa. Uma casa com várias entradas: a revista, a biblioteca, a galeria, a livraria e o café. Diferentes formas de chegar ao mesmo lugar – o encontro entre pensamento e experiência – o lugar onde a fé e as culturas urbanas e contemporâneas podem dialogar.

O Palácio dos Condes de Tomar

O edifício que hoje acolhe a Brotéria é, por si só, um testemunho da história de Lisboa.

Situado numa zona que, até ao século XVI, era ocupada por olivais pertencentes ao Convento da Trindade, o palácio foi sofrendo transformações ao longo dos séculos. Passou por diferentes proprietários e usos – espaço comercial, tribunal eclesiástico, residência, sede do Royal British Club e Hemeroteca Municipal – refletindo as mudanças da cidade. Após o terramoto de 1755, sofreu danos significativos, sendo posteriormente reconstruído e adaptado. No século XIX, ganha o nome pelo qual é hoje conhecido, associado à família dos Condes de Tomar. E é já em 2012, que o espaço passa a pertencer ao património da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que promoveu um cuidadoso processo de reabilitação e restauro, permitindo devolver o edifício à cidade com uma nova função cultural.

Um Percurso entre Arte, História e Pensamento

Entrar na Brotéria é hoje, por várias razões, o início de um percurso onde a arquitetura, a memória e a reflexão se cruzam de forma contínua. Logo à entrada, as portas verdes abrem-se para uma escadaria nobre em mármore que estrutura a experiência do visitante. Elementos escultóricos e decorativos evocam temas simbólicos – como a luta entre o bem e o mal – enquanto tetos e paredes revelam uma ornamentação detalhada, com medalhões e motivos que remetem, entre outros, para as estações do ano.

Este primeiro contacto estabelece o tom: um espaço onde cada elemento transporta significado e onde diferentes camadas históricas convivem.

A travessia faz-se naturalmente pela livraria SNOB, pensada como lugar de passagem e descoberta. Aqui convivem edições contemporâneas com livros em “segunda mão”, prolongando a tradição de circulação de ideias. Ao lado, a galeria afirma-se como espaço de experimentação artística, propondo um diálogo aberto entre arte contemporânea, espiritualidade e questões sociais. A programação privilegia abordagens diversas, incentivando novas formas de olhar e interpretar o mundo. A coleção de arte permanente da casa, composta maioritariamente por artistas portugueses, reforça esta dimensão. Mais do que um conjunto expositivo, esta constitui um convite à contemplação e ao questionamento, visto que as obras, distribuídas pelos vários espaços, invocam à introdução de momentos de pausa e atenção, contribuindo para uma experiência simultaneamente estética e reflexiva no espaço e no momento.

Salas com Memória

No piso superior, o percurso continua por salas que preservam a identidade do antigo palácio. Os tetos decorados, com cenas e elementos simbólicos, revelam influências românticas típicas do século XIX e sugerem interesses ligados ao comércio, à indústria e à navegação – refletindo o contexto histórico dos antigos proprietários. Hoje, estas salas estão abertas ao público, funcionando como espaços de trabalho, encontro e permanência. Cada uma guarda uma narrativa própria.

A Sala Brotéria-Genética evoca o contributo científico da revista, homenageando o padre jesuíta Luís Archer e a introdução da genética molecular em Portugal. A peça artística presente na sala explora a relação com a luz, elemento central na sua leitura.

A Sala Aula da Esfera remete para a tradição científica dos jesuítas, inspirando-se num dos mais importantes centros de ensino científico em Portugal entre os séculos XVI e XVIII. A decoração incorpora elementos simbólicos associados à atividade económica e social, sublinhando a ligação entre conhecimento e mundo prático.

Já a Sala Homem Espuma, inspirada no pensamento do P. Manuel Antunes SJ, propõe uma reflexão sobre a condição humana contemporânea. Antiga sala de música, o espaço, conserva ainda referências decorativas a esse uso, incluindo representações de instrumentos. A partir daqui acede-se a um pequeno oratório, onde vitrais e simbologia litúrgica dialogam com a presença de arte contemporânea, cruzando a tradição espiritual e a expressão atual.

A Sala Casa de Escritores remete para a tradição jesuíta das comunidades religiosas cujo fim é a produção intelectual. O espaço é decorado com técnicas antigas de couro brocado e pintado (guadamecil), um exemplo raro desta técnica ainda existente em território nacional. Entre as decorações encontram-se a representação do brasão da família Costa Cabral que habitou o espaço até à implantação da República em 1910.

O Páteo das Cecídias 

No centro do edifício, o pátio introduz uma dimensão mais informal no percurso. Construído sobre uma antiga cisterna – um dos elementos mais antigos do palácio – mantém uma ligação discreta ao passado, ao mesmo tempo que se abre ao presente.

Hoje, este é um espaço de permanência e encontro. Aqui funciona o Clara Café, pensado para acompanhar o ritmo do dia – do pequeno-almoço às pausas prolongadas da tarde. A proposta valoriza a sazonalidade e a origem dos produtos, oferecendo uma abordagem contemporânea, consciente e confortável.

Biblioteca: Memória Viva

A biblioteca da Brotéria constitui um dos núcleos mais relevantes deste projeto. Com um vasto acervo de livros e revistas acumulado ao longo de décadas da história da Brotéria, a biblioteca é especializada em áreas como a história da Companhia de Jesus, filosofia, teologia, literatura, arte e política. Durante muito tempo reservada à comunidade jesuíta, a mesma foi sendo progressivamente aberta, tornando-se hoje um espaço acessível ao público para leitura e investigação presencial. Mais do que um arquivo, é um lugar vivo de conhecimento, em constante crescimento. Recentemente, foi distinguida pelo trabalho de preservação e restauro do seu património – com o Prémio Gulbenkian Património Maria Tereza e Vasco Vilalva 2024 –, revelando e contribuindo, deste modo, para o reforço do papel da Brotéria como um importante centro cultural e intelectual na cidade.

Uma Casa para Lisboa

Mais do que um espaço físico, a Brotéria é hoje um lugar de encontro. Entre passado e presente, entre ciência e cultura, entre fé e pensamento contemporâneo.

No Bairro Alto, um espaço marcado pela intensidade da vida urbana, esta casa oferece algo diferente: tempo para pensar, espaço para dialogar e liberdade para explorar.

E talvez seja isso que a torna verdadeiramente singular em Lisboa.

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A Brotéria é uma casa de cultura fundada pelos jesuítas portugueses no Bairro Alto, aberta ao encontro com a cidade. Exploramos inquietações urbanas atuais a partir de múltiplos ângulos e linguagens, de forma rigorosa e profunda: em conversas, exposições, artigos, performances, seminários e workshops. Geramos e acolhemos programação artística, investigativa, discursiva, comunicativa e espiritual.

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