Neste artigo sobre gelados e refrescos, bem a propósito neste Verão quente que atravessamos, Luís Bayó Veiga propõe-nos uma visita a um passado mais ou menos distante onde ficamos a conhecer, ou recordamos, hábitos de consumo lisboetas.
Será entre o final do século XIX e o início do século XX, que o consumo de gelados e refrescos, naturais ou refrigerantes gaseificados açucarados, ganharão maior divulgação, passando a fazer parte dos hábitos lisboetas como forma de enfrentar o calor do Verão.
Hoje, vestígios do gelo e da neve perduram no nome de estabelecimentos, como o caso do antigo Café Gelo (actualmente Gelo Cervejaria e Marisqueira), ou em publicidade gravada nas paredes da cidade, como a referência à neve numa esquina da Rua da Prata onde se situava a Pomona…
Marcas comerciais de gelados e refrescos influenciaram gerações e, apesar de muitas já terem desaparecido, continuam na memória dos mais velhos, em registos fotográficos e na publicidade da imprensa da época.
Neve, Sorvetes e Gelados

Numa época em que ainda não existia o fabrico de gelo industrial, a neve natural e o gelo eram já utilizados em locais onde não nevava como Lisboa.
Desde o século XVII que este produto chegava à capital proveniente das serras da Estrela e da Lousã, tendo sido construída em meados de setecentos na serra de Montejunto, a Real Fábrica do Gelo, local que ainda hoje apresenta os tanques de recolha de neve e gelo e os depósitos de armazenamento, especialmente preparados para a sua conservação prolongada.
A neve e o gelo, transportados então pelo Tejo em embarcações tradicionais, chegavam a Lisboa onde eram utilizadas para fins medicinais nos hospitais e para a elaboração de gelados e bebidas.
Todo este processo era complexo sendo por isso este um bem caro, não acessível a todas as bolsas. Assim, consumia-se sobretudo na Casa Real e nas casas de famílias mais abastadas ou em estabelecimentos de referência, como o Martinho da Arcada no Terreiro do Paço também conhecido como “Casa da Neve” e mais tarde no Café Gelo no Rossio, na Casa Ferrari no Chiado ou na Pomona na Rua da Prata.

Primeiro conhecidos por neve e mais tarde popularmente apelidados de sorvetes, os gelados eram preparados misturando-se neve com sumos de fruta e açúcar, formando um refresco gelado que só mais tarde com a introdução do leite evoluiu para a forma como hoje o conhecemos.
A grande transformação ocorreu já durante os anos 30 do século XX, com o advento das fábricas de gelados em Lisboa. Uma das primeiras fábricas de indústria artesanal, situava-se nas imediações do Arco Cego, na Rua Dona Estefânia denominada A Sibéria, que lançou a marca Esquimaux, que rapidamente se aportuguesou como Esquimó.
Esta fábrica foi uma das primeiras a introduzir os gelados de pauzinho e de barquilho (cone de bolacha), que eram vendidos na própria fábrica e de forma ambulante nas lendárias arcas brancas velocípedes, com a palavra Esquimaux em letras gordas…

Tão popular se tornou a marca de gelados Esquimaux/Esquimó, que durante largos anos fez parte das memórias saudosistas dos alfacinhas, chegando mesmo a servir de tema para uma Revista à Portuguesa com o título “Esquimó Fresquinho”, estreada em 16 Julho 1949, no Teatro Maria Vitória, no Parque Mayer.

Ainda na mesma época, duas outras marcas de gelados eram também muito apreciadas: Nevado e Iceberg.

Simultaneamente, começam a aparecer as primeiras gelatarias italianas em Lisboa, com máquinas e receitas inovadoras massificando o seu consumo.
Destas, destaca-se A Veneziana, a primeira a abrir portas em 1936, situada num recanto da Praça dos Restauradores, e ainda hoje a funcionar.

