25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa. Mural de Kruella D’Enfer

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa

Para além de uma expressão artística, a arte urbana tem-se revelado um importante meio de sensibilização e consciencialização para inúmeras questões presentes na sociedade, sobretudo junto das camadas mais jovens. Neste mês em que celebramos a Revolução trazemos-lhe o 25 de Abril na arte urbana de Lisboa. 

No nosso artigo Marcos do 25 de Abril de 1974 em Lisboa referimos a razão pela qual é importante assinalar este dia histórico, mas nunca é demais salientar o primeiro Dia da Liberdade, que proporcionou aos portugueses o acesso à educação, à saúde, ao pensamento livre, à não descriminação e a tantos outros aspectos que nos permitiram evoluir enquanto sociedade e enquanto povo.

Contudo, é importante salientar que a democracia conquistada não é sinónimo de democracia garantida. É necessária uma constante reflexão e alerta…

Para isso, reunimos vários trabalhos sobre o 25 de Abril na arte urbana de Lisboa, que para além de homenagear figuras determinantes e emblemáticas da Revolução, nos levam a pensar sobre conceitos fundamentais dos quais não devemos, de forma alguma, abdicar.

25 de Abril Celebrado na Arte Urbana de Lisboa

Vamos percorrer vários bairros da cidade ao encontro de murais que foram executados por ocasião dos 50 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974.

5 décadas | 5 artistas | 5 murais – Onde Está a Liberdade?

Esta foi uma iniciativa lançada pela GAU – Galeria de Arte Urbana, que convidou cinco artistas urbanos, cujos percursos são representativos das cinco décadas da história da arte urbana em Portugal, a executarem cinco projectos em diferentes locais de Lisboa.

Cada um dos convidados – António Alves, Youth One, +MaisMenos-, Kruella D‘Enfer e Arisca – abordou, segundo a sua perspectiva, o tema do 25 de Abril sob o mote “Onde Está a Liberdade?”.

António Alves

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural de António Alves

António Alves é um muralista que se destacou com as intervenções de resistência e de contrapoder nos anos 70 e 80 do século passado.

Neste seu trabalho, com cerca de 60m de comprimento, localizado na confluência da Calçada dos Mestres com a Avenida Calouste Gulbenkian, podemos observar diferentes secções que retratam momentos representativos da Revolução.

Inicia com a evocação do regime ditatorial, representado por palavras como fome, PIDE ou censura, escritas sobre um fundo negro. Segue-se, a preto e branco, o levantamento da classe operária e uma massa humana que em cima de um tanque festeja a Revolução. Recortes de jornais com manchetes dos primeiros marcantes acontecimentos após a queda do regime emolduram a cena.

O mural transita depois para uma secção colorida alusiva à independência das ex-colónias e ao fim da guerra colonial. Antes da última parte, destaca-se o papel da mulher e a luta de classes em tons de preto, branco e cinza. A obra termina com a inscrição LIBERDADE sobre um fundo vermelho, que António Alves considera encontrar-se hoje, muito maltratada.

Youthone

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural de Youthone

Na Rua B do Bairro da Liberdade, Adalberto Brito aka Youthone – um dos pioneiros do graffiti na década de 90 – apresenta-nos a sua composição constituída por fragmentos da história que marcou a Revolução.

Recorda o regime que aprisionou o país com repressão, controlo, proibição… Evoca momentos de alegria e de liberdade conquistados pelo Movimento das Forças Armadas, a possibilidade de manifestar, o poder do voto e a paz. Contudo, o futuro apresenta incertezas que exigem um caminho a percorrer com coragem, simbolizado por uma criança que enfrenta um túnel escuro, na direcção de um horizonte iluminado.

A Revolução é um processo contínuo que se prolonga no tempo e ainda muito caminho há a percorrer.

+MaisMenos-

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural de +MaisMenos-

Na Av. Almirante Gago Coutinho, junto à Praça Francisco Sá Carneiro, no parque de estacionamento da EMEL temos o mural de Miguel Januário (+MaisMenos-). Este artista urbano que representa, nesta inciativa da GAU, a década de 2000, também participou em “Às 5, no Mercado” – Arte Urbana do Estacionamento do Chão do Loureiro.

Neste caso, a sua abordagem passa por desafiar o público através de um teste de acuidade visual inspirado na Teoria da Relatividade de Einstein. O artista substitui a componente velocidade da luz pela liberdade, esta torna-se o elemento constante na relatividade do tempo e do espaço. “Portanto, quanto mais … nos distanciamos da revolução e do 25 de Abril mais perdemos a verdadeira essência daquilo que foi a revolução e é importante irmos testando a nossa perspectiva…” 

“Vivemos num tempo invertido … bombardeiam-se países em nome da democracia, portanto até que ponto é que a liberdade ou a ideia da liberdade é aquela que nos foi prometida que provavelmente está incumprida, daí temos de olhar com visão.”

