Março 28, 2018 getLISBON 0Comment

As estátuas do jardim da Praça de Londres (Jardim Irmã Lúcia), junto à Igreja de São João de Deus, não estiveram sempre nesse sítio. Tem ideia de onde elas vieram?

Se conheceu o Cine-Teatro Monumental, muito provavelmente lembra-se destas esculturas. Mas quem pertence a uma geração mais nova ou quem nos visita, pode não saber a história que elas têm para nos contar.

Cine-Teatro Monumental

As estátuas que referimos faziam parte da fachada de um dos mais emblemáticos e modernos cine-teatros de Lisboa, o Cine-Teatro Monumental. Localizava-se onde hoje se encontra o Centro Comercial Dolce Vita Monumental, na Praça do Duque de Saldanha, na zona das Avenidas Novas.

Apesar de o actual edifício ter herdado o nome do seu antecessor e continuar a funcionar com salas de cinema, não há comparação possível com a antiga casa de espectáculos.

Cine-Teatro Monumental
Bilhete Postal – Cine-Teatro Monumental, Praça do Duque de Saldanha

O Cine-Teatro Monumental foi projectado pelo arquitecto português Raúl Rodrigues Lima (1909-1980) e inaugurado em 1951.

Era um edifício que inspirava monumentalidade, de traços austeros e clássicos, de estética modernista característica do Estado Novo. A sua fachada era revestida de pedra e no topo de uma das esquinas ostentava uma esfera armilar, símbolo do império português, muito adoptado pelo regime da altura.

A nível de cinema e teatro era o maior complexo existente em Lisboa. Dispunha de um grande e luxuoso foyer decorado com mármores e grandiosos lustres ao estilo de Hollywood. Havia duas salas, uma de cinema e outra de teatro, cada uma com capacidade para mais de 1000 espectadores. A de cinema tinha inclusivamente, a mais recente tecnologia utilizada na época, CinemaScope.

Passaram por lá notáveis peças de teatro, revistas, operetas e concertos, protagonizados por artistas nacionais e estrangeiros. Mas a década de 70 marcou o início do declínio deste espaço onde confluíam as artes cinematográfica e da representação.

Após muitos anos de glória e de espectáculos de referência, o Cine-Teatro Monumental não resistiu à mudança dos tempos e das tendências. A ascendência da televisão, salas de cinema mais reduzidas e novos hábitos levaram ao seu encerramento. O valor imobiliário do terreno ditou a muito contestada demolição em 1984.

Estátuas do Jardim da Praça de Londres

Frontaria do Cine-Teatro Monumental
Pormenor da frontaria do Cine-Teatro Monumental ornamentada com as estátuas

As estátuas do jardim da Praça de Londres ornamentavam os dois lados da frontaria do Cine-Teatro Monumental. Trata-se de escultura aplicada, daí o sumário tratamento das costas das figuras, executadas em pedra, com cerca de 3,30 metros de altura, todas figurativas de inspiração clássica. São no total quatro estátuas: um grupo escultórico constituído por um elemento masculino e um feminino, e três figuras individuais femininas que exibem elementos alusivos à arte de representação, máscaras e lira.

A autoria destas figuras é atribuída a Euclides Vaz (1916-1991), premiado escultor modernista português, medalhista e professor. A sua vasta obra encontra-se espalhada por todo o país e pelas antigas colónias portuguesas.

Estátuas do Jardim da Praça de Londres
Estátuas do Jardim da Praça de Londres

As estátuas foram colocadas pela Câmara Municipal de Lisboa no local actual entre 1993 e 1998, no entanto, não sabemos o motivo da escolha deste jardim. Talvez se relacione com a envolvente urbanística que resultou do desenvolvimento urbano dos anos 40/50, mantendo-se assim a coerência estilística do espaço.

Mesmo ao lado deste jardim havia um cinema muito mais recente, igualmente acarinhado pelos lisboetas, o Cinema Londres. Este, infelizmente, também não resistiu às mudanças acedendo à abertura de mais um espaço comercial de quinquilharias.

Estas estátuas constituem a memória de alguns, mas ao saber a sua história, permitem despertar-nos para a importância da preservação de espaços onde o cinema e o teatro podem e devem ser realmente desfrutados.

Cinema e Teatro, um Património a Preservar

Ao longo do séc. XX muitas salas de espetáculos foram demolidas ou destinam-se agora a outras utilizações. São exemplos os casos do Teatro Apolo, demolido em 1957, o Cinema Eden, o Jardim Cinema ou o Cinema Europa. Apesar da consciência da salvaguarda deste património ser actualmente já uma realidade, há ainda muito a fazer.

A requalificação de espaços como o Parque Mayer, apesar das recentes melhorias, ainda carece de solução. Há ainda a lamentar o desaparecimento de grupos de teatro de referência, como recentemente o Teatro da Cornucópia que não sobreviveu à falta de apoios.

Apesar de tudo e a propósito do Dia Mundial do Teatro comemorado no dia 27 de Março, podemos dizer que hoje Lisboa é uma cidade que celebra as artes de representação.

Existem inúmeros grupos de teatro independente que persistem, assim como, empresários do sector que não se cansam de promover esta arte maior e que conseguem manter uma programação regular.

Através da sua agenda, também o Município proporciona aos amantes do grande ecrã e do palco, festivais e mostras de cinema e uma programação permanente em teatros municipais, fazendo resistir as mais antigas e emblemáticas salas de espectáculos.

 

 

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