Com o tempo, a venda de gelados, na temporada de Verão, foi-se espalhando pela cidade, com o surgimento de novas fábricas e o lançamento de novos tipos e formatos.
Em 1958 a venda ambulante de gelados avulso foi proibida, abrindo espaço para as recentes grandes indústrias dominarem por completo o mercado.
Uma das primeiras marcas de gelados industriais embalados, sediada em Lisboa, criada nos anos 50, e que, apesar de já desaparecida, ficou para sempre na memória dos lisboetas, foi a icónica Rájá.
E se até então ainda se ouvia pela cidade, na canícula do Verão, o antigo vendedor de gelados, apregoar Esquimó fresquinho, surge o novo pregão cantante: Olhó Rájá fresquinho e a expressão “vamos comer um Rájá” na vez de “vamos comer um gelado”.
Nos anos 70 e 80 surgiram novas gelatarias nas então zonas da cidade em voga, como o bairro de Alvalade tornando-se o hábito de comer gelados em copo com colherzinha de madeira e depois de plástico uma verdadeira moda, comprovada nas filas que então se formavam à porta destes estabelecimentos.
Água, Refrescos e Refrigerantes

A água disponível em fontes, chafarizes e até em fontanários-bebedouros para animais, saciava a sede a todos, inclusive aos mais humildes. Estes equipamentos, espalhados pela cidade, forneciam água que era distribuída por aguadeiros para o consumo doméstico ou a vendiam a copo.
Também as águas minerais de Caneças, Sintra e Moura, com afamadas propriedades benfazejas eram comercializadas na capital, sendo talvez o ponto de venda mais famoso a Tabacaria Mónaco, ainda presente no Rossio, que as conservava em bilhas de barro onde se mantinham frescas e saborosas.
A venda de bebidas, ambulantes ou em estabelecimentos como cafés, tasquinhas, casas de pasto ou quiosques, era uma constante nas ruas da cidade. A fim de combater a sede e o calor, os lisboetas recorriam, para além do vinho e da cerveja, a refrescos típicos, simples e caseiros como o mazagran (café, limão e gelo), o capilé (feito a partir de folhas de avenca), a groselha, a limonada e outros preparados à base de xaropes naturais, água fresca e gelo.

O primeiro refrigerante produzido e comercializado em Portugal, foi a Laranjada Madeirense, lançada em 1872, recordando-se ainda a Laranjina C, que data da 2ª metade da década de 40 e que obteve um estrondoso sucesso na sua icónica garrafa em forma de citrino.
Também foram muito populares as gasosas de diversas marcas mas que vendidas em garrafas com rolha em esfera de vidro constituíam os inesquecíveis pirolitos que faziam as delícias das crianças.
Ainda nos dias de hoje, se mantém o prazer de saborear numa esplanada, gelados e refrescos como uma boa limonada, ou um capilé e, um pouco mais esquecida, uma groselha, vendidas sobretudo nos quiosques lisboetas, mas também disponíveis em xaropes concentrados, em garrafas para levar para casa, que exibem belíssimos rótulos nostálgicos, evocando o valor afectivo e a tradição popular alfacinha.
O autor agradece a colaboração da getLISBON na elaboração deste artigo.
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Luís Bayó Veiga
Curioso e amante da cidade de Lisboa, onde nasceu em 1948. Residente em Almada.
Coleccionador de Banda Desenhada antiga portuguesa e de Postais Ilustrados sobre Lisboa, com milhares de exemplares nas suas colecções. Possui ainda um acervo significativo de livros, jornais, revistas e complementos, relativos à cidade.
Autor de alguns livros sobre memórias e história local de Cacilhas e Almada. Co-autor de mais de uma dezena de documentários sobre aspectos de Lisboa antiga em suporte multimédia.
Sócio do Grupo dos Amigos de Lisboa.
Frequentador assíduo de conferências, colóquios e outros, organizados por diversas entidades públicas e privadas, no âmbito da Olisipografia.
Licenciado em Engenharia Química pelo IST e duas Pós-graduações pelo ISCTE.