Kruella D‘Enfer

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural de Kruella D’Enfer

Para aceder ao mural de Kruella D’Enfer, artista visual que se destacou na década de 2010 em trabalhos de arte urbana, convidamo-lo a visitar o Café da Garagem, no Teatro Taborda, na Costa do Castelo, de onde se alcança uma vista privilegiada sobre o lado norte da Lisboa antiga.

A composição localiza-se nas traseiras do edifício, distribuindo-se por dois níveis de muros e ocupando cerca de 180 m² de área. 

A abordagem proposta pela autora – que também tem obra referida em Arte Urbana de Marvila – consiste em conjugar o conceito da Liberdade ao tema do teatro. A representação é uma forma de expressão artística, comunicação, entretenimento, mas também de reflexão social e de inspiração para gerações. 

Kruella D’Enfer constrói esse caminho através de cores vibrantes, elementos geométricos e vegetalistas, e onde estão presentes o símbolo da paz, máscaras teatrais alusivas ao local e um cravo que brota do pensamento, — como que uma evocação da necessidade de não esquecermos a verdadeira essência da Revolução.

Arisca

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, murais de Arisca

Nos números 66 e 58 da Rua dos Caminhos de Ferro, em Santa Apolónia, podemos encontrar, nas empenas de dois edifícios, as pinturas intituladas Igualdade (esq.) e Sabedoria (dir.) executadas por Arisca, artista que representa a década de 2020.

Em ambas, para além do cravo, símbolo da Revolução, estão figuras que traduzem dois importantes conceitos que a autora explica através das suas palavras:

  • Igualdade (esq.): “Não há liberdade sem igualdade… Acredito que a forma de lá chegar é através da empatia e do discernimento tudo temperado com muito carinho e determinação.”
  • Sabedoria (dir.): “A liberdade só acontece através da busca do conhecimento e informação. A educação e a partilha são essenciais à nossa evolução.”

Celeste Caeiro

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural de SumArtist

O artista urbano do Canadá, Paul Gly-Williams aka SumArtist, executou em 2025 a sua primeira obra na Europa, mais concretamente em Lisboa, na Av. Infante D. Henrique, homenageando uma das figuras emblemáticas da Revolução de 25 de Abril, Celeste Caeiro (1933-2024).

O gesto de oferecer flores aos soldados armados representa, nas palavras do artista, uma “mensagem sobre paz, coragem e transformação”. E também que “a beleza e a empatia ainda podem reescrever a história” que tem sido marcada pela “divisão e agressão”.

50 anos do SPGL

25 de Abril na Arte Urbana de Lisboa, mural colectivo

No prolongamento do mesmo muro onde se encontra a pintura que acabámos de abordar, alunos e professores da Escola António Arroio, em conjunto, com dirigentes do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) realizaram um mural, por ocasião da comemoração dos 50 anos desta organização.

Este proporciona-nos uma leitura evolutiva, que se inicia com elementos alusivos à repressão da ditadura. Os cravos vermelhos, que evocam o 25 de Abril, interrompem este período cinzento seguindo-se as conquistas da Revolução: acesso à educação, maior valorização da profissão dos professores… viver com liberdade.

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Salgueiro Maia

Não pode faltar, neste nosso artigo sobre o 25 de Abril na arte urbana de Lisboa, a homenagem ao Capitão Salgueiro Maia (1944-1992), localizada na Av. de Berna, no muro exterior da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 

Esta obra, referida mais detalhadamente em Personalidades Homenageadas em Arte Urbana de Lisboa, foi executada em 2023, substituindo uma anterior que evocava a mesma personagem mas que já se encontrava em avançado estado de degradação.

O actual mural foi pintado por quatro artistas femininas – Tamara Alves, Sara Fonseca da Graça, MOAMI e Mariana Malhão  –, no âmbito das celebrações dos 50 anos do 25 de Abril e do 45º aniversário da Faculdade.

Em Abril Cravos Mil

Dando continuidade à comemoração dos 50 anos da Revolução, em 2024, a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova voltou a assinalar o 25 de Abril através da arte urbana.

Promoveu um conjunto de actividades que incluíram workshops de stencil que permitiram, com a participação de toda a comunidade, trazer Abril ao muro exterior da Faculdade com a pintura de centenas de cravos vermelhos.

Estas intervenções sobre o 25 de Abril na arte urbana de Lisboa afirmam-se como um testemunho vivo da memória colectiva e um convite permanente à reflexão. Os murais recordam-nos que os valores conquistados em Abril exigem um compromisso contínuo, desafiando cada geração a preservar e a reafirmar o verdadeiro significado de Liberdade.

25 de Abril, sempre!

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